
O frevo, o axé music e as tradicionais marchinhas são conhecidos por marcar a trilha sonora do carnaval. A maior festa ao ar livre do mundo, porém, se mostra mais democrática a cada ano, abrindo espaço para novos ritmos. Em Brasília, a folia de fevereiro também passa a ser tomada por blocos de música eletrônica, pagode, rock, funk e até mesmo reggae.
Desde 2017, um projeto que se destaca em meio ao carnaval brasiliense é o Bloco Eduardo e Mônica. Fundado em 2017 pelos músicos Marquinho Vital, Rony Meolly e Diogo Villar, que à época já faziam parte de bandas de rock, o grupo foi fruto de uma reunião de amigos roqueiros em meio à folia. "A ideia surgiu em um período em que a gente não estava tocando muito. Sentimos falta de ocupar esse espaço e, ao mesmo tempo, valorizar o som que é característico da nossa cidade", contam os integrantes.
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Segundo eles, foi natural o movimento de levar o ritmo das guitarras e das baterias para a maior festa popular do país. "É fundamental manter viva a chama do nosso som tradicional de Brasília. A cidade tem no DNA o chamado rock da capital, que marcou gerações e ajudou a construir nossa identidade cultural. Levar isso para o carnaval é uma forma de reforçar quem somos e mostrar que a folia pode, sim, abraçar diferentes sonoridades sem perder sua essência", ressaltam os integrantes do Eduardo e Mônica.
"O rock é parte pulsante do DNA brasiliense e, por que não dizer, do brasileiro também. Quando misturamos o nosso som com a atmosfera do carnaval, o espírito da festa só se fortalece. É a identidade da cidade ocupando as ruas, celebrando junto, mostrando que tradição e inovação podem caminhar lado a lado", acrescentam.
Para os artistas, o carnaval "é mistura e diversidade, tudo junto ao mesmo tempo". "O rock também é folia, alegria e celebração coletiva. Quando as pessoas estão cantando juntas, fantasiadas, vivendo aquele momento de liberdade, pouco importa o ritmo, o espírito é o mesmo. O rock tem energia e tem coro, e isso combina totalmente com o carnaval", afirmam os músicos.
Um ano antes do Eduardo e Mônica, outro movimento que vai na contramão dos ritmos mais badalados do carnaval surgia. O Bloco Maria Fumaça, criado em 2016 por meio da união de DJs, MCs e sound systems, tem como proposta tornar o carnaval de Brasília mais plural, trazendo o reggae para a celebração. "A nossa intenção sempre foi ocupar as ruas, fazer bailes gratuitos e, assim, dialogar com o carnaval, que é essa festa de rua acessível para todos", explica o fundador Bruno "Jacob".
"O reggae tem essa característica dançante e vibrante, assim como o carnaval, sem deixar de lado a conscientização em relação à questão racial e social", destaca o organizador. "No nosso bloco não existe qualquer tipo de preconceito, e essas mensagens são frequentemente trazidas durante o baile, para que as pessoas saibam que ali é um local de respeito", garante.
"Nós vemos o carnaval e o reggae intrinsecamente ligados, principalmente pelo fato de serem manifestações populares, que congregam pessoas de todas as classes e raças", aponta. "Hoje, no Brasil, esse feriado é muito representado pelo samba e pelo frevo, que são músicas pretas, assim como o reggae", defende o organizador.
Bruno ainda ressalta que, ao irem além dos ritmos tradicionalmente carnavalescos, blocos como o Maria Fumaça possibilitam que mais pessoas participem da folia. "A maioria de nós (organizadores), por exemplo, não costumava frequentar o carnaval por não se encontrar ali naquela festa. Apesar de gostarmos de música brasileira, a gente não se sentia tão à vontade para sair e curtir como agora", conta. "Acho que essa adesão acaba engrandecendo o movimento", opina o fundador.
Ainda por volta de 2016 e 2017, o Na Batida do Morro surgiu em meio a "falta de representação da periferia em uma data tão preta quanto o carnaval", lembra a mestre de cerimônias do bloco, Afromel. "Tanto o carnaval quanto o funk são formas de resistência cultural e expressão das comunidades periféricas. Eles quebram barreiras, desafiam normas e celebram a identidade negra e popular. É uma forma de dizer "estamos aqui, somos fortes e estamos nos divertindo!", pontua. "É um momento de celebrar toda a diversidade do patrimônio cultural brasileiro", acrescenta.
Do pagodão à eletrônica
No Pagodão Delas, criado no ano passado, o pagode toma conta dos mais diversos sucessos de carnaval. "A gente faz adaptação de várias músicas e também incluímos vários axés no nosso repertório. Procuramos fazer algo muito diferente do que todo mundo já viu", adianta a sócia do bloco, Maisa Lameira. Por ser a "festa mais eclética do Brasil", de acordo com a organizadora, é essencial que blocos como o Pagodão Delas promovam essa mistura de ritmos. "Além do samba, que é mais tradicional, trazemos alguns elementos da atualidade, tentando atrair todos os tipos de faixa etária e ampliar nosso público", detalha Maisa. "Além disso, o pagode é alegre, percussivo e cheio de felicidade, então não tem como ele não ser totalmente irmão do axé, do carnaval e da alegria", complementa.
Em outro extremo musical, em meio às pickups e controladoras, os DJs do bloco Filhos de Guetta, criado em 2018, mantém a tradição do carnaval viva ao "tratar a festa como um ritual". "Para mim, isso é uma postura carnavalesca", afirma o idealizador do projeto, Ian Viana. "Os eletrohits são o nosso berço, mas no carnaval tudo é possível. Por isso, fazemos adaptações, remixes e tocamos outros estilos de música. Se tem uma coisa que a gente não tem problema nenhum é mesclar ritmos e tradições", assegura.

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