
Basta pôr a lata de spray em mãos para que olhares curiosos comecem a rodear Tainã Fulô. "Tem motorista que encosta e tira foto", comenta, satisfeita. São mais de oito horas até transformar em arte o espaço pelo qual centenas transitam todos os dias. No mês de dezembro, o projeto Conexões Urbanas, idealizado por Fulô, revitalizou nove paradas de ônibus em Ceilândia por meio do grafite. "É uma forma de democratizar a comunicação visual."
Em busca desse objetivo, Fulô mapeou lugares de Ceilândia Sul, Ceilândia Centro, P. Sul e P. Norte, onde se formou como artista. Os desenhos, cujas principais temáticas são a valorização da mulher, o cuidado ambiental e o resgate da memória afro-brasileira, se conectam à pesquisa de Fulô a respeito de territorialidade. "Enquanto pinto, as pessoas vão e voltam do trabalho, de casa. São obras inseridas diretamente no lugar da comunidade", afirma Fulô. "É uma conexão a partir da arte."
O projeto, segundo ela, se movimenta dentro do hip-hop para agrupar elementos, como a periferia e as matrizes africanas. "Ao mesmo tempo, são mulheres negras, do território da Ceilândia, em diálogo com a cidade, com quem usa o transporte público." O grafite, parte integrante do hip-hop, carrega mensagem de união entre as pessoas, que "se identificam e passam a ter orgulho de onde mora, de quem é", avalia a artista.
"Tudo que faço vem do compromisso que o hip-hop tem com essa herança africana. Afinal, ele nasce desse contexto da juventude negra. É preservação de memória", aponta Fulô, que, além de artista, também é educadora e se dedica a pesquisar essa temática ao conectar África e Brasil numa perspectiva negra. "Sou afrodescendente e busco valorizar o reflexo da minha arte", completa. Nos painéis, aparecem, por exemplo, retratos de divindades e arquétipos africanos kushitas e kemitas, formas de recontar mitologias que estão presentes na formação cultural brasileira.
- Leia também: Nelson Rodrigues: o 'imoral' da literatura brasileira que era um conservador na vida privada
O tema da natureza, por sua vez, reflete a riqueza do Cerrado. Há referências a plantas nativas, animais e águas que cortam o bioma. A partir da obra que apresenta uma sereia, a artista relata como os temas se articulam. "É tanto relato da mitologia dos povos tradicionais, a mãe d'água, quanto uma forma de trazer esse diálogo da preservação do ambiente."
Etapas do processo
Antes do ato final, que são as pinturas, o trabalho deve passar por autorizações, preparo de superfície, escolha dos elementos visuais e definição da linguagem voltada aos pontos específicos. "O que sustenta a ação é o cuidado com o espaço público e o entendimento de que a forma precisa conversar com quem circula, espera, observa e retorna todos os dias", diz a curadora do Conexões, Ju Borgê. Ela é responsável por auxiliar Tainã Fulô e emitir opiniões durante a feitura dos desenhos. A parceria entre as duas vem de longa data.
"Ela foi uma das primeiras mulheres com quem pintei, em um contexto em que a presença feminina no grafitti ainda era mais rara e desafiadora. Desde então, acompanho de perto o desdobramento da trajetória dela", comenta Borgê. Para a curadora, as intervenções nas paradas de ônibus transformam pontos de espera, muitas vezes negligenciados, em lugares que reforçam cuidado e pertencimento. "O projeto devolve à cidade o direito de se ver representada", afirma. "Ceilândia não é apenas onde o projeto acontece, é parte do próprio corpo do Conexões."
A curadora evita apontar definições do trabalho de Fulô: "Isso tende a limitar um trabalho que é vivo, em movimento e em constante transformação". Ela diz, no entanto, que se trata de proposta comprometida com a vida real e com a coletividade. "A pesquisa de Tainã atravessa o feminino, a ancestralidade, o território e o urbano de uma forma muito própria. É uma arte que nasce da escuta e que se afirma mais pela experiência provocada do que por definições."
Dentro do projeto, realizado com apoio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), Tainã Fulô também conduziu a oficina Adinkras & stencil - arte africana na rua, na Casa de Cultura Kaluanã e no Mercado Sul Vive, em Taguatinga. A partir das atividades, a artista apresentou ao público os Adinkras dos povos Akan (Gana), que são símbolos filosóficos e espirituais de resistência africana. Os participantes também conheceram a técnica do stencil, modelos recortados e puderam criar as próprias matrizes e estampas. O resultado disso foi colagem visual que celebra ancestralidade, território e criação comunitária.
*Estagiário sob supervisão de Severino Francisco

Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte