Arte urbana

Projeto revitaliza nove paradas de ônibus de Ceilândia

Iniciativa agrupa elementos do hip-hop, como a periferia e as matrizes africanas

Valorização da mulher, cuidado ambiental e resgate da memória afro-brasileira são alguns dos temas dos trabalhos -  (crédito: Divulgação/willockingdfzulu89)
Valorização da mulher, cuidado ambiental e resgate da memória afro-brasileira são alguns dos temas dos trabalhos - (crédito: Divulgação/willockingdfzulu89)

Basta pôr a lata de spray em mãos para que olhares curiosos comecem a rodear Tainã Fulô. "Tem motorista que encosta e tira foto", comenta, satisfeita. São mais de oito horas até transformar em arte o espaço pelo qual centenas transitam todos os dias. No mês de dezembro, o projeto Conexões Urbanas, idealizado por Fulô,  revitalizou nove paradas de ônibus em Ceilândia por meio do grafite. "É uma forma de democratizar a comunicação visual."

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Em busca desse objetivo, Fulô mapeou lugares de Ceilândia Sul, Ceilândia Centro, P. Sul e P. Norte, onde se formou como artista. Os desenhos, cujas principais temáticas são a valorização da mulher, o cuidado ambiental e o resgate da memória afro-brasileira, se conectam à pesquisa de Fulô a respeito de territorialidade. "Enquanto pinto, as pessoas vão e voltam do trabalho, de casa. São obras inseridas diretamente no lugar da comunidade", afirma Fulô. "É uma conexão a partir da arte."

O projeto, segundo ela, se movimenta dentro do hip-hop para agrupar elementos, como a periferia e as matrizes africanas. "Ao mesmo tempo, são mulheres negras, do território da Ceilândia, em diálogo com a cidade, com quem usa o transporte público." O grafite, parte integrante do hip-hop, carrega mensagem de união entre as pessoas, que "se identificam e passam a ter orgulho de onde mora, de quem é", avalia a artista. 

"Tudo que faço vem do compromisso que o hip-hop tem com essa herança africana. Afinal, ele nasce desse contexto da juventude negra. É preservação de memória", aponta Fulô, que, além de artista, também é educadora e se dedica a pesquisar essa temática ao conectar  África e  Brasil numa perspectiva negra. "Sou afrodescendente e busco valorizar o reflexo da minha arte", completa. Nos painéis, aparecem, por exemplo,  retratos de divindades e arquétipos africanos kushitas e kemitas, formas de recontar mitologias que estão presentes na formação cultural brasileira.

O tema da natureza, por sua vez, reflete a riqueza do Cerrado. Há referências a plantas nativas, animais e águas que cortam o bioma. A partir da obra que apresenta uma sereia, a artista relata como os temas se articulam. "É tanto relato da mitologia dos povos tradicionais, a mãe d'água, quanto uma forma de trazer esse diálogo da preservação do ambiente."

Etapas do processo

Antes do ato final, que são as pinturas, o trabalho deve passar por autorizações, preparo de superfície, escolha dos elementos visuais e definição da linguagem voltada aos pontos específicos. "O que sustenta a ação é o cuidado com o espaço público e o entendimento de que a forma precisa conversar com quem circula, espera, observa e retorna todos os dias", diz a curadora do Conexões, Ju Borgê. Ela é responsável por auxiliar Tainã Fulô e emitir opiniões durante a feitura dos desenhos. A parceria entre as duas vem de longa data. 

"Ela foi uma das primeiras mulheres com quem pintei, em um contexto em que a presença feminina no grafitti ainda era mais rara e desafiadora. Desde então, acompanho de perto o desdobramento da trajetória dela", comenta Borgê. Para a curadora, as intervenções nas paradas de ônibus transformam pontos de espera, muitas vezes negligenciados, em lugares que reforçam cuidado e pertencimento. "O projeto devolve à cidade o direito de se ver representada", afirma. "Ceilândia não é apenas onde o projeto acontece, é parte do próprio corpo do Conexões."

A curadora evita apontar definições do trabalho de Fulô: "Isso tende a limitar um trabalho que é vivo, em movimento e em constante transformação". Ela diz, no entanto, que se trata de proposta comprometida com a vida real e com a coletividade. "A pesquisa de Tainã atravessa o feminino, a ancestralidade, o território e o urbano de uma forma muito própria. É uma arte que nasce da escuta e que se afirma mais pela experiência provocada do que por definições."

Dentro do projeto, realizado com apoio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), Tainã Fulô também conduziu a oficina Adinkras & stencil - arte africana na rua, na Casa de Cultura Kaluanã e no Mercado Sul Vive, em Taguatinga. A partir das atividades, a artista apresentou ao público os Adinkras dos povos Akan (Gana), que são símbolos filosóficos e espirituais de resistência africana. Os participantes também conheceram a técnica do stencil, modelos recortados e puderam criar as próprias matrizes e estampas. O resultado disso foi colagem visual que celebra ancestralidade, território e criação comunitária.

*Estagiário sob supervisão de Severino Francisco

 


  • Artista de Ceilândia, Tainã Fulô leva nova cor à cidade por meio do grafitte
    Artista de Ceilândia, Tainã Fulô leva nova cor à cidade por meio do grafitte Foto: Divulgação/willockingdfzulu89
  • Pessoas de todas as idades fixam olhares durante as pinturas, que costumam levar oito horas
    Pessoas de todas as idades fixam olhares durante as pinturas, que costumam levar oito horas Foto: Fotos: Divulgação/willockingdfzulu89
  • Projeto Conexões Urbanas revitaliza as paradas de ônibus
    Projeto Conexões Urbanas revitaliza as paradas de ônibus Foto: Divulgação/willockingdfzulu89
  • O processo envolve autorização, planejamento e preparação de superfície
    O processo envolve autorização, planejamento e preparação de superfície Foto: Divulgação/willockingdfzulu89
  • Oficina de Adinkras ensinou técnica artística a partir de símbolos que remetem a provérbios e filosofias
    Oficina de Adinkras ensinou técnica artística a partir de símbolos que remetem a provérbios e filosofias Foto: Elise Milani
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JP
postado em 03/01/2026 04:01
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