Humor

'Memes' são tema de exposição no CCBB Brasília

Evento promove oficinas e reflexão sobre o humor com bate-papo com convidados como Marcelo Tas e a baiana do Malfeitona

Marcelo Tas -  (crédito:  RENATO NASCIMENTO)
Marcelo Tas - (crédito: RENATO NASCIMENTO)

A criatividade do brasileiro para a criação de memes é notável, mas a raiz dessa particularidade não está apensa na facilidade e rapidez proporcionadas pela internet e, sim, na maneira como o humor ocupa espaço na vida nacional. É para falar e refletir exatamente sobre essas particularidades que o evento Memefolia traz para o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a partir de hoje, um time de convidados que pensam, fazem e estudam os memes no Brasil. A série de bate-papos vai reunir nomes como o roteirista e apresentador Marcelo Tas, o pesquisador Victor Chagas, a influenciadora e tatuadora Malfeitona, a artista Pamella Anderson, a comediante Raquel Leal e os curadores Clarissa Diniz e Ismael Monticelli, idealizadores da exposição MEME: no Br@sil da memeficação, em cartaz no CCBB. 

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Temas como os limites do humor e seu lugar na cultura digital, a preservação da memória coletiva, as relações entre o riso e a política e o papel da produtividade, da autoajuda e da meritocracia no mundo das redes sociais serão discutidos pelos convidados em encontros gratuitos até 7 de fevereiro. É uma oportunidade de revisitar a história do humor brasileiro e de refletir sobre uma linguagem especialmente amada por parte dos brasileiros. "O brasileiro ama um meme porque ama tecnologia", acredita o roteirista e humorista Marcelo Tas, apresentador do programa Provoca, na TV Cultura. 

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Tas criou, nos anos 1980, o repórter Ernesto Varela, que não tinha medo de fazer perguntas difíceis nos corredores do Congresso. A exposição do CCBB traz um dos quadros do falso repórter, que chegou a transmitir entrevistas antológicas em redes como Manchete, Record, Gazeta e SBT. "O brasileiro tem uma adesão à tecnologia, isso está em vários estudos, que é totalmente acima da média. Sempre no pódio quando o assunto é rede social, lançar moda, inventar expressões novas, trendings, invadir a conta dos outros e isso vem da nossa cultura. Somos pessoas sociáveis e temos essa desfaçatez em relação às ferramentas", avalia.  Uma série de atividades para público de todas as idades também fazem parte da programação, que tem início hoje com a oficina Tatuagem de chiclete, da baiana Malfeitona. Produtora de conteúdo desde os 14 anos, a multiartista Helen Fernandes, ou a Malfeitona, encara a internet como um mundo diverso que abraçou a tradição oral brasileira com um humor expressivo e satírico. A vocação para o meme é uma prova disso. 

No Brasil, explica  Malfeitona, o meme se tornou um dispositivo cultural. "É um dispositivo de expressão política, de comunicação, muito importante por diversos fatores. O Brasil é um país de muita tradição oral, de pessoas muito expressivas, é um país muito satírico", explica. "E, materialmente falando, o meme é uma informação de dado leve, a imagem não precisa ter um tamanho grande, não precisa ter uma internet excelente, não precisa ter um celular com um processamento excelente para você conseguir processar." Essa característica ajuda a popularizar esse tipo de informação.

Os memes produzidos por Malfeitona estão na exposição MEME: no Br@sil da memeficação, que ocupa o CCBB com conteúdo de humor produzido para o meio digital no Brasil nos últimos 30 anos. A artista lembra que a facilidade de acesso a esse tipo de humor tem vários aspectos, começando pelo fato de que nem todos têm disponível uma internet de alta velocidade ou um pacote de dados robustos. O aspecto democrático é importante no mundo dos memes. "E isso é muito relevante no contexto brasileiro. Você tem um tipo de informação que circula rápido e isso ajuda a se tornar tão popular", diz.

Outro aspecto é o da linguagem, construída para eliminar barreiras e facilitar a comunicação. "O meme é um tipo de linguagem que coloca menos barreiras em relação à escolaridade, por exemplo, em relação ao nicho em que se vive. Óbvio que tem a faixa etária, classe social, estilo, se a pessoa é mais alternativa, se a pessoa é heterotop. Óbvio que as coisas vão fazer mais sentido quando é mais específico mas, de forma geral, aquela máxima de uma imagem vale mais do que 1.000 palavras também se aplica aos memes e consegue se comunicar muito bem assim", diz a artista, que encara redes sociais  como uma espécie de espaço de lazer. Para Malfeitona, o gosto do brasileiro pelos memes tem mais uma explicação: é um povo que gosta de rir da própria desgraça. "O brasileiro é bem ligeiro, gosta de humor, é meio ácido, é crítico, apesar do que se  fala. E gosta de reclamar e apontar o dedo no que está errado, mas sabe ser leve também. Mesmo sendo crítico", garante.

Durante a oficina Tatuagem de chiclete, Malfeitona, que  também é tatuadora, vai  levar os participantes a explorarem a criação de desenhos simples e carregados de humor que serão transformados em tatuagens temporárias. A artista pretende, assim, resgatar a memória afetiva das tatuagens temporárias que acompanhavam algumas marcas de chicletes nos anos 1980. Hoje, ela participa ainda do bate-papo Vocês não estão prontos para essa conversa, com a artista brasiliense Pamella Anderson e o pesquisador Viktor Chagas, professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense. 

Coordenador do #MUSEUdeMEMES e autor das coletâneas A Cultura dos Memes (2020) e A Cultura dos Memes no Brasil (2024), Chagas conta que a história desse tipo de expressão no Brasil começa nos anos 1980, quando a internet ainda era, praticamente, inexistente como meio de comunicação de massa. O vídeo conhecido como Batman da Feira da Fruta, realizado em formato VHS, com discurso politicamente incorreto, seria um marco do nascimento do meme brasileiro. Esse material, uma redublagem da série Batman e Robin dos anos 1960, ganhou notoriedade anos mais tarde, com o surgimento do YouTube, por volta de 2006.

Para Chagas, cada país tem seu estilo de meme. "O humor, no fundo, dá vazão a uma certa expressão cultural, que é diferente de lugar para lugar, de região para região", diz. A produção memética de países como os Estados Unidos, a Rússia, a China, a África do Sul e o México, por exemplo, são muito efervescentes. O pesquisador explica que a produção norte-americana nas mídias sociais geralmente está associada ao humor que extravasa, à liberdade de expressão, uma lógica muito típica da cultura norte-americana, enquanto na os memes da China estão mais associados a uma dinâmica subversiva, justamente por conta do controle intenso e rigoroso das plataformas digitais. "E no Brasil, a gente poderia associar a cultura memética a uma cultura que se expressa através de uma certa autoafirmação", diz Chagas. A ideia da gambiarra, da favela, do precário está presente nas soluções criativas. "É rir da própria desgraça. É uma expressão muito típica do humor brasileiro na internet." 

 


  • Meme: no 
Br@sil da memeficação
    Meme: no Br@sil da memeficação Foto: Divulgação
  • Malfeitona, produtora de conteúdo
    Malfeitona, produtora de conteúdo Foto: Felipe Miranda
  • Viktor Chagas
    Viktor Chagas Foto: Divulgação
  • Histórias populares viram meme com a maior facilidade no Brasil: é o caso da carreta furacão e do Bode Ioiô
    Histórias populares viram meme com a maior facilidade no Brasil: é o caso da carreta furacão e do Bode Ioiô Foto: Divulgação
  • O CCBB reúne uma coleção de memes: verve nacional nas redes
    O CCBB reúne uma coleção de memes: verve nacional nas redes Foto: Divulgação
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postado em 31/01/2026 05:01
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