Ela é atriz, arquiteta, professora, apresentadora e mãe. Bruna Spínola desafia classificações simples e constrói uma trajetória profissional tão plural quanto sua própria curiosidade pelo mundo. Em cartaz na novela Dona Beja, da HBO Max, a atriz dá vida à freira Eulália, personagem que vive um romance proibido com Maria (Indira Nascimento) dentro dos muros repressores de um convento do século 19.
"Construir essa relação foi um exercício de escuta e contenção", explica Bruna, sobre a química com a parceira de cena. "Em um convento do século XIX, quase tudo acontece no que não é dito: no tempo de silêncio, no olhar que demora um segundo a mais, na respiração que muda, no corpo que recua quando o desejo avança", completa a atriz.
A preparação para o papel exigiu um trabalho minucioso de construção corporal. Bruna dedicou-se à coordenação de movimento e à organização gestual para compor uma religiosa da época. "Trabalhei para chegar em uma economia de gesto: postura mais contida, deslocamentos mais regrados, mãos que quase nunca 'sobram', um olhar que aprende a baixar antes do impulso de encarar. Isso conta a história dela mesmo quando o texto não explica", argumenta.
As gravações trouxeram um elemento extra de complexidade: Bruna estava grávida de cinco meses de sua filha caçula, Júlia. "A gravidez muda o corpo e muda o eixo: a energia, o fôlego, o cansaço, mas também abre uma sensibilidade muito particular. No caso da Eulália, essa dualidade ajudou, porque ela vive um conflito interno intenso e, ao mesmo tempo, precisa sustentar uma aparência. Eu estava em transformação por dentro e por fora, e isso me aproximou muito da contradição dela", revela.
Bagagem intelectual
Formada em teatro, letras e arquitetura, Bruna carrega na bagagem intelectual as ferramentas que utiliza para decifrar personagens complexas. "Letras me deu uma base muito sólida para a vida. Além de ler o óbvio, o que está no papel, meu foco vai para o subtexto, para a mensagem não dita", afirma. "Em personagens como a Eulália, essa investigação é fundamental: o que ela afirma, o que ela censura, o que ela não tem permissão nem de nomear."
Mas a arte de interpretar é apenas uma das faces dessa carioca inquieta. Em 2020, ao lado da arquiteta Brenda Barradas, Bruna fundou a Vesari Arquitetura, escritório com foco em projetos residenciais e comerciais. O que começou como hobby — "daqueles de ficar olhando planta, imaginando usos, testando possibilidades" — tornou-se profissão estruturada.
"Ser atriz e arquiteta é uma coreografia de agenda, mas, na essência, uma coisa alimenta a outra. A arquitetura treina meu olhar para espaço, luz, circulação, atmosfera e narrativa visual. Eu penso muito em 'cena': o que a pessoa vê quando entra, para onde o olhar é conduzido, onde o corpo descansa, onde a casa respira", garante.
A atriz enxerga um ponto de encontro fundamental entre as duas áreas de atuação: "Nas duas, eu estou o tempo todo pensando em experiência. Como um espaço muda alguém, e como alguém muda dentro de um espaço? No fim das contas, cenário e personagem caminham juntos".
Versatilidade
Essa versatilidade também se reflete em sua carreira artística. Bruna acumula passagens por novelas de grande audiência na Globo, como Orgulho e paixão, Pega pega e Cara e coragem, além de séries em plataformas de streaming como Amor da minha vida e Impuros (Disney+) e Matches (Warner). No cinema, foi protagonista de A filha do caos, lançado no Festival do Rio em 2022, e integrou o elenco de Eduardo e Mônica, filme rodado em Brasília que traz uma conexão particular com a atriz, cujo marido é um velho conhecido da capital: o cineasta Renê Sampaio.
"Brasília tem uma força muito particular: o espaço, a luz, as linhas, o céu", declara. "E, além disso, Brasília tem um lugar especial na minha vida. Eu sou casada com um brasiliense há 17 anos, e foi ele quem me apresentou a cidade de verdade: não só como cartão-postal, mas como jeito de viver, como ritmo, como horizonte."
Sobre a experiência de dar vida a um universo tão enraizado no imaginário afetivo brasileiro, a atriz guarda memórias afetuosas. "Gravar Eduardo e Mônica foi especial justamente por isso: porque Brasília não é só cenário, ela é parte do coração da história. Existe um imaginário muito forte em torno da canção e, por consequência, do filme. Eu guardo memórias lindas do set em Brasília."
Em meio a tantas frentes de trabalho, o teatro permanece como território sagrado de formação e renovação. Com a peça Homem ao vento, vencedora do Prêmio Shell de Melhor Dramaturgia, Bruna reafirma seu compromisso com a cena. "O palco segue sendo um lugar de formação contínua pra mim. Teatro te obriga a estar inteira: não tem corte, não tem take 2, não tem esconderijo", reflete. "Mesmo fazendo TV e cinema, eu gosto de voltar ao teatro porque ele me alimenta, me preenche. É onde eu lembro por que eu escolhi ser atriz: por presença, por escuta, por relação direta com o público. Teatro é chão."
A pergunta que parece guiar suas escolhas - seja na arquitetura, na atuação ou na vida - é simples e complexa na mesma medida: "Como esse espaço (ou essa personagem) vai fazer essa pessoa se sentir e viver melhor aqui dentro?" Para Bruna Spínola, contar histórias, seja com paredes ou com o corpo, segue sendo o fio que une todas as suas paixões.
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