Estruturas do corpo humano conhecidas há um século por monitorar a pressão arterial podem ter uma função mais ampla. Um estudo realziado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) revelou que os barorreceptores aórticos também detectam sinais de inflamação no organismo e transmitem essa informação ao cérebro, mostrando uma conexão inédita entre os sistemas cardiovascular, nervoso e imune.
Até agora, esses sensores eram vistos apenas como monitores de pressão. Localizados na parede do arco da aorta, eles percebem o estiramento do vaso causado por variações na pressão arterial. A informação é enviada ao sistema nervoso central pelo nervo depressor aórtico, que ajusta os batimentos cardíacos e o calibre dos vasos.
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Fernanda Brognara, pesquisadora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) e primeira autora do estudo, explica que o mecanismo é rápido. Se uma pessoa se assusta, a pressão sobe e os barorreceptores enviam um sinal para o sistema nervoso central, que normaliza a pressão em segundos.
O grupo da USP descobriu, no entanto, que o nervo depressor aórtico também reconhece moléculas de processos inflamatórios e envia um alerta ao cérebro. Isso indica que os barorreceptores atuam como um sistema de vigilância da resposta imunológica, além de monitorar a pressão.
Como o estudo foi feito
Para investigar a hipótese, a equipe de pesquisadores induziu um processo inflamatório em ratos, simulando uma infecção bacteriana sistêmica. Em seguida, analisaram o nervo depressor aórtico e outras estruturas relacionadas.
Mesmo antes de provocar a inflamação nos animais, o grupo encontrou no nervo receptores típicos do sistema imunológico. O achado sugere que o sistema já está preparado para reconhecer rapidamente os sinais inflamatórios, como se estivesse em estado de vigilância.
A principal evidência surgiu ao analisar a atividade elétrica do nervo durante a inflamação. Os animais apresentaram queda de pressão, o que deveria diminuir a atividade dos barorreceptores. Ocorreu o contrário: o nervo passou a emitir mais sinais elétricos.
Segundo Brognara, isso demonstrou que o nervo estava sendo ativado pela inflamação, e não por alterações na pressão arterial. O resultado, publicado na revista "Basic Research in Cardiology", é uma das evidências mais consistentes de que os sensores têm dupla função.
A pesquisadora ressalta que se trata de uma pesquisa básica realizada em animais, sem aplicação clínica imediata. O próximo passo é entender como o cérebro usa essa informação para modular a resposta inflamatória. No futuro, terapias de estimulação elétrica dos barorreceptores, já usadas para hipertensão, poderiam ser investigadas para influenciar a resposta imune, mas antes é preciso confirmar se o mecanismo ocorre em humanos.
*Com informações da Agência Fapesp
Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.
