A liberdade de criar é uma das principais dádivas de ser artista. Mergulhar em novas ideias e sair da zona de conforto é, para muitos, parte das delícias que existem no meio da arte. Consolidado como um dos cantores mais consagrados da música brasileira, Ferrugem nunca teve medo de ousar. “Olha só tudo o que tenho hoje, impossível não ser grato. Eu vivo isso o tempo inteiro”, destaca. Agora, entre o soul dos anos 1970 e o pagode que o levou ao topo, ele lança o inédito álbum Sentimento.
O trabalho demorou quase dois anos para ser pensado e concluído. Isso, de certa forma, graças ao meticuloso ideal que o artista carioca queria que fosse utilizado como conceito do projeto. “Se eu ouvir o disco, muito possivelmente vai ter alguma coisa nele que eu queira mudar. É sempre assim”, brinca. Com 12 faixas inéditas, o disco do artista carioca mergulha em referências americanas e brasileiras.
Fundo de Quintal, Cartola e nomes como Earth, Wind & Fire estão por trás da estética que ele desejava e que conseguiu trazer. “Tive um certo receio: vou retratar os anos 1970, nessa pegada do 'trem do soul', mas cantando samba. Onde me encaixo? Aí comecei a pesquisar o samba daquela época. Vi Roberto Ribeiro, Cartola e o Fundo de Quintal. Os caras usavam blusão aberto, cordões, relógios. Era a licença poética que eu precisava. A gente quer beber na fonte americana, mas sendo brasileiro. E o que mais temos aqui é referência", explica.
E de fato, o carinho de Ferrugem com o novo projeto não está somente nas letras ou melodias que sempre conquistam o público fiel do cantor. As roupas da época, a parte visual e as coreografias com os integrantes da banda são quase que uma máquina do tempo. Ele teletransporta a nova geração para um momento áureo do samba e pagode brasileiros, elevando o nível da música nacional e o seu próprio.
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Sonhos realizados
O novo disco é diferente de tudo o que Ferrugem já fez. Um marco individual que, certamente, jamais será esquecido. Para além disso, o artista carioca não cansa de realizar sonhos. Em seu sorriso, é nítida a gratidão por tudo o que tem vivido e conquistado até aqui. Agora, ele se junta ao amigo e ídolo Péricles para a realização da turnê As Vozes. O que começou como uma relação de ídolo e fã evoluiu para uma amizade familiar, impulsionada pelas esposas dos dois artistas.
"É muito maneiro. Você volta a fita e lembra de quando esse cara nem sabia quem você era. Hoje, ele me dá conselhos, me repreende, é uma relação fraternal e paternal. Nossas famílias se conectaram", revela Ferrugem. A turnê, que terá registro ao vivo, é vista por ele como o ápice da trajetória: "Meu maior sonho era conhecer o Péricles. Ele passou a admirar meu jeito de fazer música e viramos amigos. Poder viver isso sendo protagonista junto com o meu maior ídolo dá um filme sobre a minha vida. No primeiro show, em Recife, já peço perdão se eu não conseguir cantar bem todas as faixas pela emoção."
Os dois, inclusive, já lançaram um single juntos, como prévia dessa parceria. A faixa Foguete está disponível em todas as plataformas digitais. Empolgado com a nova fase, Ferrugem não esconde a expectativa por tudo o que vai viver em 2026, em especial por começar o ano com um trabalho tão esperado pelos fãs.
Um olhar para o novo
Reconhecido por ter uma das vozes mais técnicas e bonitas do país, Ferrugem rechaça o título com humildade, preferindo exaltar seus pares. "Eu prefiro a voz do Pericão", brinca. Mas ele também mantém os ouvidos atentos ao futuro. Durante a entrevista, fez questão de exaltar um talento de Brasília que tem chamado sua atenção.
"Tem alguém aí de Brasília que é muito foda, o Magrão (do Benzadeus). Ele é o melhor dessa última geração. É inacreditável esse cara cantando", afirma o cantor, demonstrando que, mesmo no topo, continua sendo um entusiasta do gênero.
Para quem for aos shows, o aviso do artista está dado: a caracterização será total. O objetivo é causar estranheza e tirar o público da zona de conforto. "A galera vai achar que saímos de uma máquina do tempo. Quero que olhem e falem: 'esses caras estão malucos'. Quero que o público sinta o abraço da música e reviva os anos 1970 pela primeira vez."
