Com obras de 10 instituições nunca reunidas em um único espaço e vindas de São Paulo, a exposição Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral desembarca no Centro Cultural TCU, a partir de amanhã, com 63 obras da artista mais icônica do modernismo brasileiro. Com curadoria de Karina Santiago, Rachel Vallego e Renata Rocco, a mostra faz um passeio original pela obra da artista ao abordar temas que combinam a trajetória estética de Tarsila com seu percurso de vida.
A curadoria quis explorar um recorte alternativo à forma cronológica que geralmente conduz as exposições de Tarsila do Amaral. "O que estamos fazendo é mostrar a Tarsila de forma que nunca foi mostrada, então temos um recorte em quatro núcleos nos quais não necessariamente uma obra que faz parte da imagem das fases da Tarsila está relacionada ao tema", explica Karina Santiago. Além dos núcleos com as obras, haverá também uma sala imersiva para explorar detalhes do Abaporu (1928), obra emblemática da produção da artista e que hoje pertence ao Museu da Arte Latina de Buenos Aires (Malba).
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O recorte realizado pela curadora pretende traçar a descoberta de Tarsila enquanto artista e enquanto mulher. O núcleo inicial, Estar no mundo, é dedicado aos primeiros estudos, trabalhos mais clássicos e espécie de ponto de partida comum à trajetória de todos os artistas. É quando Tarsila começa a desenvolver a própria linguagem ao descobrir o cubismo na Europa. Nesse segmento, estão dois dos grandes autorretratos da artista: um com o vestido laranja, pertencente ao acervo do Museu de Arte de São Paulo (Masp), e outro mais conhecido, intitulado Autorretrato número 1 e datado de 1924.
Segundo a curadora, a ideia dessa introdução foi mergulhar os visitantes nos primeiros anos de formação da artista, quando ela começa a transformar a experiência de vida em expressão artística. "Esses estudos clássicos vão prosseguindo ao longo dos anos e ela começa a incorporar as experimentações ligadas às vanguardas, ao expressionismo, ao cubismo", explica Karina. "E fazemos paralelos com obras de uma e outra fase, para levar o público a entender como ela modifica o estar no mundo de acordo com o avanço nos estudos."
O núcleo seguinte, Olhar o mundo, retoma a postura da artista quando ela descobre os universos que a cercam. São Paulo passa por um processo intenso de industrialização no início do século 20, Paris, para onde Tarsila viaja para uma segunda temporada, está efervescente com as vanguardas modernas que transformam as artes plásticas e se tornam referências mundiais. Vinda de uma família cafeeira tradicional do interior de São Paulo, a pintora começa a retratar as paisagens interioranas e volta tinta e pincel para explorar um Brasil que se descobre moderno. Obras como Estrada de ferro Central do Brasil (1924), São Paulo (1925) e algumas pinturas religiosas, uma seara importante na produção de Tarsila, fazem parte desse núcleo. "A gente fala de tudo que ela expressa observando o mundo. E nesse núcleo tem os textos de Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Sérgio Milliet. Ela olha para a cidade, para os amigos, para a religiosidade e para a fazenda", avisa a curadora.
No terceiro núcleo, Mergulho onírico, a intenção é mostrar o envolvimento da artista com outras vertentes modernas, como o expressionismo, o fauvismo, o cubismo, o surrealismo, nos quais Tarsila bebe para sintetizar uma linguagem figurativa muito imaginativa e brasileira. "É a Tarsila elementar digerindo todos esses movimentos, tudo o que ela absorveu, criando essa estética que as pessoas batem o olho e reconhecem", diz Karina. Aqui estão obras como o desenho Antropafagia, um estudo para a pintura A Negra e o desenho Bicho pernilongo. "É muito interessante ver como ela começa a deixar a imaginação fluir e começa a imprimir essa coisa forte da Tarsila", repara a curadora.
Em Olhar o outro, o último núcleo, a figura humana passa a ocupar papel central nas obras e Tarsila volta a atenção para o social, para o próximo, para o esforço de ver e compreender o que se passa além da própria bolha. Neste segmento estão obras como Costureiras, Segunda classe e Operários. Pintada em 1933, esta última é uma das obras mais importantes da artista nessa fase e, hoje, pertence ao acervo do Governo do Estado de São Paulo. "É nossa obra principal e fecha o núcleo e a exposição", avisa Karina Santiago, que empreendeu um trabalho de convencimento para que instituições e colecionadores liberassem as obras. "Foi um poder de convencimento mesmo, falar com os colecionadores, disponibilizar esse acervo que normalmente está no eixo Rio-São Paulo e mostrar o quão é importante que a população conheça uma de nossas maiores artistas", diz.
Paixão antiga
À frente de programas como Avisa lá que eu vou (GNT) e Pablo&Luisão (Globoplay), o apresentador Paulo Vieira é, além de fã de comédia, um apaixonado por artes plásticas e um admirador inveterado da obra de Tarsila do Amaral. Foi em um leilão que ele adquiriu o desenho das crianças brincando que hoje empresta para a exposição Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral. "Comprei há alguns anos. Todo trabalho que faço, tiro um dinheiro e compro uma obra de arte", avisa. "E você encontra obras da Tarsila para vender, tem estudos, gravuras. Essa obra é da terceira fase dela, mas tem o traço muito redondinho dela. O Malba tem uma cópia."
Para Vieira, Tarsila é a maior artista plástica do Brasil, e ter uma obra dela sempre foi um sonho. "Sou apaixonado por Tarsila e desenvolvi uma relação com ela, desde estudar o máximo que posso uma obra dela até ir ao MoMA ver a exposição", conta o apresentador, que foi a Nova York em 2018 para conferir a primeira exposição da modernista nos Estados Unidos. "Sempre tive uma relação com a arte, é o lugar em que mais invisto meu dinheiro. Comprei essa gravura da Tarsila antes de ter minha casa própria. Não gasto com carro, roupa, mas tenho amor grande por arte", garante Vieira, que nunca havia emprestado o desenho para uma exposição.
Para ele, o grande diferencial de Tarsila do Amaral está nas próprias escolhas da artista. "Gosto muito do caminho ideológico que ela percorreu, tanto no movimento antropofágico quanto na Semana de 22, que, por mais branca que tenha sido, era uma tentativa de romper com a Europa e fazer uma coisa brasileira. E gosto quando ela volta mais para o social, que vai entender melhor a política. É uma artista admirável", acredita.
Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral
Curadoria: Karina Santiago, Rachel Vallego e Renata Rocco.
Visitação a partir de amanhã e até 10 de maio, diariamente, das 9h às 18h, no Centro Cultural TCU (Setor de Clubes Sul, Trecho 3).
Entrada gratuita
