
Em um estúdio repleto de cenários que remetem a uma Jerusalém antiga, a atriz Ingrid Conte se desloca entre as grandiosas cenas de Ben Hur, onde compõe a sofisticada antagonista Iras na nova superprodução épica da Record. A construção, segundo ela, vai além da grandiosidade visual. "Está sendo uma experiência muito especial, porque Ben Hur pede uma entrega que vai muito além do individual", afirma Ingrid, que integra o quarteto de protagonistas ao lado de Vinicius Redd, Rômulo Weber e, mais recentemente, Bia Arantes. "A construção acontece a partir da escuta, da presença e da confiança mútua. Existe uma tensão dramática constante entre os personagens, e isso só funciona quando há cumplicidade real entre os atores", completa.
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Ingrid Conte, atriz (foto: Guilherme Franco)
Os desafios da produção, no entanto, não se restringem à química em cena. Para a atriz, há o peso de encarnar uma história já entranhada no imaginário coletivo. "É uma narrativa muito conhecida, carregada de referências e expectativas do público", explica. "O grande exercício é respeitar a obra original, mas, ao mesmo tempo, encontrar uma assinatura própria." É nesse espaço que Iras, sua personagem, ganha complexidade. Descrita por Ingrid como sua "primeira antagonista", Iras é uma mulher "sofisticada, inteligente e cheia de ambiguidade", que a desafia a "trabalhar silêncios, segundas intenções", acessando zonas menos óbvias da atuação.
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Representatividade feminina
Essa busca pela profundidade não é nova na trajetória de Ingrid. Ela remonta à experiência única de dar vida à narradora de Reis, a enigmática Naamá, cuja identidade e história só foram totalmente reveladas após sete temporadas. "Foi um processo muito singular", relembra. "Eu não sabia, inicialmente, quem aquela personagem era, de fato. Fui descobrindo a Naamá à medida que a série avançava, junto com o público." Esse exercício de construção sobre areia movediça exigiu intuição e abertura para possibilidades, uma habilidade que ela considera fundamental para o ofício.
A complexidade de personagens como Naamá e Iras, segundo a atriz, está diretamente ligada à perspectiva feminina na criação. Ela destaca o trabalho da autora Cristiane Cardoso e sua equipe de roteiristas em Reis. "A diferença é profunda. Quando há mulheres criando, escrevendo e liderando, as personagens femininas ganham profundidade", analisa. "Elas deixam de ser apenas função narrativa e passam a ter desejo, conflito interno, ambiguidade... Esse tipo de escrita dá às atrizes a possibilidade de criar personagens femininas que refletem, com mais verdade, a complexidade das mulheres reais."
Corpo como linguagem e potência
Essa reflexão sobre a representação feminina ecoa em seus papéis anteriores, que vão dos extremos. De Elisa, a jovem "doce e solar" de Gênesis, à stripper Jéssika, de Dom, série da Prime Video, cada personagem demandou um mergulho em partes distintas de si mesma. "A Elisa me conectou com um lugar de doçura e romantismo... Já a Jéssika exigiu coragem, entrega e uma quebra de preconceitos internos", compara.
Foi justamente a preparação para viver Jéssika que catalisou uma transformação pessoal profunda em Ingrid. As aulas de pole dance, inicialmente uma ferramenta de trabalho, tornaram-se uma paixão e uma filosofia. "Mudou completamente a minha relação com o corpo, com a forma como me enxergo, como me expresso e como habito o espaço", revela.
"Passei a entender o corpo não apenas como estética, mas como linguagem, força e potência", acrescenta. Essa descoberta reverbera em sua atuação e em sua postura no mundo, alimentando um senso de empoderamento que ela carrega para outros palcos.
Olhando para o futuro, Ingrid vê um momento de transição promissor na dramaturgia brasileira. "Acredito que estamos vivendo um momento importante... já vemos um movimento de narrativas mais complexas, com mulheres ocupando o centro das histórias", avalia.
E complementa com uma visão que vai além da atuação: "Vejo crescer com muita força o movimento do artista realizador: aquele que não espera apenas ser chamado, mas que busca contar, escrever e produzir as histórias que sente necessidade de contar."

Diversão e Arte
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