
Entre o mito e o abismo, 2025 se impôs como um ano de travessia para Kelner Macêdo. Em poucos meses, o ator paraibano conduziu o público por territórios radicalmente distintos: do cangaceiro Zé do Bode, galã rude e afetivo de Guerreiros do Sol, do Globoplay, a Cristian Cravinhos, figura central de um dos crimes mais impactantes da história recente do país, na série Tremembé, na Prime Video. Não se trata apenas de uma mudança de figurino ou de época, mas de um deslocamento profundo de imaginário, ética e corpo. "São dois personagens muito importantes na minha carreira", afirma à Revista. "Construções complexas, que eu trabalhei no risco", avalia.
O risco, aliás, parece ser o eixo invisível que sustenta sua trajetória. Entre o fim de Guerreiros do Sol, em dezembro de 2023, e o início da preparação para Tremembé, em meados de 2024, houve um intervalo fundamental para que Kelner pudesse se despedir do sertão mítico e violento do cangaço e, pouco a pouco, adentrar o território urbano, frio e documental de uma história real que ainda reverbera na memória coletiva. "Tive esse tempo para me despender do imaginário do Zé do Bode e começar a entrar no universo do Cristian", explica.
A transição exigiu uma reconfiguração total, começando pela voz. Para um ator cuja musicalidade carrega o Nordeste como marca identitária, encontrar o sotaque paulistano sem cair na caricatura foi um trabalho minucioso e obsessivo. "A dificuldade era encontrar dentro do meu registro vocal um timbre, um tempo de fala, os acentos, sem me prender a uma forma xerocada dele", conta. O processo envolveu treinos semanais com fonoaudióloga, escutas repetidas de entrevistas, podcasts e uma incorporação gradual desse novo som ao corpo em transformação.
Mas talvez o mergulho mais delicado tenha sido o ético. Interpretar uma pessoa real, responsável por um crime brutal como o assassino do casal von Richthofen, exigiu de Kelner um pacto íntimo de suspensão do julgamento. "Eu precisava me abster das minhas sensações para entrar em contato com a pessoa por trás do crime", afirma. Humanizar sem absolver, compreender sem justificar: uma linha tênue e dolorosa. "Foi muito duro encarar essa história de peito aberto, assimilar que pessoas são capazes de cometer atos terríveis. Mas era o que eu tinha nas mãos", argumenta.
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O corpo como território
O corpo, mais uma vez, foi território de acesso. Para alcançar o físico de Cristian à época do crime, o ator alterou radicalmente seus hábitos de treino e alimentação. O resultado não foi apenas estético. "Isso trazia uma outra postura, um outro tônus muscular, e contribuiu para que eu encontrasse esse Cristian em mim." No set, essa transformação se manifestava em energia, presença e tensão constante.
Nada, porém, compara-se à experiência de filmar a cena do assassinato, realizada quase em silêncio, ao lado de Felipe Simas. Ali, o peso da história real parecia condensar-se no ar. Kelner lembra menos dos pensamentos e mais das sensações: o corpo em adrenalina, o suor, o coração acelerado. "O que mais ficou foi a cinestesia criada entre eu e o Felipe (Simas, ator que interpretou Daniel Cravinhos)", conta. A relação construída em ensaio — quase como a de irmãos gêmeos — materializou-se na cena como uma ligação visceral. "É como se estivéssemos ligados por um cordão umbilical." Ao final, vieram o enjoo e uma enxaqueca que durou 24 horas, marcas físicas de um atravessamento emocional extremo.
Se em Tremembé o ator precisou silenciar julgamentos, em Guerreiros do Sol sua atuação ajudou a amplificar vozes historicamente apagadas. O romance homoafetivo vivido por seu personagem em pleno universo brutal do cangaço não é apenas uma escolha narrativa, mas um gesto político. "É importante falar do amor entre dois homens em todos os contextos históricos", defende. Ao deslocar o cangaceiro do arquétipo da virilidade rígida, a trama revela homens atravessados por afeto, desejo e vulnerabilidade. "Quando uma história dessas chega a milhões de pessoas, ela ajuda a deslocar preconceitos", defende o artista declaradamente pertencente à comunidade LGBTQIAPN .
Também no campo homoafetivo, Tremembé deu seu recado, e a repercussão popular veio em ondas intensas — da cena da calcinha, que incendiou a internet, às reações do próprio Cristian Cravinhos. Kelner não se surpreendeu. "Traçando um perfil do Cristian, já dava para esperar alguma reação polêmica." O impacto, porém, consolidou algo que o ator parece buscar conscientemente: a contradição. Em 2025, ele se tornou símbolo sexual para o grande público, rótulo que não rejeita, mas tensiona. "Queria construir um corpo desejante, apaixonante, mas capaz de matar uma pessoa a pauladas enquanto ela dorme." A sedução, aqui, é armadilha narrativa: aproxima para depois confrontar.
Longa estrada
Aos 31 anos, Kelner Macêdo soma 12 de estrada. Desde que chamou a atenção de Marcelo Caetano em Corpo elétrico (2017) — filme premiado e exibido em festivais como Roterdã e San Sebastián — sua carreira se construiu entre o cinema autoral e produções de grande alcance, como Onde nascem os fortes, Sob pressão, Verdades secretas II, Os outros e Falas negras. No cinema, passou por curtas e longas premiados, como o intimista A metade de nós — eleito melhor filme brasileiro na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo —, até chegar a Tremembé, onde "dobra a aposta" e se consolida como uma das vozes mais intensas de sua geração.
Quando olha para trás, Kelner não fala em linha reta, mas em fricção. "Venho tentando complexificar as existências masculinas, colocar em choque desejo e repressão, afeto e violência." Seu norte criador são as paisagens internas, aquilo que pulsa por dentro dos personagens. O que o move, no fim, é o impulso de ir além. "Podem me chamar de curioso." É essa curiosidade — inquieta, arriscada, profundamente humana — que faz de sua trajetória menos um caminho seguro e mais uma travessia constante entre o mito e o abismo.
Na televisão, onde os processos são mais rápidos do que no cinema, manter essa densidade exige entrega radical. "Obsessão absoluta", resume o filho ilustre de Rio Tinto (PB). Quando ele some da vida social, os amigos sabem: algo novo está sendo gestado. Essa mesma intensidade, agora, o leva ao universo do MMA, na série Fúria, da Netflix, onde vive Aníbal. Sobre o personagem, ainda é cedo para falar. O silêncio, por ora, também é parte do jogo.

Diversão e Arte
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