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Júlio Rocha reflete sobre 30 anos de carreira: "O que importa é o arrepio"

De volta às novelas em "Três Graças", o ator e criador de conteúdo Júlio Rocha fala sobre o perfil dúbio de seus personagens e como se desdobra para falar com 5,5 milhões de seguidores que consomem seus conteúdos digitais. "Se causa emoção, é legítimo"

Julio Rocha, ator e criador de conteúdo -  (crédito: Divulgação)
Julio Rocha, ator e criador de conteúdo - (crédito: Divulgação)

Na reta final de sua participação em Três Graças, o ator Júlio Rocha se despediu de um personagem que carrega a marca de muitos de seus papéis na televisão: homens ambíguos, sedutores, perigosos. Na trama, ele interpretou Edilberto, criminoso envolvido no sequestro do bebê de Joélly (Alana Cabral) e Raul (Paulo Mendes). O destino do personagem foi abrupto: acabou morto por engano por Arminda, vivida por Grazi Massafera, que na verdade pretendia atingir a vilã Samira, traficante de pessoas disfarçada de chef de cozinha interpretada por Fernanda Vasconcellos.

Para Rocha, o retorno às novelas depois de mais de uma década afastado teve sabor de reencontro. O convite para a produção da Globo veio em um momento em que o ator voltava a sentir o chamado da dramaturgia televisiva. "Ao voltar ao teatro com uma peça de Aguinaldo Silva e Virgílio Silva, em São Paulo, a vontade de fazer novela voltou a aparecer. Fui alimentado por esse sonho pela presença dele (Aguinaldo). Quando veio o convite da Globo, fiquei arrebatado", conta o múltiplo artista de 45 anos, referindo-se ao espetáculo A vida começa aos 60, o qual protagoniza com Luiza Tomé, sob direção de Maciel Silva.

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Afastado das novelas desde a década passada, Rocha não ficou longe das câmeras. O intervalo foi ocupado por uma reinvenção profissional que mistura entretenimento, publicidade e vida familiar. Em casa, com a esposa e os filhos, ele passou a produzir conteúdo para as redes sociais, onde soma cerca de 5,5 milhões de seguidores. "Era como se fôssemos agricultores familiares. Produzíamos nosso próprio conteúdo, cultivando aquilo dentro de casa. De repente, voltei a atuar em algo que não era criação doméstica", diz.

A ausência da ficção televisiva, segundo ele, teve menos a ver com escolha e mais com circunstâncias. "Não teve convite", resume. Depois de participar da série Ilha de ferro (2017-2018), do Globoplay, Rocha desenvolveu um projeto próprio que unia entretenimento e educação. Inspirado pela primeira gravidez da esposa, criou o quadro Sou pai, e agora?, dedicado aos desafios da paternidade de primeira viagem. A atração foi exibida durante cinco meses dentro do programa matinal da TV Globo Bem estar, em 2019. "Vi que era muito caro produzir sozinho e vendi para a Globo", recorda.

Pouco depois, a reprise da novela Fina estampa, de 2011, exibida no horário nobre durante a pandemia, reacendeu a lembrança do público sobre um dos personagens mais populares do ator: o sedutor Enzo. O retorno do rosto à televisão coincidiu com uma explosão de presença digital. Rocha passou a investir pesado em conteúdo para redes sociais e publicidade. Já são mais de 200 colaborações com marcas, além de projetos pessoais que misturam humor, narrativa e cotidiano familiar.

Júlio Rocha, ator e criador de conteúdo
Júlio Rocha fala com 5,5 milhões de pessoas no Instagram (foto: Divulgação)

Paternidade

Hoje, o paulistano — casado com Karoline — é pai de José, de 7 anos, Eduardo, de 6, Sarah, de 3 — e aguarda a chegada de mais um bebê, prevista para o meio do ano. A paternidade, diz ele, não foi ruptura, mas continuidade: "Pai é uma sequência de quem o Júlio sempre foi. Sempre fui família, então, fluiu com muita naturalidade".

Ao longo de três décadas de carreira — marco que celebra em 2026 — o ator construiu uma galeria de personagens que orbitam a sedução e a malandragem. Entre eles estão o vilanesco Edgar de Caras & Bocas, o malandro João Batista de Duas caras e o alpinista social Jacques de Amor à vida.

"Herói todo mundo sempre gosta de ser. O vilão é quem a gente precisa enfrentar", reflete. "Tenho muito recurso como artista, então gosto desses desafios", acrescenta o libriano.

Essa versatilidade, segundo ele, nasceu cedo. "Com 7 anos de idade eu já me vestia de mulher", lembra, citando as primeiras experiências performáticas na infância que se reverberam agora nas redes sociais. 

Paralelamente à atuação, Rocha construiu uma carreira sólida como criador de conteúdo — termo que prefere ao rótulo de influenciador. "O influencer é guiado pela vida pessoal. O creator tem dramaturgia, storytelling", define.

No currículo, ele acumula experiências variadas: apresentou quadros no Video Show, participou do Mais você, comandado por Ana Maria Braga, e chegou a integrar por um período a bancada do TV Fama, da RedeTV!. Durante muito tempo, no entanto, ele próprio resistiu ao universo digital. "Eu era do teatro. Sou cria do Grupo Galpão. Tive uma formação muito forte em São Paulo. Tinha pudor e preconceito com produção de conteúdo, assim como tive no início com publicidade e televisão. Foi difícil quebrar paradigmas", revela. 

 

Júlio Rocha é casado com Karoline, que está à espera do quarto bebê
Júlio Rocha é casado com Karoline, que está à espera do quarto bebê (foto: Divulgação)

Formação

Hoje, além de produzir, Rocha ensina. Criou o curso 'Formação de criador de conteúdo', que começou com uma turma de 25 alunos e tem como objetivo compartilhar seu método de criação e narrativa digital. "Ensino a gerar conteúdo e, com isso, transformo vidas por meio da educação. O preconceito com educação não cabe", pondera ele, que acredita que as redes podem revelar talentos inesperados — de médicos a professores — que talvez nunca encontrassem espaço na mídia tradicional. "Às vezes estamos perdendo a chance de conhecer talentos incríveis porque essas pessoas não se expõem", completa.

Mesmo com a presença forte no ambiente digital, Rocha não descarta novos projetos de dramaturgia — inclusive as chamadas novelas verticais, pensadas para plataformas móveis. Por ora, porém, prefere manter o foco no equilíbrio entre atuação, publicidade e produção de conteúdo. "Com pelo menos uma produção publicitária por semana, faço o 360. É uma imersão na narrativa da marca, demanda muito tempo", relata. 

Se a novela exigiu abrir mão de alguns projetos, o balanço é positivo. "Perdi volume, ganhei qualidade. Só ganhei. Volto com força total", conclui. 

Trinta anos depois das primeiras experiências artísticas — das esquetes cômicas em bares à televisão — Rocha parece seguir movido pelo mesmo critério que ouviu do pai ainda menino. "O que importa é o arrepio. Se causa emoção, é legítimo", finaliza. 

 

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postado em 15/03/2026 17:52
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