
Em Três Graças, Lena surge em cena como uma personagem que inquieta, provoca e divide opiniões. Solitária, atravessada pelo desejo de ser mãe e capaz de ultrapassar limites éticos ao comprar a filha da jovem Joélly, vivida por Alana Cabral, ela se tornou um dos papéis mais complexos da carreira de Barbara Reis. Justamente com essa personagem, a atriz celebra 10 anos de trajetória na televisão.
"Voltar às novelas com Três Graças tem um significado muito especial para mim", afirma a carioca. "O convite veio do diretor artístico Luiz Henrique Rios, e isso me deixou profundamente feliz e honrada. É muito bonito quando um diretor que acompanha sua trajetória acredita em você para uma personagem tão complexa", reconhece.
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Lena concentra temas delicados como maternidade, solidão, desejo e carência afetiva. Para Barbara, interpretá-la exige maturidade emocional e rigor ético. "A Lena mexe com questões muito sensíveis. Voltar para esse formato diário com uma personagem assim é desafiador e instigante. Eu me sinto mais madura, mais consciente das minhas ferramentas como atriz", avalia a atriz de 36 anos.
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Ao falar das contradições da personagem, ela evita julgamentos fáceis. "A Lena acredita que está agindo movida por amor. Existe ali um desejo genuíno de criar laço, de pertencer, de construir uma família. O conflito nasce quando esse desejo ultrapassa limites éticos. Eu tento olhar para a solidão e para o vazio que ela carrega. Isso não justifica, mas humaniza", explica ela, que divide cena com Leandro Lima, intérprete do marido, Herculano — seu cúmplice na negociação feita com a traficante de bebês Samira (Fernanda Vasconcellos).
A discussão sobre maternidade atravessa a trama — criada e escrita por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva — e dialoga com as convicções pessoais da atriz. "Eu tenho muita clareza de que maternidade é escolha, não obrigação social. Quando interpreto uma mulher atravessada por esse desejo intenso, eu preciso separar completamente do meu lugar pessoal. Essa clareza me ajuda a mergulhar na urgência da personagem sem misturar com os meus próprios valores", afirma Barbara, que, na vida pessoal, não descarta, mas não tem pressa de ser mãe.
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Trajetória segura
A segurança com que Barbara conduz Lena hoje é resultado de uma trajetória construída passo a passo desde 2016, quando estreou em Velho Chico, no papel da jovem Doninha. Ao relembrar aquele início, ela fala com emoção: "Sinto muita gratidão. A Doninha foi minha porta de entrada na televisão e marcou profundamente a minha vida. Eu era muito jovem e estava vivendo tudo pela primeira vez".
Com o distanciamento do tempo, a atriz reconhece a própria coragem. "Hoje olho para aquela menina com carinho e respeito. Ela tinha medo, mas tinha muita coragem também. Foi ali que eu entendi que queria contar histórias e que essa profissão exigiria entrega, disciplina e verdade", diz.
O reconhecimento veio rapidamente. Logo após a estreia, Barbara emendou trabalhos em Dois irmãos e Os dias eram assim, na TV Globo, e Jesus, na Record, mergulhando em narrativas densas e complexas. "Foi uma imersão intensa. Eu comecei a entender diferentes linguagens de narrativa e a aprofundar meu trabalho de composição", recorda.
Na personagem Cátia, a universitária revolucionária de Os dias eram assim (2017), despontavam marcas que se tornariam recorrentes. "Ela já tinha essa força interna, essa inquietação diante das injustiças. Acho que ali começou uma sequência de personagens que questionam estruturas e buscam autonomia", observa.
A busca por diversidade artística a levou também à série bíblica Jesus, em que viveu a gladiadora Susana. O desafio foi duplo: físico e emocional. "Quando a história está tão distante no tempo, eu procuro o que é universal. Quais são os medos? Os desejos? A necessidade de sobreviver?. O que conecta o público é o que permanece humano", argumenta.
Em Éramos seis (2019), Barbara consolidou seu prestígio ao interpretar Shirley, personagem frequentemente associada à vilania. Ela, porém, buscou outras camadas. "Ninguém é unilateral. Busquei entender as dores, as frustrações e as ambições dela. Quando você encontra as fragilidades, encontra também as nuances", sublinha.
Ponto de virada
Essa abordagem se aprofundou em 2022, com a perversa Débora, de Todas as flores (2022), uma mulher envolvida com tráfico de pessoas. "Foi uma personagem muito desafiadora porque lidava com uma realidade extremamente cruel. O meu processo é nunca julgar. Eu preciso defender a personagem dentro da lógica dela", defende. Para ela, compreender é fundamental para evitar estereótipos: "Quando você entende a origem da distorção, a vilania ganha profundidade e deixa de ser caricata."
O maior ponto de virada veio em 2023, quando protagonizou Terra e paixão, novela das 21h, de Walcyr Carrasco, em que contracenou com Cauã Reymond, Gloria Pires e Tony Ramos. Aline, sua primeira mocinha no horário nobre, representou um novo patamar de visibilidade. "Foi um divisor de águas. Minha primeira protagonista, uma mulher movida por justiça, mas também por amor à terra e à família", comemora. A atriz lembra do peso simbólico do papel: "A exposição é grande, mas eu encarei com responsabilidade. Representar mulheres fortes do interior do Brasil foi uma honra. Foi um trabalho de muita entrega e maturidade".
Paralelamente à televisão, Barbara ampliou sua atuação no cinema e no teatro. Além de atuar no filme Agentes muito especiais, ela também se dedica aos palcos. Um dos momentos mais emblemáticos foi interpretar Ruth de Souza no musical Ruth & Léa. "É uma das maiores responsabilidades da minha carreira. Tenho buscado entender não só a artista, mas a mulher, sua elegância, sua firmeza, sua coragem", frisa. Segundo ela — que também teve oportunidade de dar vida à ativista estadunidense Rosa Parks no especial da TV Globo Falas negras —, esse tipo de papel ultrapassa o campo artístico: "É mais do que um trabalho. É um compromisso com a memória cultural do nosso país".
É no teatro, no qual também desenvolve projetos autorais, que a atriz encontra seu alicerce. "O teatro é o meu chão. É o lugar da escuta absoluta, da entrega no aqui e agora. Ele me lembra por que eu comecei", diz, referindo-se, entre outros trabalhos, ao espetáculo Limítrofe, que conduz ao lado do companheiro de vida, Raphael Najan.
Ao completar uma década de carreira, Barbara avalia seu crescimento com serenidade. "Eu cresci entendendo que força não é rigidez. É escuta, vulnerabilidade e constância", reflete a filha do Meier. À jovem que estreou em 2016, deixaria um conselho simples: "Confiar mais no processo e não ter tanta pressa. A carreira é uma construção diária. O mais bonito é perceber que, a cada personagem, eu também me transformo como mulher".

Diversão e Arte
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