
Daphne Bozaski entrou em Três Graças como quem abre uma porta sem pedir licença. Como ela mesmo diz, Lucélia chegou "chegando", carregando carisma e uma energia capaz de deslocar o eixo da novela. Em poucos capítulos, a personagem deixou claro que não estava ali para ocupar lugares previsíveis. Por trás do sorriso seguro e da postura elegante, escondia-se uma moral elástica, alianças instáveis e uma ambição silenciosa. Nada em Lucélia é simples, e talvez seja justamente por isso que tenha se tornado uma das figuras mais comentadas da trama.
Essa complexidade ganha novos contornos com a aproximação do poderoso empresário Ferette, personagem de Murilo Benício, e do chefe do tráfico Bagdá, de Xamã — dois vilões profissionais da trama criada e escrita por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva. Essas parcerias prometem redefinir conflitos, redesenhar alianças e colocar fogo em relações que pareciam sólidas. Inserida no núcleo do casal gay maduro Kasper (Miguel Falabella) e João Rubens (Samuel de Assis), Lucélia passa a atuar como estrategista, alguém que move peças sem levantar suspeitas, ferindo acordos e reinventando seu lugar na história.
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Para Daphne, esse território é um desafio. "Fazer uma vilã é divertido pelo poder na narrativa de desestruturar, remexer na história do outro", diz a intérprete da sobrinha órfã que vem do interior e, logo de cara, mostra sua inveja pela prima, Meg (Mell Muzillo). Depois de anos interpretando personagens marcadas pela doçura e pela empatia, ela se vê diante de um espelho diferente. "É sair da zona de conforto da Daphne. Isso tem me atraído muito na condução e na construção dela", avalia.
O processo, segundo a atriz, exige deslocamento interno: "Não é fácil olhar para o mundo com as lentes da Lucélia." Ainda assim, reconhece no incômodo uma medida de sucesso. "Ver o público com raiva e querendo ver mais sobre o que vai acontecer é sinal de que o objetivo está sendo atingido", comemora a paulistana de 33 anos, mas com feições de menina.
A construção da personagem passa por um ritual sensível. Daphne parte de imagens, filmes e, sobretudo, da música. "Uso músicas que me coloquem na atmosfera da personagem e entendo a energia dela em cada cena", explica. A trilha emocional funciona como chave de acesso à mente de Lucélia. O maior desafio é encontrar o equilíbrio. "Colocar fogo nas cenas, mas não deixar ela se queimar", resume. É nessa fronteira que nasce a ambiguidade: mostrar quem a personagem é e quem ela finge ser.
Para isso, a atriz precisa suspender julgamentos. "Ao estudar a personagem, deixo o meu filtro ético e moral para embarcar na cabecinha da Lucélia", afirma. É um exercício de empatia radical, que exige olhar para zonas desconfortáveis de si mesma. "Tem sido desafiador explorar outros sentimentos dentro de mim e deixar eles aflorarem sem julgamento", conta.
Representatividade
O contraste é ainda mais evidente quando se olha para o ponto de partida da carreira de Daphne na televisão. Em Malhação: Viva a diferença, ela deu vida à inesquecível Benê, personagem autista que se transformou em símbolo de representatividade e afeto. "A Benê é um marco para mim pessoalmente. Foi impressionante o poder de me conectar com tantas pessoas e ver o quanto se sentiam representadas", orgulha-se.
Mais do que um papel, foi um aprendizado contínuo: sobre ritmo de gravação, câmera e responsabilidade social. "A Benê é um diamante na minha carreira, que guardo e honro muito", define a atriz, que, na sequência, incorporou mais duas moças de qualidades claras: Dolores em Nos tempos do imperador e Lupita em Família é tudo.
O reencontro com a personagem em As Five (spin-off produzido pelo Globoplay) ampliou esse vínculo. Já mãe, vivendo outra fase da vida, Daphne voltou àquele universo com novas camadas emocionais. "Foi muito incrível resgatá-la dentro de mim e fazer esse percurso bonito e desafiador que foi crescer junto com ela", pondera, deixando claro que a despedida definitiva foi, ao mesmo tempo, dolorosa e formadora.
Entre Benê, Dolores, Lupita e, agora, Lucélia, a atriz construiu uma trajetória marcada pela diversidade. Passar da empatia quase imediata para o cálculo frio exige coragem. "O desafio é buscar algo autêntico, dentro de tantas vilãs maravilhosas da dramaturgia, e não ter medo das escolhas da personagem", explica. Para a artista, não se trata de suavizar a vilania, mas de torná-la verdadeira.
Essa recusa ao conforto parece ser um traço central de sua trajetória. "Sou uma pessoa inquieta. Gosto de criar, gosto de explorar universos diferentes", destaca. Para ela, os papéis não surgem por acaso: "O universo é um espelho que reflete o que a gente é". Mesmo sem poder escolher todos os projetos, Daphne acredita que a entrega faz diferença. "Mergulho e acredito muito nos meus personagens. Talvez por isso não me rotulem em uma caixinha", aposta.
Artes do encontro
Fora dos estúdios, a vida também é intensa. Ao lado do marido, o chef Gustavo Araújo, ela comanda a Casa do Araújo, restaurante que se tornou ponto de encontro afetivo e cultural no coração paulistano. Conciliar gravações, viagens, maternidade e o próprio negócio não é simples, mas, para ela, faz sentido. "Quando faço algo que amo, tudo fica mais leve", sublinha. Mesmo com o cansaço, ela se sustenta no afeto: "Dou conta porque amo demais tudo isso".
A relação entre gastronomia e atuação, para Daphne, é profunda. "São artes do encontro", frisa. Ambas dependem do coletivo, da escuta e da troca. A Casa do Araújo, nesse sentido, é extensão de sua sensibilidade artística: um espaço para desacelerar, comer bem, ouvir música, ler textos e compartilhar experiências. "É um lugar de possibilidades", aponta.
Com tantos registros já explorados, os sonhos continuam abertos. "Vários! Muitos!", responde, sem hesitar. O desejo não é chegar a um ponto definitivo, mas seguir em movimento: "Ser atriz é estar em constante exploração".
Quando olha para trás, da ingênua Benê à calculista Lucélia, Daphne Bozaski identifica uma linha invisível que atravessa sua trajetória: a busca pela verdade emocional, pela entrega sem atalhos, pela liberdade de ser múltipla. E resume, como quem deixa um recado para si mesma e para o público: "Seja o que tiver que ser, seja o que quiser ser".

Diversão e Arte
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