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Com posição política firme, Paulo Betti afirma: "A arte deve ser livre"

Veterano da dramaturgia brasileira, Paulo Betti revive personagem icônico em "Três Graças", roda o país com monólogo autoral e fala sobre a consciência política que marcou sua carreira artística. "Não tinha como eu ser neutro", desabafa o artista

 Paulo Betti, ator
     -  (crédito:  SERGIO ZALIS)
Paulo Betti, ator - (crédito: SERGIO ZALIS)

Entre turnês pelo país e o reencontro com personagens que atravessaram gerações, o ator, autor e diretor Paulo Betti reafirma a convicção de que a arte continua sendo uma forma essencial de resistência e afeto. De volta à televisão na novela Três Graças, Betti reviveu o inesquecível Téo Pereira, criado originalmente em Império, novela de 2014 vencedora do Emmy Internacional. A nova versão do personagem — na novela assinada por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva — trouxe novamente à cena o fofoqueiro ácido e carismático que conquistou o público.

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"É muito bonito fazer as pessoas rirem", afirma. Para ele, o humor tem função quase terapêutica: "A vida não é fácil, é muito complicada, cheia de problemas. Então, ter um momento em que você ri é precioso. Às vezes, alguém está num hospital, prestes a ser operado, e você aparece na televisão fazendo rir. Isso é precioso". O retorno ao personagem teve também um caráter íntimo "Foi como receber a visita da minha irmã Teresa, cujos gestos eu copiava para o Téo", revela o paulista de 73 anos.

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Essa relação afetiva com os papéis atravessa toda a trajetória do ator. Personagens como o boêmio Timóteo, de Tieta (1989), o gigolô Wanderley de Mulheres de areia (1993) e o prefeito Ypiranga de A indomada (1997) continuam vivos na memória popular. "Os garis gritam 'Curuzes!' na rua, e eu fico feliz. E eu fico felicíssimo com isso, porque eles estão querendo me provocar, gozar da minha cara, mas, ao mesmo tempo, eles estão se divertindo, e eu estou fazendo com que eles se divirtam. Isso é bom", conta. 

No início, Betti chegou a temer que o colunista de fofocas afeminado Téo Pereira — um tipo ousado e inédito em sua carreira até então — reforçasse estereótipos. "Achei que pudesse ser negativo para os gays. Mas meu sobrinho, que é gay, adorava, e aquilo me tranquilizou. É um personagem", defende.

Paulo Betti como Téo Pereira, de "Império"
Téo Pereira, de Império, retornou em Três Graças (foto: Globo/Divulgação)

Autobiografia autorizada

Se na televisão Paulo construiu uma galeria de tipos memoráveis, é no teatro que vem aprofundando sua própria história. Em turnê há anos com o monólogo Autobiografia autorizada, o ator celebra cinco décadas de carreira ao narrar suas origens humildes. A peça nasceu, curiosamente, de um impasse ético. Ao ensaiar um texto sobre a morte, percebeu que algumas falas contrariavam sua própria trajetória.

"Quando fui fazer os primeiros ensaios, percebi uma coisa que me fez escrever meu próprio monólogo. O personagem que eu fazia, um homem esperando a morte, falava sobre ela em diversas culturas. Mas, às vezes, ele dizia: 'Minha mãe tinha uma empregada doméstica', e contava alguma fala engraçada dela. Eu não conseguia falar aquilo de forma orgânica, porque me sentia traindo minha mãe, que tinha sido uma empregada doméstica. Falar aquilo parecia que a peça ia contra a minha mãe", lembra Betti.

A partir disso, decidiu escrever. No palco, conta a saga de um filho de servente de pedreiro e doméstica, criado em um bairro negro, que encontrou na escola pública o caminho da ascensão. "É um elogio ao ensino público. Minha trajetória só foi possível por causa dele", reconhece.

Essa consciência social vem da infância, Betti nasceu em Rafard (SP), em uma casa que havia sido senzala e, ainda menino, ficava observando a "casa grande" a partir dali. "Isso marcou muito a minha vida, na perspectiva de um olhar mais apurado com relação à questão das pessoas negras. Não tenho lugar de fala, mas estou atento", garante, enquanto cita Laurentino Gomes como referência nessa reflexão.

Monólogo Autobiografia autorizada, de Paulo Betti
No monólogo Autobiografia autorizada, o ator fala da própria infância e da adolescência (foto: Mauro Kuri)

"Os mornos não irão para a glória eterna"

Politicamente atuante, o ator não esconde o preço dessa postura. "Vindo de onde eu vim, na época em que fui adolescente, no ginásio, durante a ditadura, com a minha origem familiar, não tinha como eu ser neutro. Eu tenho, talvez, esse defeito de não conseguir manter uma neutralidade que seria até favorável para mim. Se eu fosse neutro, teria mais oportunidades de trabalho, poderia fazer propagandas comerciais, teria um leque maior de oportunidades financeiras", admite. Ainda assim, prefere manter a coerência. "Mas como eu sempre acho que há uma alternativa melhor que a outra, vou escolhendo essa alternativa, e não consigo ficar neutro. A Bíblia me ampara nesse sentido, dizendo que os mornos não irão para a glória eterna", pondera.

Sobre o cenário cultural, Betti é direto: "Viemos de uma terra arrasada". Para ele, a reconstrução passa pelo fortalecimento institucional e por nomes como Margareth Menezes, atual ministra da Cultura. "O Ministério da Cultura tem feito o possível para a reconstrução do arcabouço cultural do país, contra esse desejo de destruição que foi colocado em prática nos últimos quatro anos", avalia. Enquanto isso, segue contribuindo como pode: além do espetáculo, promove debates e encontros nas cidades por onde passa. "Faço palestras, bate-papos, encontros para tentar ajudar o desenvolvimento do teatro nos lugares onde a peça vai, conversando com os interessados em arte. Precisamos de arte, precisamos de cultura", conclui.

Para o ator, não há temas proibidos. "A arte deve ser livre", defende. E se surpreendeu ao perceber como sua história pessoal ressoa no público: "As pessoas se projetam. Riem, se emocionam. Aquilo vira um pouco da história de cada um".

Paulo Betti como Timóteo de Tieta
O Timóteo de Tieta é um dos tipos mais emblemáticos (foto: Globo/Divulgação)

Sem rótulos

Ao longo da carreira, Paulo transitou entre vilões, cômicos e tipos ambíguos, sem se prender a rótulos. "O espectador confunde ator e personagem. Às vezes, te odeiam por causa de um papel." Ainda assim, nunca teve preferência. "Não tenho preferência por nenhum gênero de personagem. Percebo agora que, na maioria das vezes, levei meus personagens para a comédia. Por alguma razão, sempre que pude, fiz isso, porque acho que rir é tão bom. Fazer as pessoas rirem faz tão bem", orgulha-se o virginiano.

Sobre a ausência de veteranos nas novelas, faz um alerta: "Abdicar da experiência não é inteligente". Para ele, o público da televisão aberta ainda valoriza rostos conhecidos e trajetórias consolidadas. "Diferentemente de um jogador de futebol", salienta. Já em relação à influência das redes sociais nos elencos, relativiza: "Quem é bom fica". Ele cita como exemplo Wagner Moura, que construiu uma carreira internacional sem presença digital ativa. "Acho que é uma profissão difícil, e só fica nela realmente aqueles que são persistentes, independentemente de terem muitos seguidores ou não", declara.

Aos 73 anos, Betti não demonstra temor em relação ao futuro da dramaturgia. "As pessoas sempre vão precisar de histórias", afirma. E faz questão de registrar sua gratidão aos autores, especialmente a Aguinaldo Silva, com quem trabalhou cinco vezes. "Somos muito dependentes da palavra escrita. Precisamos dela para respirar", garante. Curiosamente, foi essa dependência que o levou à escrita. Ele lembra que sempre escreveu, mas nunca se viu como autor. Só quando precisou ser fiel à própria origem é que percebeu que precisava contar sua história com as próprias palavras. "Fui obrigado a escrever a peça, que se transformou em um livro. É um processo contrário: a escrita, a palavra, veio primeiro", finaliza.

 

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postado em 07/03/2026 07:00
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