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UnB é cenário do filme 'Utopia distopia', do diretor Jorge Bodanzky

.Aspectos autobiográficos de Jorge Bodanzky, no período em que estudava na UnB, conduzem o espectador de uma perspectiva libertária até os anos da ditadura militar

Ricardo Daehn
postado em 27/04/2022 06:00
 (crédito: Canal Brasil/Divulgação)
(crédito: Canal Brasil/Divulgação)

"Presidente Jânio Quadros renuncia sob pressão de 'forças terríveis'", estampou o Correio de 25 de agosto de 1961. Na ressaca do momento feliz, com Brasil projetado pela Bossa Nova, alunos universitários como Maria Coeli, Márcia Neves e Alex Peirano Chacon, à época, circulavam num quase idílico território constituído por ideais de Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e Alcides Rocha Miranda: a Universidade de Brasília. "Acreditávamos num Brasil possível: havia esperança. A gente percebia que estava construindo um país novo", comenta o diretor Jorge Bodanzky, que assume, àquele período, o nascimento do aluno e ativista político, gabaritado para recontar toda a história de uma era com poucos registros em filme: o longa Utopia distopia (na grade do Canal Brasil, hoje, às 20h).

O círculo de amizades entre ex-alunos e professores da estatura de Jean-Claude Bernardet, Lena Coelho dos Santos e Amélia Toledo firmou praticamente uma irmandade. "O pessoal nunca deixou de se contatar. Veio, de tudo, o retrato de um sonho. Escolhi estar na UnB por causa de uma proposta libertária, inovadora, de construção de um Brasil que não foi mais possível", explica o diretor. Com o vácuo de um período que "precisava ser contado", o estabelecimento e a dissolução da semente inaugural da UnB demarca Utopia distopia. Sem rancor, Bodanzky explica da relação com a capital: "Não é mais minha cidade; deixou de ser, depois do golpe militar".

Aspectos autobiográficos de Bodanzky, no período fundante da UnB (particularmente os anos de 1962 a 1964) são projetados no filme. "Hoje, todas as universidades se burocratizaram com departamentos estanques. Isso havia sido quebrado na proposta inaugural da UnB. A ideia era de holística, em que havia o grande encontro: todas as áreas se frequentavam", destaca o diretor, ao reforçar a integração de conhecimento sublinhada por um dos entrevistados da fita, o cineasta Vladimir Carvalho, voz consciente na defesa de um "projeto de reforma" das universidades contemporâneas.

Invasões ao meio acadêmico (pelo poderio militar), manifestações estudantis e a pesada ação contestatória, na demissão coletiva abraçada por 160 mestres da UnB dão as caras em Utopia distopia. Bodanzky salienta o espírito nutrido pela universidade, na qual se via "num coletivo" e, em que, muitos moravam em alojamentos ao estilo de barracões, frente à correria no acabamento das instalações. "A gente viveu 21 anos em uma ditadura e continuou fazendo cinema. Para ser cineasta tem que ser contestador e trabalhar com o que se tem. O cineasta é um lutador", defende o autor que firma uma cinematografia com relevância política e socioambiental e que, com Iracema, uma transa Amazônica venceu como melhor filme, o Festival de Brasília de 1980.

Foi com uma máquina fotográfica Laika, emprestada justo pelo professor Luiz Humberto, que Bodanzky acelerou rumo aos futuros fotogramas para cinema, sob o complemento dos esforço do técnico de som (e amigo) David Pennington. Uma pesquisa ao longo de mais de 10 anos desembocou em Utopia distopia. Cabem, no filme, depoimentos como os de Jaime G. de Almeida, que enfatiza certa resistência à construção da UnB (para alguns pioneiros um fator de perturbação "à calmaria da paisagem política"), a atenta descrição de Gisèle Santoro, a postos para comentar dos concertos de Claudio Santoro no Auditório de Música da UnB e ainda a coroação de personalidades como Paulo Emílio Sales Gomes, Oscar Niemeyer, Heinz Forthman e Athos Bulcão.

 


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