
Um aumento pequeno, mas persistente, na temperatura da água no oceano Pacífico equatorial coloca o planeta em alerta. Cientistas preveem que o deslocamento dessa massa de água aquecida pode desencadear o El Niño mais intenso já registrado, com consequências graves para o Brasil.
O primeiro aviso surgiu no início de junho, quando a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa) anunciou a formação do fenômeno. O El Niño ocorre quando a temperatura da água na faixa equatorial do Pacífico fica pelo menos 0,5 °C acima da média por meses, alterando a circulação dos ventos.
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Desde então, a situação se agravou. Em 13 de agosto, a Noaa informou que a probabilidade de um El Niño “muito forte” era de 90%, com chance de 69% de se tornar o mais potente desde 1950. Segundo o programa Copernicus, da União Europeia, a temperatura média do oceano em julho atingiu 20,96 °C, a maior em cinco décadas.
Super El Niño: uma combinação perigosa
O climatologista José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), explica que a classificação do fenômeno varia entre fraco, moderado, forte e muito forte. “Agora, além do aquecimento do Pacífico, temos como pano de fundo o aquecimento global. Ou seja, a soma dos dois processos”, afirma.
Ele compara a situação a colocar mais “gasolina no fogo”, pois uma atmosfera mais quente armazena mais umidade. O termo “super El Niño”, embora não seja científico, surge desse cenário agravado.
Impactos no Brasil
No país, a tendência é de menos chuva no Norte e mais no Sul. Em 1983, a cidade de Blumenau (SC) ficou submersa por cerca de um mês. Em maio de 2024, também ano de El Niño intenso, o Rio Grande do Sul sofreu uma inundação que afetou mais de 5,5 milhões de pessoas, segundo o IBGE.
Contudo, Marengo argumenta que o El Niño nunca é o único causador do desastre. A inundação em Porto Alegre, por exemplo, ocorreu quando o fenômeno já perdia força. Foi uma consequência das chuvas no Vale do Taquari, da água que chegou ao Guaíba e das comportas que não funcionaram como esperado.
Uma análise do World Resources Institute (WRI Brasil) aponta que a ocupação territorial, com muitas cidades construídas às margens de rios, foi determinante para a magnitude das perdas no estado gaúcho.
A urgência da adaptação
Com o consenso de que eventos extremos serão mais frequentes, a adaptação se torna essencial. Iniciativas como a plataforma AdaptaBrasil, do governo federal, mapeiam os riscos para os 5.570 municípios do país. Os dados mostram que São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre têm risco “muito alto” de inundações.
Essas metrópoles, no entanto, apresentam “muito baixa” vulnerabilidade, indicando maior capacidade de recuperação. A realidade é diferente em cidades como São Gabriel da Cachoeira (AM), que possui alto índice de vulnerabilidade por questões estruturais.
Filipe Falcetta, pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), ressalta que São Paulo é uma cidade repleta de rios soterrados. “O Beco do Batman, por exemplo, é uma passagem do rio Verde”, explica, lembrando a enchente que deu ao local o apelido de Beco do Aquaman.
Para Marengo, o El Niño não pode ser evitado, mas seus efeitos podem ser reduzidos. Ele destaca que o fenômeno deixou de ser apenas climático para se tornar também socioeconômico, pois os maiores impactos ocorrem em áreas de ocupação irregular.
Com informações da Revista Fapesp*
Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.
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