
Natural de Brasília, Letícia Fialho lança o segundo álbum de estúdio, Revoada baile canção. Com sonoridade dançante que remete aos anos 1980 e 1990, a cantora e compositora apresenta 10z faixas que misturam ritmos tradicionais a timbres modernos. Para o projeto, Letícia contou com a participação de Thanise Silve nas flautas, banda Tuyo, Luiza Brina, Ellen Oléria, Ju Strassacapa (Francisco, El Hombre) e Mestre Anderson Miguel.
Letícia selecionou pessoas que admira o trabalho, mas que também tinham conexão afetiva com ela. “Luiza Brina e Ellen Oléria podem parecer um pouco distantes musicalmente, mas a música que a gente canta juntas fala de estrada. A gente juntou três compositoras do Brasil central e isso une a gente, cada uma de nós pegou o violão e foi para São Paulo trabalhar”, conta a cantora. “Eu pegava ônibus para ver a Ellen cantar em Brasília e hoje é uma irmã querida para mim”, relembra.
Ju Strassacapa e a Lio da banda Tuyo estavam juntas com Letícia em um camp de composição realizado pela União Brasileira de Compositores. “Senti que fazia muito sentido ter Tuyo no disco, Tuyo é uma passarada, nada melhor que aqueles vocais para trazer essa sensação de revoada”, destaca. “Quando a gente estava nesse camp, mostrei para Ju a música Presente e ela participou dessa, a voz dela é incrível, parece um canhão de luz. É uma figura que eu admiro muito, profissionalmente e afetivamente, inclusive, minha companheira hoje, é mais uma travessia”, destaca a brasiliense.
A cantora conta que os feats atualmente podem vir de uma demanda comercial, mas que pensou no lado emocional em suas escolhas. “São feats muito afetivos e de muita admiração profissional, essa escolhas não foram comerciais, são pessoas musicalmente incríveis, que eu carrego muito carinho”, reforça.
Ao Correio, a brasiliense fala sobre o processo de idealização do disco, a conexão da sua música com a capital e como compôs Revoada baile canção.
Entrevista// Letícia Fialho
Como foi o processo de idealização de Revoada baile canção?
Eu estava um tempão sem lançar disco, lancei vários EPs. Fiquei muitos anos maquinando, pensando o que eu ia querer fazer. Uma das coisas que eu queria era trabalhar com a Thanise Silva, que é a flautista que toca no disco e dirige o álbum comigo. Quando fiz essa música Revoada, senti que tinha uma inauguração de um momento novo, porque ela trazia uma coisa diferente, que dialogava bastante com essa coisa que estou chamando de baile canção, essa música brasileira dançante das antigas, dos anos 1980, 1990. Eu sentia que ela inaugurava um novo momento e eu precisava de flautas para contar essa história. Chamei a Thanise e ficamos construindo toda a história do disco.
Como funcionou o seu processo de composição do disco?
A canção que compus, Revoada, que deu o nome ao disco, inaugurou a estética do trabalho, dessa coisa dançante brasileira das antigas. Fui abrir o baú, eu já tinha muita música, tenho muita música. Quanto mais nova eu era, mais música eu fazia. Então, tenho um montão de música e várias eu adoro e quero fazer alguma coisa em algum momento. Eu fui revisitar, pensar, lembrar as músicas que eu tinha e que tivessem a ver com essa proposta, tanto com a estética musical quanto com a proposta de mensagem até do disco.
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Quais as referências musicais que você utilizou para esse projeto?
Tem coisas que eu escuto desde criança, na verdade, não foi nem mergulhar no mundo. Claro que fui pesquisar mais ainda, mas é muito memória afetiva para mim. Lilás, do Djavan, Realce, do Gilberto Gil, vários discos da Marina Lima, Guilherme Arantes, Sandra de Sá. Isso é muito baile canção. Isso é pista total, é canção brasileira, é poesia brasileira, é melodia brasileira, é harmonia brasileira.
Qual temática você queria abordar nas letras do disco?
Eu acho que esse disco é um prato cheio para a psicologia. Porque eu não escolhi as músicas pensando na letra exatamente. Eu fui primeiro nessa piração que eu estava de ver os ritmos que iam funcionar como timbre, como sonoridade. Hoje, olhando para todas as letras, eu já consigo ter um distanciamento e ver que é um disco esperançoso, que fala de travessia. Para mim, é a palavra do disco. Quando eu falo de travessia, eu não estou falando só da esperança que só considera a vitória, que só conhece o ponto de partida no qual está tudo certo. Na travessia, você conhece a dor, a dificuldade, o desespero, você conhece e atravessa. Com esperança, você atravessa; com várias forças que te ajudam naquela caminhada, você atravessa. É uma celebração da travessia, da colheita. Entre plantar e colher é uma travessia também, tem a chuva que arrasta tudo. Eu acho que por isso que ele é uma festa. Eu acho que é uma celebração de uma travessia.
Qual a ligação do seu trabalho com a cidade?
Para mim, é inseparável. Eu estou há 1 ano e quatro meses fora, estou tendo algumas reflexões do que é essa migração e vendo de fora também. E tenho pensado muito que eu quero sempre gravar em Brasília. Acho que o que a gente faz em Brasília, eu não consigo fazer em nenhum outro lugar. A gente tem um céu enorme, que é muito diferente de não ter céu. Estou aqui em São Paulo e sinto falta. Eu penso música diferente aqui. É uma relação total, tanto na minha história, de ter feito parte do Chinelo de Couro, de vários outros outros grupos, realmente, participei muito dessa cena. De Norte a Sul, eu tenho muito carinho. Para mim, é inseparável a minha música de Brasília, e do DF. Para mim, a minha maior escola foi quando eu fiz Maravilha Marginal (primeiro álbum), é sobre isso esse disco. É essa escola popular, escola da rua e de encontros. Brasília vai estar sempre comigo. Próximo disso, que eu for gravar, eu quero gravar em Brasília, eu quero fazer tudo em Brasília. Eu acho que o que a gente faz aí, não se faz em nenhum outro lugar. Falo mesmo, sou bairrista mesmo. Ando por São Paulo, fico brincando que eu ando com a pastinha embaixo do braço. Se o senhor falar 10 minutos comigo, eu pergunto se já ouviu a galera de Brasília. É muito especial, a gente não tem holofote, uma predisposição a ter um interesse artístico na gente. Eu faço questão de bater no peito porque o que a gente tem em Brasília é absurdo. Eu, realmente, rodo muito e não acho, porque a gente tem um primor formal, profissional, porque a gente se acha tão distante do mercado, que a gente trabalha em dobro. Para alguém ver um pouquinho, temos que trabalhar 500 vezes mais. É uma cena muito primorosa, não só falando de músicos e musicistas e compositores, mas toda cadeia. Brasília eu não largo nunca.
Diversão e Arte
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