A resposta que parece acolher pode, na verdade, reforçar uma ideia equivocada. É esse o alerta que pesquisadores de tecnologia e saúde mental fazem diante do uso cada vez mais frequente de chatbots de inteligência artificial para falar sobre solidão, rejeição, relacionamentos e sofrimento psicológico. Ao tentar ser agradável e compreender o usuário, a ferramenta pode concordar demais, deixar de questionar interpretações distorcidas e até fortalecer uma narrativa que deveria ser analisada com cautela.
O comportamento é conhecido como sycophancy, termo usado para descrever respostas excessivamente agradáveis ou alinhadas à opinião apresentada pelo interlocutor. Em vez de avaliar uma situação de forma independente, o sistema pode acabar oferecendo ao usuário justamente a confirmação que ele procura, mesmo quando há elementos que indicam que aquela interpretação precisa ser questionada.
O problema deixou de ser apenas uma hipótese discutida por pesquisadores. Em abril de 2025, a OpenAI reconheceu que uma atualização do GPT-4o havia tornado o modelo excessivamente concordante e decidiu revertê-la. Segundo a empresa, o comportamento fazia com que algumas respostas validassem dúvidas, alimentassem a raiva, incentivassem atitudes impulsivas e reforçassem emoções negativas de maneira inadequada.
A preocupação ganha outra dimensão quando a inteligência artificial passa a ocupar um espaço que antes pertencia principalmente a amigos, familiares ou profissionais. O chatbot está disponível a qualquer hora, não demonstra impaciência e dificilmente interrompe uma conversa. Para alguém em sofrimento, essa disponibilidade pode tornar a interação especialmente atraente. Mas acolher uma emoção não é o mesmo que confirmar uma interpretação.
Validar o sentimento não significa confirmar a história
Para o psicólogo Vinícius Guimarães Dornelles, mestre em Psicologia na área de Cognição Humana e especialista em Terapia Comportamental Dialética (DBT), essa diferença é fundamental. Uma pessoa que não recebeu resposta de alguém próximo, por exemplo, pode sentir tristeza, insegurança ou rejeição. Reconhecer esses sentimentos é diferente de afirmar que ela foi abandonada, que ninguém se importa com ela ou que deveria terminar imediatamente aquela relação.
Na prática clínica, a validação reconhece que uma emoção pode ter causas compreensíveis, mas não transforma automaticamente a interpretação feita naquele momento em um fato. "A inteligência artificial pode ter dificuldade para fazer essa distinção, principalmente em conversas longas nas quais o sistema passa a acompanhar a interpretação construída pelo próprio usuário. Quanto mais aquela narrativa é repetida e desenvolvida, maior pode ser a impressão de que existe uma confirmação externa e imparcial", explica Dornelles.
É justamente nesse ponto que a conversa pode se transformar em um ciclo. O usuário apresenta uma interpretação, recebe uma resposta que a valida, volta ao chatbot com novos elementos baseados naquela interpretação e recebe novas respostas dentro do mesmo enquadramento. Com o tempo, a sensação pode ser de que a própria inteligência artificial confirmou aquilo que a pessoa já acreditava.
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Pesquisas investigam o efeito da concordância
Estudos recentes começaram a investigar de forma mais sistemática o impacto desse comportamento. Um trabalho divulgado em 2026 por pesquisadores ligados ao Massachusetts Institute of Technology analisou o mecanismo por meio de modelos matemáticos e apontou que chatbots excessivamente concordantes podem contribuir para espirais de crenças distorcidas, inclusive quando o usuário tenta avaliar racionalmente as informações recebidas.
Como o artigo ainda passa pelo processo de revisão científica, os resultados devem ser interpretados com cautela. Ainda assim, o estudo se soma a outras pesquisas que levantam preocupações semelhantes.
Outro trabalho, publicado em 2026 na revista Science, concluiu que sistemas de inteligência artificial tendem a validar o comportamento dos usuários com mais frequência do que outras pessoas fariam. Os pesquisadores também encontraram associação entre respostas excessivamente concordantes, menor disposição para reparar conflitos e maior confiança depositada na inteligência artificial.
Os resultados ajudam a explicar por que uma conversa aparentemente confortável pode produzir consequências diferentes das esperadas. Ao contrário de uma pessoa próxima, que pode discordar, fazer perguntas ou apontar contradições, um chatbot pode ser desenvolvido para manter a interação fluida e satisfatória. E, em determinadas situações, justamente a discordância é necessária.
Quando a IA começa a substituir outras pessoas
O uso frequente de inteligência artificial, por si só, não significa que exista um problema. A preocupação aparece quando o chatbot passa a ocupar o lugar de outras fontes de informação e relacionamento. Isso pode acontecer quando a pessoa procura repetidamente a ferramenta para confirmar decisões, passa a considerá-la a única capaz de compreender determinada situação ou começa a desconfiar de familiares e profissionais que apresentam uma interpretação diferente.
Também merecem atenção conversas prolongadas nas quais a mesma narrativa é constantemente reforçada e decisões importantes passam a ser tomadas exclusivamente a partir das respostas da inteligência artificial. "A disponibilidade permanente e a ausência de confronto podem criar uma relação aparentemente mais confortável do que os vínculos humanos, que envolvem discordâncias, limites, espera e frustração", afirma Dornelles.
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A diferença é especialmente importante porque um chatbot não realiza uma avaliação clínica. O sistema não conhece toda a história do usuário, não acompanha necessariamente as mudanças de comportamento ao longo do tempo e pode não identificar adequadamente situações de risco.
A Associação Americana de Psicologia também alerta para os possíveis efeitos não intencionais do uso de chatbots generativos e aplicativos de bem-estar como substitutos do atendimento profissional. Entre os riscos estão respostas inadequadas diante de crises, ausência de evidências clínicas suficientes para determinadas aplicações, exposição de informações sensíveis e dificuldade para lidar com situações complexas.
Como evitar que o chatbot apenas diga o que o usuário quer ouvir
Uma forma de reduzir o problema é mudar a maneira de conversar com a ferramenta. Em vez de pedir apenas uma confirmação, o usuário pode solicitar que a inteligência artificial apresente interpretações diferentes e questione as próprias premissas utilizadas na conversa.
Perguntas como "apresente argumentos contrários", "quais evidências poderiam enfraquecer essa interpretação?" e "o que você não sabe sobre essa situação?" podem estimular respostas menos baseadas na concordância.
Também é recomendável conferir informações em fontes independentes e conversar com pessoas de confiança antes de tomar decisões relacionadas à saúde, segurança, dinheiro ou relacionamentos. Essas estratégias, no entanto, têm um limite.
Pedir que um chatbot seja mais crítico não transforma a ferramenta em psicólogo nem garante que a avaliação apresentada seja segura. O cuidado precisa ser ainda maior diante de mudanças importantes no comportamento ou na percepção da realidade.
Segundo Dornelles, pensamentos de perseguição, alterações significativas no sono, isolamento, impulsividade intensa, sensação de missão especial, perda de contato com fatos reconhecidos por outras pessoas ou risco de violência e autoagressão são sinais que exigem atenção profissional. "Nessas situações, a orientação é procurar atendimento profissional. Em situações de emergência, a inteligência artificial não deve ser usada como único recurso", alerta.
A Terapia Comportamental Dialética trabalha justamente com o equilíbrio entre validação e mudança. O sofrimento da pessoa é reconhecido, mas isso não significa aceitar automaticamente todas as conclusões que surgem a partir dele. A abordagem também estimula a observação dos fatos, a regulação das emoções, a tolerância ao desconforto e a adoção de comportamentos mais seguros. É uma diferença que também vale para a inteligência artificial: uma resposta agradável nem sempre é uma resposta responsável.
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