Casamentos equivocados, processos legais, ameaças químicas, queda de máscaras sociais e personagens intensamente reprimidos povoam o altamente estético e potente cinema do norte-americano que ganha retrospectiva no CCBB: a Mostra Todd Haynes.
Exibida com ingressos gratuitos, a programação vem de projeto idealizado por Hans Spelzon, sob curadoria da dupla Carol Almeida e Camila Macedo. Ao todo, serão exibidos 23 filmes, num calendário que segue até 22 de março.
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"Filmes que vi, na adolescência, continuam a impulsionar minha estética como diretor, já que tive a sorte de ser exposto a tudo — de obras de Orson Welles a Stanley Kubrick", conta o cineasta de 65 anos, em entrevista exclusiva ao Correio.
Vencedor de prêmios em Cannes, Berlim e Veneza, além de indicado ao Oscar, Haynes é amante do registro em luzes artificiais, celebra o glam rock e preza tipos andróginos e repletos de feminilidade. A programação relacionada a um dos mestres do New Queer Cinema começa hoje, às 18h30, com Não estou lá — que registra facetas diversificadas de Bob Dylan, em interpretações de múltiplos atores como Heath Ledger, Richard Gere, Cate Blanchett e Christian Bale.
Mestres que nutriram o olhar de Haynes também terão fitas exibidas, entre os quais John Cassavetes e David Lean. Aspectos alternativos de Todd habitam o documentário The Velvet Underground (2021), enquanto crises éticas despontam em O preço da verdade (2019) e flertes ganham cores em filmes como Carol (2015) e Segredos de um escândalo (2023).
Entre os prêmios, Todd coleciona a menção honrosa no Festival de Veneza, por Longe do paraíso (feito em 2002, e que explora melodrama de dona de casa); a melhor contribuição artística em Cannes, por Velvet Goldmine (1998), sobre cenário do rock londrino setentista; e ainda o Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance, além do prêmio Teddy, no Festival de Berlim, por Veneno (1990), com três enredos que desafiam convenções.
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Entrevista //Todd Haynes, cineasta
É inevitável existirem comparações de época de produções de todo e qualquer filme?
Muitas vezes, considero como asseguradas as notáveis inovações e aventuras cinematográficas que ocorrem entre os cineastas contemporâneos, na revigorada sensação que sinto ao revisitar períodos do passado. Tudo, desde os desenvolvimentos radicais durante a era do cinema mudo até o auge da sofisticação de Hollywood nas décadas de 1940 e 1950, passando pelas experiências da década de 1960 e, claro, a era do cinema em que cresci, a dos anos 1970, seja nos Estados Unidos seja na Alemanha.
O senhor percebe avanços ou retrocessos nas experiências formuladas em torno de temas gays?
O cinema queer irrompe de todos os cantos, seja em Canção de amor (avançado filme de 1950), de Jean Genet, no cinema underground de Andy Warhol nos anos 1960 ou mesmo nos melodramas políticos revisionistas de Rainer Werner Fassbinder. Mas a homossexualidade não se equipara necessariamente à prática sexual de alguém. Os filmes de Douglas Sirk são verdadeiramente queer em sua visão persistentemente antinatural da moralidade heterossexual e na tristeza residual que paira sobre seus falsos finais felizes.
O que a decisão do Festival de Cinema de Berlim de retrair faceta política revela?
Estive muito ocupado para acompanhar de perto, mas isso vai contra tudo o que a cidade de Berlim e aquele festival, em particular, representam.
Ao observar o fenômeno Trump, você consegue notar algum aspecto ou ângulo positivo?
Talvez, apenas haja o da repulsa avassaladora que ele provocou em tantas pessoas nos Estados Unidos e no exterior, ampliando a força dos focos de resistência e oposição que serão necessários para superar este capítulo vil e desprezível da história americana.
Você lembra de filmes inspiradores da sua adolescência? Quais foram?
Os filmes que vi na adolescência continuam a impulsionar minha estética como diretor, já que tive a sorte de ser exposto a tudo, de Orson Welles a Stanley Kubrick, passando por Nicolas Roeg — e, principalmente, tive contato com a cultura do cinema de repertório que era a norma na maioria das cidades norte-americanas, onde era possível assistir a uma sessão dupla diferente de cinema de arte europeu, cinema latino-americano, cinema asiático, cinema cult, cinema clássico de Hollywood, cinema gau. Isso, todas as noites da semana
Poderia falar sobre o longa De noche (em filmagem, com Danny Ramirez e Pedro Pascal, no qual vivem um amor nos anos de 1930, com ideal de fuga para o México)? Em que aposta para deleitar o espectador?
É uma história de como o amor e o desejo podem superar divisões raciais e sexuais, bem como condições de exploração e corrupção, muito semelhantes às que enfrentamos hoje. A era dos anos 1930 nos guiará (como espectadores), mas o país e o povo do México, e o extraordinário Pedro Pascal, tornam esta aventura possível.
Bob Dylan (a fonte suprema de enfoque no longa Não estou lá, de 2007) te toca de que modo?
Dylan me fez o maior elogio, ao abrir sua obra e me dar espaço para interpretá-la. Jamais me esquecerei da generosidade de um artista do porte dele.
Superstar: The Karen Carpenter story, Safe e Poison estão no teu portfolio, e fazem lembrar a pandemia. Como você superou aquilo?
The Karen Carpenter story, Veneno e Mal do século foram três filmes muito diferentes, todos abordando temas relacionados à doença. Os três são inconcebíveis fora do contexto da era da aids, durante a qual foram feitos. Essa crise de saúde pública galvanizou toda uma geração de ativismo e resposta criativa, que é impossível para mim separar desses filmes, tanto pela atenção que receberam quanto pela urgência que senti ao fazê-los.
Estas realizações te modificaram?
Esse movimento popular veio intensamente motivado para mudar o desfecho de uma doença fatal: foi fato, e aconteceu. Eu fui uma parte muito pequena desse movimento, mas foi uma parte formativa da minha vida e do meu interesse como cineasta. E tudo me lembra o que o ativismo realmente pode fazer: e tudo ainda caminha para a percepção de que precisamos nos mobilizar, neste momento, de maneira muito semelhante.
Mostra Todd Haynes
Centro Cultural Banco do Brasil (SCES Tr. 2, fone 3108-7600). Exibições até 22 de março, com retirada de ingressos (gratuitos) uma hora antes de cada exibição.
