Visão do Direito

Michelangelo,o professor e o seu cinzel

O educador é o artista visionário, minucioso, paciente e apaixonado que enxerga uma obra-prima em cada ser humano que adentra sua escola.

 Luciana Asper y Valdés, promotora de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios -  (crédito: Divulgação)
Luciana Asper y Valdés, promotora de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios - (crédito: Divulgação)

Por Luciana Asper y Valdés* — Em Florença, ao fim de um longo corredor da Galleria dell'Accademia, ergue-se o Davi de Michelangelo: mais de cinco metros de mármore que parecem respirar, sentir, pensar, andar e até amar. Diante dele, nem lembramos que um dia foi apenas uma pedra rejeitada. Em 1464, Agostino di Duccio começou a desbastá-la e desistiu. Anos depois, Antonio Rossellino também a abandonou. Por décadas, o bloco de mármore ficou esquecido, marcado por golpes alheios, tido como comprometido e inútil para qualquer obra.

Em 1501, um jovem escultor de 26 anos escolheu justamente essa pedra para sua próxima obra. Em 1504, Florença conheceu o Davi. Michelangelo viu no bloco o que os outros não viram. 

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O próprio artista deixou registrado como entendia o seu ofício. Em um de seus sonetos, escreveu que o melhor artista não concebe ideia alguma que um único bloco de mármore já não contenha dentro de si, envolta em seu excesso. Em carta ao humanista Benedetto Varchi, definiu a escultura como a arte que se faz "por força de tirar". O escultor, na visão de Michelangelo, não fabrica a figura: liberta-a. Seu trabalho é tão só retirar o que sobra. 

Os Davis reais, os Davis humanos, foram constituídos dessa mesma forma: obras-primas que só precisam aprender, ao longo da vida, a "retirar os seus excessos" para então serem "plenamente achadas". Obras dotadas de razão e consciência, diferentemente de todos os outros seres, para aprender a se relacionar umas com as outras em espírito de fraternidade, como afirma a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A razão é a mente: a inteligência, o conhecimento, a informação. A consciência é o lugar interior onde tudo isso é processado — o coração, as emoções, a sabedoria e a própria existência — e convertido em escolhas. E a fraternidade é o destino dessa jornada humana: relacionar-se com o outro como irmão, como família humana, e como mordomo do seu tempo, recursos, dons, talentos, competências, habilidades, inteligências e criatividade, para transformar o mundo em que está inserido em algo melhor. 

Incomoda saber que a nossa essência humana não é servir a nós mesmos? Pode até incomodar, mas, com a experiência da vida, descobrimos que a felicidade perseguida por meio do egocentrismo e do egoísmo sempre será frustrada. A fraternidade e a responsabilidade do ser humano perante o outro têm dimensão antropológica e estão relacionadas com a nossa própria concepção como seres racionais, morais e relacionais. Servir, transbordar e ser generoso é inerente à nossa condição humana. O problema é que, ainda hoje, uma formiga e uma joaninha sabem mais dessa verdade sobre elas mesmas do que nós. 

A visão distorcida do ser humano tem tolerado inversões intoleráveis e deixado "muitos blocos de mármore preciosos" jogados ao léu. Mas ainda existem os que conseguiram guardar a verdade sobre a natureza humana e não só enxergam a obra-prima, como a amam e buscam arduamente. Suas obras-primas, quando "saem para fora", são infinitamente mais belas que O Davi de Michelangelo. Esses escultores afortunados são os Professores e as Professoras que encontramos ao longo da jornada do NaMoral e que nos dão aulas sobre "ser humano" todos os dias. A convivência próxima, franca e cotidiana com eles nas escolas, nos últimos anos, me permitiu conhecer suas visões e sonhos, suas alegrias e seus corações, mas também suas dores. 

E o curioso é que eu mesma só cheguei a este lugar privilegiado de comunhão com eles em razão da dor, da frustração e da decepção que vivia todos os dias como promotora de justiça, vendo seres humanos se corrompendo, se deformando e se afastando da sua essência. Minha carreira traz isso no pacote de afazeres: ver, estudar e julgar os fatos praticados por seres humanos que, cheios de seus excessos (dores, traições, violências, egoísmos, indiferenças, inconsequências, arrogâncias, maldades...), violam e ferem a si mesmos e aos outros ao seu redor.

Um dos meus papéis? Achar uma medida que possa impedir que essas deformações continuem a fazer vítimas. 

Será que as sentenças, as condenações, as penas e as prisões conseguiriam produzir esse resultado por si só? Com quase 41 milhões de processos novos ingressando no Sistema de Justiça só em 2025, parece-me que a resposta é não. Não há como ser resolutivo em assegurar direitos olhando para eles apenas depois que já foram violados. Precisamos chegar ao antes. É necessário evitar as "corrupções", as rupturas do ser humano com seu core, com sua essência. Então, qual é o lugar em que se pode achar uma medida verdadeiramente eficaz contra as violações de direitos, as injustiças e as maldades? Esse lugar seguro se chama integridade do ser humano. E como ela é encontrada? Na educação, na formação, nos processos de ensino e aprendizagem. Existe, portanto, um antídoto, uma vacina para as corrupções que querem acometer o ser humano e matar sua identidade: o letramento para a integridade. Persigamos insistentemente a esperança, e a encontraremos. 

Educar para a integridade, educar o ser humano, alcançar o "pleno desenvolvimento da pessoa" é, inclusive, o chamado constitucional a que respondem os educadores que comungam da perspectiva de Michelangelo: veem seus alunos como obras-primas que encontrarão, por meio de oportunidades e escolhas, os cinzéis que os ajudarão a se lapidar e a revelar plenamente as belezas escondidas debaixo daquilo que é excesso. 

Nas conversas que temos, muitos professores confidenciam os medos, dores, angústias, violências, mentiras, abusos, abandonos, agressões, injustiças, misérias, inseguranças, vulnerabilidades, fome, frio, apatia, vícios, carências, indisciplinas e desinteresse que prendem suas obras-primas em seus blocos. Mesmo assim, testemunho que temos Educadores-Michelangelos, diariamente comprometidos, ainda que em condições adversas e por vezes com "cinzéis" limitados, ultrapassados ou inadequados, a achar suas obras-primas até que vivam plenamente a experiência de "ser humano": servir uns aos outros com seus dons, talentos, competências, inteligências, habilidades e criatividade, impactar e transformar o mundo e deixar suas marcas e legados. Os desafios não os intimidam nem os fazem "desistir da obra", como di Duccio ou Rossellino. Perseveram até a superação e a vitória na vida de seus alunos, como fez Michelangelo com o Davi. 

E, a cada início de ano, os professores recebem outros "blocos" de obras-primas, com excessos próprios, e começam tudo de novo. Nosso desejo? Servir e cooperar com esses Professores-Michelangelos, para que conservem seus corações persistentes, determinados e cheios de esperança diante de cada desafio da sua arte. Onde havia miséria, mediocridade, indisciplina, revolta, vícios, maldades sofridas e aprendidas, que haja uma cobertura de amor, oportunidades, experiências, disciplina e aprendizado, até que o verdadeiro estudante seja encontrado com todas as suas virtudes, valores, princípios, propósitos, sonhos, bondade, generosidade, espírito de serviço e de entrega.

Nossa estima, honra e gratidão a esses professores que não desistem e seguem, paciente, sábia, intencional e amorosamente, concedendo aos seus alunos os cinzéis que irão "retirar os excessos" até que a obra-prima seja encontrada em cada ser humano, em toda a sua integridade. Sim, vocês nos devolveram a esperança de dias melhores, de ver as dores se dissipando e a prosperidade se estabelecendo na nossa cidade e na nossa nação. 

Ao entrarem em sala amanhã, olhem para os seus alunos como Michelangelo olhou para aquele mármore esquecido: não pelo que os envolve por fora, mas pelo que já são por dentro. E contem com o Programa NaMoral como mais uma oferta de experiências reais de descoberta das virtudes humanas que nossos alunos carregam: coragem, generosidade, disciplina, humildade, responsabilidade, honra, respeito, serviço, honestidade e justiça. As oportunidades não definem as escolhas que nossos estudantes farão, mas teremos a certeza de que as oferecemos. E esse é o nosso papel.

Promotora de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios*

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Por Opinião
postado em 15/10/2026 04:00
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