Obituário

Referência no teatro, Hugo Rodas deixa legado de reinvenção artística

O ator e diretor Hugo Rodas, o mais importante nome das artes cênicas em Brasília, morreu, ontem, depois de lutar durante três anos contra o câncer

Severino Francisco
postado em 14/04/2022 06:00 / atualizado em 14/04/2022 06:13
 (crédito: Gustavo Moreno/CB)
(crédito: Gustavo Moreno/CB)

Quem não pertencia ao círculo de amizade de Hugo Rodas desconhecia que, nos últimos três anos, ele lutava contra o câncer. A vasta cabeleira, o humor vivaz e a disposição para trabalhar permaneceram intactos até o fim. Enfrentou a doença com coragem, dignidade e alegria. No entanto, depois de lutar contra um câncer e sofrer um AVC, o ator, diretor de teatro e professor da Universidade de Brasília (UnB) não resistiu e morreu ontem, aos 82 anos. Rodas estava internado no Hospital Brasília e fazia tratamento contra um câncer, mas uma metástase dificultou a recuperação do mais importante diretor de teatro da história de Brasília.

Já se apaixonou pela cidade da janela do avião. Em 1975, veio a Brasília para coordenar um curso de 15 dias e nunca mais voltou: "Hugo Rodas foi um divisor de águas nesta cidade", enfatiza Valéria Cabral, atriz que participou da primeira montagem de Os saltimbancos, dirigida por Hugo Rodas e secretária da Fundação Athos Bulcão. "Foi com ele que aprendemos a ver o teatro de outra forma e com outras possibilidades. Brigou até o fim porque tinha um amor à vida muito grande", acrescenta.

Ele era um uruguaio muito brasileiro e, mais que isso, sempre se considerou candango. Sua jornada no universo do teatro começa ainda na sua terra natal. Em Montevidéu, ingressou, nos anos 1950, na escola-teatro do Teatro Circular, referência do movimento independente uruguaio. A vinda para o Brasil, em período de repressão política no Uruguai, define a mudança de vida de Hugo Rodas, que passa a morar no Brasil, mudando-se, inicialmente para Salvador.

No mesmo ano, é chamado para ministrar um workshop em Brasília e não abandona mais a cidade. Logo em 1976, funda o Grupo Pitú, que durou até 1981. Em 1978, montou com o Pitú o memorável espetáculo Os saltimbancos, contemplado com o Prêmio do Serviço Nacional do Teatro como melhor espetáculo infantil de 1977.

O ator e diretor Guilherme Reis lembra que Hugo chegou a Brasília quando a cidade tinha 15 anos e os que faziam teatro eram muito jovens: "Ele era um cidadão uruguaio, mas um candango. Ele foi um grande mestre, um grande diretor brasiliense e brasileiro. É um grande perda, ainda tinha muita coisa para fazer." 

A atriz Carmem Moretzshon não fez faculdade de teatro, mas, para ela, Hugo Rodas foi a sua escola. "Ele parecia um vulcão, a sala de ensaio era o lado do precipício, ele não sossegava enquanto não extraísse o melhor de você. Se pegasse um clássico, reinventava tudo, não sacralizava a cultura. Era um bruxo em estado puro de invenção."

Hugo concebeu e dirigiu versões memoráveis de clássicos do teatro moderno: A casa de Bernarda Alba, de García Lorca; Senhora dos afogados, de Nelson Rodrigues; O quebra-nozes, de Tchaikóvski; A vida é um sonho, de Calderon de La Barca; Arlequim: servidor de dois patrões, de Goldoni; e O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. No fim, esses clássicos se tornavam espetáculos de Hugo Rodas. Criava e recriava com a fúria de um alquimista da cena. Ao lado dos diretores Adriano e Fernando Guimarães, Hugo recebeu, em 1996, o Prêmio Shell de direção pelo espetáculo Dorotéia.

O diretor Fernando Guimarães lembra de quando trabalhou com Hugo Rodas pela primeira vez. Foi em meados dos anos 1990, em uma montagem de Macbeth, de Shakespeare. Rodas reclamou que o jovem diretor e seu irmão, Adriano, nunca o haviam convidado para fazer uma peça. Fernando pediu, então, que ele fizesse uma síntese das feiticeiras que aparecem no texto, mas não gostou da primeira versão. Rodas preparou, então uma outra encenação. "Três dias depois ele apresentou uma feiticeira genial, e era um cenário com um andaime e ele ficava no último andaime. Foi um sucesso, a gente viajou, foi uma coisa muito legal", conta.

A partir de então, foram seis anos de colaboração no palco, parceria que culminou com Dorotéia, peça vencedora do Prêmio Shell em 1996. "Foi um encontro de alma. E olha que a gente fazia coisas muito diferentes", lembra Fernando, que ainda montou, em parceria com Hugo e Adriano Guimarães. as peças Viúva porém honesta (Nelson Rodrigues) e As desgraças de uma criança (Martins Pena). "Conviver com Hugo era um furacão. Ele te obrigava a pensar muito mais. A inspiração dele era ser o Hugo. Aquela cabeça que ele tinha de inquietação, ele trazia essa inquietação pra gente. É uma perda irreparável para nosso teatro. A inquietação desse homem, o talento."

Hugo formou cinco gerações de atores em Brasília, com as montagens nos teatros e as aulas no Departamento de Artes Cênicas da Universidade de Brasília. Formou os grupos Pitú, na década de 1980; Teatro Universitário Candango — Tucan, na Universidade de Brasília, na década de 1990, e, mais recentemente, a Agrupação Amacaca. "Hugo precisava estar perto de gente jovem para criar", comenta Carmem Moretzshon. "Os velhos não davam conta de acompanhar o ritmo frenético do Hugo. O que ele obrigou a gente fazer em Arlequim era malhação crossfit."

Em 2019, Hugo fez 80 anos, mas em vez de receber presentes, nos brindou com dois maravilhosos espetáculos, em montagem com a Agrupação Amacaca, que estabeleceram sintonia direta com o momento dramático que vivemos: O rinoceronte e Os saltimbancos. O primeiro provoca a santa indignação contra a estupidez reinante; e o segundo, celebra a alegria essencial da solidariedade. "Estamos voltando à coisa mais absurda, uma guerra santa, deus com uma metralhadora do outro lado", disse Hugo, na época. "O rinoceronte é um pouco sobre isso".

Quando irrompeu a pandemia, Hugo não caiu em depressão. Ante a irresponsabilidade e a indiferença dos governantes pela morte de milhares de brasileiros, concebeu a série de performances Quem parte é amor de alguém, em frente ao Museu da República e ao Teatro Nacional.

Com as salas fechadas e a cultura inviabilizada, ele transformou a Esplanada dos Ministérios em teatro público: "É um teatro monumental fantástico, todos os personagens do Brasil estão vivos lá", exultava. As performances de Hugo alcançaram repercussão nacional e até internacional. As imagens sobre as intervenções ficaram em quarto lugar entre as mais vistas da Agência Reuters no mundo. "Ele não parava, nos últimos dias falava em montar um espetáculo para questionar a Semana de Arte de 1922", conta Carmem. "Nunca Brasília teve um encenador da grandeza de Hugo Rodas", afirma a atriz. "Ele foi o maior. Não se acomodava, se desafiava e desafiava os outros. Só os grandes têm essa coragem".

Colaboraram Nahima Maciel,

Pedro Ibarra e Ricardo Dahen

Celebração da UnB na Esplanada

Mesmo aposentado, Hugo Rodas atuava como pesquisador associado do programa de pós-graduação em artes cênicas da UnB. Quando ficou muito doente, deixou de dar aulas nos dois últimos semestres. No entanto, recentemente, foi convidado e aceitou participar de uma comissão de celebração dos 60 anos da UnB, que pretende fazer um levantamento cinematográfico da memória da instituição. Segundo a professora Fátima Aparecida, do departamento de artes cênicas, Hugo pediu que a universidade não comemorasse o aniversário dentro dos muros da academia e estivesse presente na rua. "Ele solicitou que a celebração fosse feita na Esplanada dos Ministérios. Em 10 de junho, haverá aula pública, com a participação de 14 institutos da UnB. A cada hora será feito um brinde
aos 60 anos da Universidade de Brasília".

O legado

O secretário de Cultura Bartolomeu Queiroz emitiu nota sobre Hugo Rodas: "Perdemos um mestre do palco. Um criador inquieto movido pelas forças dos movimentos corporais. Foram mais de quatro décadas formando intérpretes nos palcos e salas de aula prontos para ocuparem teatros do mundo. O legado que Hugo nos deixa será perene". 

 

 

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