Personalidade

Em série da Netflix, Dayanna Maia fala sobre momento fértil da carreira

Em bom momento produtivo, a atriz e realizadora cultural Dayanna Maia, que estará na série "Os donos do jogo", da Netflix, fala sobre os desafios do audiovisual, a autonomia no teatro e a busca por uma indústria mais justa para as mulheres

A volta de Dayanna Maia à televisão na série Os donos do jogo (Netflix) é mais do que um novo trabalho; é a materialização de um passo “desejado e batalhado”. Intérprete da doce e firme Delmira, a atriz e realizadora cultural carioca navega com maestria entre as linguagens do teatro, cinema e televisão, sempre com a marca da autonomia e da investigação profunda da alma humana.

Na trama que acompanha a disputa pelo controle do jogo do bicho no Rio de Janeiro, Dayanna vive uma personagem que lhe trouxe “um verdadeiro suspiro de esperança”. O maior desafio, revela a atriz, foi incorporar sua primeira personagem mãe. “Aprofundei tudo em mim — gestos, silêncios, entrelinhas — para entender aquilo que a faz ser quem é por dentro”, conta. O objetivo era traduzir em cena a confiança que Delmira inspira, sem perder a delicadeza e a intimidade de suas relações.

Do palco às câmeras

Formada em artes cênicas pela Faculdade CAL, Dayanna vê o teatro como seu “território de autonomia”, onde descobriu sua força e aprendeu a criar oportunidades. Foi no palco que recebeu o prêmio de Melhor Atriz por Efêmera no FETEG (2017). A transição para o audiovisual, a partir de 2021, foi um “verdadeiro encantamento”.

Ela define a diferença de forma poética: “No teatro, meu corpo inteiro precisa estar em jogo — exposto, observado de todos os ângulos. No cinema, essa presença se revela nos detalhes — no silêncio, no olhar, no que se insinua mais do que se mostra”. Para a televisão — onde participou das novelas A Rainha da Pérsia e Gênesis, na Record, e Rock story, da Globo —, ela afirma ainda estar explorando e se deslumbrando com essa nova linguagem.

Questionada sobre um papel que a tenha marcado profundamente, Dayanna não hesita em mencionar Lady D, personagem do espetáculo ESCAPE!, que ela mesma escreveu, dirigiu, produziu e atuou ao lado de Letícia Laranja. “Lady D trouxe à tona tudo que sempre quis expressar sem amarras”, celebra. A peça, que teve temporadas de sucesso no Teatro Café Pequeno (2024) e na Casa de Cultura Laura Alvim (2025), representa um marco em sua carreira: o momento de fazer teatro “sem medo de ser exatamente quem sou”.

Essa força autoral é canalizada através da AMAIA Produções, produtora fundada por ela, dedicada a criar projetos autorais e fomentar parcerias no setor cultural.

Sobre seu método de preparação para novos personagens, Dayanna não segue roteiros fixos. “Cada caminho é único”, explica. Ela investiga desejos, objetivos e relações da personagem, mas também se conecta por vias mais simbólicas, explorando cheiro, toque e fisicalidade. “Sinto que me colo à personagem quando consigo alcançar seu inconsciente”, diz, destacando a importância de validar as primeiras intuições e liberar a energia criadora sem um “cálculo excessivo”.

Força feminina

Dayanna enxerga avanços, mas também desafios persistentes para as mulheres na indústria. “O que define nossa trajetória muitas vezes ainda acaba sendo o que vestimos, nosso corpo, estilo ou nossas relações — isso ainda pode vir à frente do nosso trabalho”, observa. Ela defende a necessidade de as mulheres ocuparem seus espaços com mais segurança e aval profissional orgânico, longe de uma “vigilância constante” e da “autocobrança desmedida”.

Entre suas inspirações, cita as atrizes Yara de Novaes, Fernanda Torres, Andrea Beltrão, Susanna Kruger, Cris Larin, Tatiana Tibúrcio, Rosana Stavis… "São tantas artistas inspiradoras que, ao falar, outras vão surgindo na minha mente. Cada uma delas me inspira de maneiras diferentes e mefaz sonhar com possibilidades de colaboração e criação". Na literatura, Dayanna diz ser profundamente influenciada por escritoras que moldam sua maneira de escrever e criar: Clarice Lispector, Marguerite Duras, Hilda Hilst, Marina Colasanti, Simone de Beauvoir. "Admiro a fragmentação, o desvio, o jogo narrativo, o tensionar de sentido, a subjetividade e o fluxo de consciência presentes em suas obras, e me inspiro constantemente nesse universo de possibilidades", completa.

Para quem está começando, o conselho de Dayanna é prático e afetivo: “Desenvolva ferramentas de permanência na arte”. Isso significa criar projetos no tamanho possível, construir parcerias, “não ter medo de parecer ridículo em cena” e, acima de tudo, “lutar para permanecer alegre, mesmo diante das dificuldades”.

Sobre o futuro, a artista está em um "momento fértil”. Dedica-se à escrita de um novo projeto, dá continuidade aos trabalhos da AMAIA Produções e tem planos para expandir a peça ESCAPE!. “Estou profundamente entusiasmada com tudo o que vem acontecendo!”, finaliza, deixando claro que sua trajetória, marcada pela obstinação e pela autenticidade, está apenas ganhando novo fôlego.

Mais Lidas