Antes mesmo da inauguração de Brasília, operários e autoridades que, à época, contribuíam para a construção da nova capital celebravam o carnaval em uma cidade ainda em obras. Em 1961, ano seguinte da "grande estreia", a folia já era celebrada oficialmente nos famosos bailes em clubes do Plano Piloto, tradição que perdurou por anos no quadradinho. A expansão do Distrito Federal e o crescimento de suas regiões administrativas, no entanto, fomentaram na população a vontade de levar a festa de fevereiro para além do eixo central.
Fundado em 1995, o Mamãe Taguá foi um dos primeiros blocos do Distrito Federal a consolidar a folia nas cidades satélites. "Essa história de que o carnaval de Brasília acontece só no Plano Piloto é folclore", declara o organizador Jorge Cimas. "Na verdade, a maior parte do público que comparece às ruas é o público de fora da cidade central", defende. Em 2025, o bloco que reúne pessoas de todas as idades reuniu cerca de 20 mil foliões no Taguaparque.
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Taguatinga, conta Jorge, divide uma história extensa com a folia. "Antigamente, a própria administração da região promovia o carnaval na comercial norte", lembra o organizador. "A gente brincava nas ruas e passava acenando para quem ficava nos olhando nos prédios e tudo mais. Era um carnaval de arrasto, que chamava as pessoas da região", detalha. "Porém, por muito tempo, essa festa ficou parada. Foi a gente que retomou isso, em 1995, com o Mamãe Taguá, colocando de novo o povo na rua", lembra.
Outro exemplo de folia fora do Plano é o Bloco do Seu Júlio, que ocorre desde 2010 em Planaltina. Inspirado pelo carnaval de rua de Macapá, capital onde nasceu, Júlio Paixão, ao se mudar para Planaltina em 1988, tentou recriar as memórias afetivas da infância e adolescência nos bloquinhos do Plano Piloto.
A sensação, porém, era de que faltava algo — assim, em 2010, ele criou o Bloco do Seu Júlio. "Nosso projeto nasceu a partir da nossa família brincando nas ruas da comunidade e se mantém vivo graças ao envolvimento dos moradores, comerciantes, voluntários e trabalhadores locais", reconhece o vice-presidente do bloquinho, Juliano Castelo.
"São essas pessoas que ajudam na organização, que participam ativamente, que trabalham no evento e que acreditam no projeto. A população é fundamental para colocar o bloco na rua, porque são eles que constroem a energia, dão legitimidade e transformam o evento em um verdadeiro patrimônio cultural da cidade. Sem o povo, não existe carnaval", declara o organizador, que é filho de Seu Júlio. Neste ano, a expectativa é que 35 mil pessoas compareçam ao bloco.
"Mostramos que é possível fazer um carnaval grandioso, premiado e reconhecido, levando cultura e alegria para além do centro de Brasília, valorizando a região administrativa em que moramos e fortalecendo a identidade local", acrescenta. O Seu Júlio foi vencedor do troféu de Melhor bloco de rua de Brasília do CB Folia em 2019, 2020 e 2023.
Para Juliano, expandir os horizontes da folia no DF é uma questão de democratização da cultura. "O Distrito Federal vai muito além do Plano Piloto, e as cidades também merecem acesso a grandes eventos culturais. Muitas famílias têm que sair daqui e andar 45 quilômetros para aproveitar o carnaval no centro de Brasília. Justamente por isso é tão importante o carnaval nas cidades satélites. Uma festa forte em Planaltina gera emprego, movimenta a economia local, fortalece o comércio, valoriza artistas da região e cria oportunidades. Além disso, engrandece o sentimento de pertencimento e orgulho da população", afirma.
Em Águas Claras, no entanto, a folia ainda é recente, explica Alyson Soares, produtor do Bloco da Toca. "Ainda estamos em processo de consolidação, mas ganhamos força a cada ano. Fomos pioneiros desse movimento e desde 2018 ajudamos a estruturar e fortalecer a cultura do carnaval de rua na região. Em uma cidade com alta densidade populacional e forte verticalização, a realização do bloco em área central e de fácil acesso permite que muitos moradores participem a pé, o que cria um sentimento de pertencimento e proximidade", aponta o organizador.
"Quando o carnaval acontece em diferentes territórios, ele se torna mais democrático, equilibrado e sustentável, tanto do ponto de vista cultural quanto logístico", avalia Alyson. "A existência de carnaval fora do Plano Piloto é fundamental para a descentralização cultural do Distrito Federal. Levar a folia para outras regiões administrativas amplia o acesso, fortalece as identidades culturais locais e garante que mais pessoas possam vivenciar o carnaval perto de casa", pontua Alyson.
Dois anos antes da criação do Bloco da Toca, o CarnaFlow, por sua vez, já tomava as ruas de Ceilândia. "Para curtir qualquer rolê no Distrito Federal, quase sempre é preciso atravessar a cidade e percorrer longas distâncias até o Plano Piloto. A nossa ideia foi romper com essa lógica. Criamos um bloco na nossa própria cidade, para que a juventude pudesse viver o carnaval com qualidade, segurança e pertencimento, perto de casa, do jeito que a nossa quebrada merece", manifesta Antônio de Pádua, coordenador do projeto.
O organizador do bloco ainda destaca que é fundamental que exista carnaval fora do Plano, "porque a cultura do Distrito Federal não está concentrada no centro". "As periferias produzem arte, movimentam a economia e criam experiências culturais potentes e não ficam devendo nada a nenhum bloco do Plano. O CarnaFlow é gratuito, de qualidade e com atrações de peso. Isso reafirma que o acesso à cultura não pode ser privilégio de poucos", ressalta o coordenador.
No CarnaFlow, o envolvimento da comunidade vai além da participação dos foliões e é destaque nos bastidores. "O bloco é realizado pelo Jovem de Expressão e carrega uma dimensão formativa muito forte. Toda a execução técnica e logística, do som à iluminação, passando pela produção de campo, é feita por jovens formados nas oficinas do programa. O evento funciona como um verdadeiro laboratório prático, fortalecendo a economia criativa nas periferias e gerando oportunidades reais de aprendizado e trabalho", assegura Antônio.
Mamãe Taguá
Hoje, das 13h às 20h,
no Taguaparque (estacionamento do Centro Cultural)
Carnaflow
Hoje, a partir das 16h, na Praça do Cidadão — Ceilândia
Bloco da Toca
Amanhã, das 14h às 21h, na Rua do Lazer — Águas Claras
Bloco do Seu Júlio
Terça, a partir das 14h, no Parque de Exposições de Planaltina
