
Há 20 anos, uma jovem paulistana subia aos palcos pela primeira vez, sob o peso trágico de As troianas. O que parecia um início era, na verdade, o desdobrar de um fio condutor que teceria uma carreira singular: a arte da transformação. Lisandra Cortez, hoje aos 40, não é apenas uma atriz que transitou com naturalidade entre teatro, televisão, cinema e as novas plataformas. É uma artista que fez da mutação ofício e da busca por equilíbrio, bússola. Em 2026, ela retorna à tevê aberta na minissérie As sete Marias, da Record, mas leva a sabedoria de quem aprendeu que o palco mais importante é o do autoconhecimento.
A trajetória é conhecida do público: a estreia nas telinhas em Malhação em 2006, a protagonista Laura em Amigas & rivais (SBT), passando por sucessos como Chamas da vida e Rebelde, (na Record), e Chiquititas e As aventuras de Poliana, também no SBT. Uma filmografia que a colocou no coração de gerações. No cinema, marcos como Aja por instinto (2013) e, mais recentemente, o premiado O retorno 2 — Nós fomos avisados, pelo qual conquistou o troféu de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival FICC de 2025. "Esses trabalhos foram fundamentais na minha trajetória e tenho um carinho enorme por todos eles", afirma Lisandra.
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Ao longo desses 20 anos, a atriz aprendeu que a profissão abraçada exige movimento constante. "O ator precisa estar sempre se reciclando, estudando, atualizando — não apenas tecnicamente, mas também como ser humano. Com o tempo, entendi que seguir me desenvolvendo emocional e mentalmente é tão importante quanto qualquer preparação artística", defende. Para ela, a indústria é desafiadora, cheia de incertezas, e cuidar do equilíbrio interno é fundamental para atravessar os altos e baixos com lucidez e continuidade. "Talvez uma das maiores lições seja compreender que essa carreira não é feita apenas de talento. Ela exige resiliência, persistência e força emocional. Muitas vezes, quem permanece não é necessariamente o mais talentoso, mas quem consegue se manter inteiro, curioso e comprometido com o próprio crescimento", completa.
A força da fé
Por trás das câmeras, no entanto, crescia uma mulher com uma sensibilidade aguçada para o mundo ao redor. As redes sociais se tornaram um painel de conexão com a natureza, da prática esportiva como pilar do equilíbrio e, durante o ápice da pandemia, do '#PapoÉLeve' — um farol de histórias inspiradoras e humor em tempos sombrios. "Em um momento de tanta incerteza, acredito que o papel do artista é justamente criar pontes, abrir conversas e oferecer algum tipo de respiro", reflete a atriz.
É essa mulher, mais complexa e consciente, que desembarca em As sete Marias. O projeto, que mistura suspense a uma narrativa bíblica, a atraiu pela força da história de Maria Madalena — a apóstola dos apóstolos. "Uma história de cura, libertação e por essa transformação total", define. A personagem que interpreta, Aziza, é "uma mulher simples, que vive para a família", e cujo destino se entrelaça profundamente ao da protagonista. "A relação delas muda bastante", adianta, sem revelar mais.
O prêmio recente no cinema veio por Leah, uma missionária perseguida em O retorno 2. "Representa a força da fé para mim", compartilha Lisandra. "Foi um reconhecimento muito importante, uma validação de que estou no caminho certo." Esse caminho, hoje, é pavimentado por uma curiosidade intelectual que a levou a iniciar estudos em psicologia no ano passado. "Senti que seria interessante aprofundar ainda mais na psique das minhas personagens", explica, detalhando como usa técnicas de respiração e visualização para construir jornadas radicais, como a de Ana Valença, protagonista da novela vertical em que atuou em 2024, que se transforma após uma tragédia familiar.
Fome artística
Questionada sobre papéis que ainda deseja explorar, Lisandra demonstra fome artística: comédia com timing e ironia; mulheres históricas complexas; personagens de ação ou de época. "São desafios que me animam e com os quais me identifico cada vez mais", define a atriz, que também atuou em uma produção sobre a banda Mamonas Assassinas.
Mas é ao falar do teatro que os olhos parecem brilhar, mesmo à distância das palavras escritas. O retorno aos palcos, em 2023, com A megera domada reacendeu a chama da liberdade total. "No palco, o corpo do ator é um território de imaginação", descreve com paixão. "No espetáculo, interpretei quatro personagens completamente distintos — uma donzela, um nordestino, um mineiro e um turco — e essa multiplicidade é algo que só o teatro proporciona com tanta força."
O futuro imediato reserva mais transformações. Além da minissérie, Lisandra se prepara para um novo projeto teatral no qual atua e também faz a produção. "É um trabalho que aborda temas muito atuais, como saúde mental e tecnologia, e que estou encarando como um novo superdesafio", conclui. O conselho para os novatos é direto: "Não tenham pressa e não se comparem. Cada trajetória é única. Cuidar do emocional e do mental é tão importante quanto qualquer técnica".

Diversão e Arte
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