
A Polícia Civil de São Paulo identificou casos em que o Discord levou até quase 17 dias para retirar do ar servidores associados a práticas criminosas, segundo relatórios produzidos pelo Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad). Entre maio de 2025 e janeiro de 2026, pelo menos 63 comunicações emergenciais foram encaminhadas à plataforma, envolvendo denúncias de automutilação, suicídio, estupros virtuais, abusos sexuais infantis, maus-tratos a animais, além de ataques contra pessoas em situação de rua e escolas. A média registrada nos documentos foi de 17 horas para uma resposta.
Os relatórios foram compartilhados com o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e com a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e devem ser encaminhados à Advocacia-Geral da União (AGU). Os investigadores afirmam que o Discord não possui mecanismos suficientes para impedir que menores tenham acesso a conteúdos impróprios ou ilícitos.
Segundo o Noad, a plataforma também permite a entrada sem cadastro completo, exigindo apenas nome de exibição e data de nascimento, o que possibilitaria o uso de informações falsas. Em relatório enviado à ANPD em 21 de agosto, os policiais apontaram que a ausência de uma verificação mais efetiva permanece mesmo após a suspensão das transmissões ao vivo.
Os documentos registraram 34 ocorrências relacionadas à automutilação, 22 a estupros virtuais, 15 à incitação ao suicídio, 10 a maus-tratos ou crueldade contra animais, sete envolvendo abuso sexual infantil, quatro casos de ataques ou incêndios contra pessoas em situação de rua, três de exploração sexual de crianças e adolescentes e duas de apologia ao terrorismo.
Uma mesma comunidade poderia reunir diferentes práticas. Em um relatório de 26 de junho, o Noad afirmou que “a empresa Discord tem reiteradamente adotado conduta morosa” diante de pedidos de retirada de servidores nos quais foram identificadas práticas criminosas de elevada gravidade.
Casos
Um dos episódios mais demorados começou em 15 de julho de 2025, quando a polícia comunicou às 14h45 a existência de um servidor que organizava um evento para sacrifício de gatos. Após não receber resposta, o núcleo reiterou o pedido. Em 22 de julho, sete dias depois, a plataforma negou a remoção sem apresentar justificativa, de acordo com o relatório. A retirada ocorreu somente 16 dias, 18 horas, 29 minutos e 33 segundos após o primeiro alerta. Em outro caso, comunicado em 5 de agosto sobre um servidor relacionado a estupros virtuais e automutilação, a plataforma levou 188 horas e 23 minutos para realizar a remoção.
Lives suspensas
O menor intervalo registrado ocorreu em 11 de junho de 2025. Às 19h43, o Noad informou a existência de um servidor associado a estupros virtuais, automutilação e incitação ao suicídio. A confirmação da retirada chegou às 19h59, 16 minutos depois. Os investigadores também apontaram dificuldades na identificação dos usuários, afirmando que a plataforma permite a criação repetida de perfis com pequenas alterações nos nomes. Desde 12 de agosto, as transmissões ao vivo do Discord estão suspensas no Brasil por determinação da ANPD, após a agência identificar uso recorrente do recurso em situações envolvendo violência, assédio e indução à automutilação e ao suicídio de crianças e adolescentes.
O Discord contestou os dados apresentados pela Polícia Civil e informou ter revisado os 64 casos citados no relatório, alegando “inconsistências significativas” nos registros e nos tempos de resposta. A empresa disse que, em algumas situações, o levantamento considerou o encerramento do chamado em vez do momento em que a medida foi adotada e afirmou que houve casos de remoção em poucos minutos.
*Estagiária sob a supervisão de Andreia Castro

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