LITERATURA

Sexóloga debate culpa e repressão na sexualidade feminina

No livro ‘Descobrindo a Sexualidade’, Alessandra Araújo analisa como padrões sociais moldam a relação das mulheres com o corpo, o desejo e a autonomia emocional

Foi para preencher a lacuna de uma retratação fragmentada da sexualidade que Alessandra Araújo, psicóloga clínica e sexóloga especialista em atendimento à mulher, decidiu escrever Descobrindo a Sexualidade. O livro, que será lançado na próxima terça-feira (17/3), propõe uma reflexão sobre como a sexualidade feminina é construída, silenciada e, muitas vezes, atravessada por culpa, medo e repressões sociais. 

A partir da experiência clínica e de estudos na área da psicologia e da sexualidade humana, Alessandra convida o leitor a compreender que falar sobre sexualidade não é apenas falar sobre sexo, mas sobre identidade. “A forma como alguém se relaciona com o próprio corpo atravessa diretamente a autoestima, a autonomia e a saúde mental”, afirma. “Quando esse campo é marcado por culpa, silenciamento ou repressão, isso costuma aparecer em forma de ansiedade, vergonha, dificuldade de vínculo e conflitos internos profundos.”

A culpa é, para a autora, uma das marcas mais recorrentes que moldam a sexualidade feminina. “Muitas mulheres aprendem desde cedo que desejar pode ser perigoso, inadequado ou moralmente condenável”, aponta. “Junto, aparece o medo de julgamento e a sensação de que o próprio corpo precisa ser controlado ou escondido”. Nesse cenário, o próprio desejo é distanciado, dificultando o reconhecimento de gostos e limites. 

Socialmente, a especialista analisa a comercialização do corpo da mulher como um forte padrão de repressão. “Isso cria uma relação constante de vigilância: a mulher observa o próprio corpo como se estivesse sendo sempre observada por alguém”, argumenta. Outro padrão recorrente é a expectativa de que o desejo feminino seja discreto, controlado ou secundário. Segundo Alessandra, tais modelos afastam muitas mulheres da possibilidade de viver uma sexualidade mais autêntica e integrada à própria identidade.

Cedido ao Correio -
Cedido ao Correio -
Divulgação -

A repressão sexual é um fenômeno que atravessa gerações. Conforme a sexóloga, valores, medos e proibições que foram transmitidos na infância acabam se tornando referências internas. “A mulher pode não perceber de onde vem determinada culpa ou vergonha, mas continua repetindo padrões que foram aprendidos em outros contextos familiares ou culturais. A psicanálise mostra que essas marcas simbólicas permanecem na forma como a pessoa se relaciona com o próprio corpo, com o desejo e com os vínculos afetivos.”

Diante disso, a educação emocional surge como um fator transformador. “Permite que a mulher reconheça sentimentos, limites e necessidades com mais clareza”, resume. “Quando alguém aprende a nomear o que sente, também passa a ter mais autonomia para se posicionar nas relações.” 

Além do âmbito sexual, a segurança psicológica em relações também é preservada a partir do autoconhecimento. Alessandra propõe que a violência emocional raramente começa de forma explícita: “Muitas vezes aparece disfarçada de críticas constantes, controle, desqualificação ou manipulação emocional. Como não deixa marcas físicas, a própria vítima pode demorar a perceber que está vivendo um processo de desvalorização e desgaste psicológico. Esse tipo de violência corrói lentamente a autoestima e a autonomia da mulher, e por isso é tão importante ampliar o debate público sobre o tema.”

A proposta de Alessandra é a reconexão com o próprio corpo, na qual não existem respostas prontas, mas sim um espaço de reflexão. “O primeiro passo é recuperar a escuta sobre si mesma. Isso envolve reconhecer sentimentos, perceber limites e questionar crenças que foram naturalizadas ao longo da vida”, narra. “Passa também por abandonar a ideia de que seu corpo existe apenas para atender expectativas externas. Quando a mulher começa a olhar para o próprio corpo com curiosidade, respeito e presença, ela abre espaço para uma relação mais saudável com a própria sexualidade.”

“Espero que a leitura permita às mulheres olhar para si mesmas com mais honestidade e menos culpa”, crava. “Carregamos ideias sobre corpo, desejo e identidade que não foram realmente escolhidas por nós. O livro é um convite para questionar essas construções e para que cada mulher possa construir uma relação mais consciente, mais livre e mais respeitosa com a própria história.”

Serviço:

Lançamento de Descobrindo a Sexualidade – Primeiros Passos para Entender Minha Sexualidade

Na terça-feira (17/3), às 18h, no Glória Cafés Especiais e Livros (CLN 313 – Asa Norte)

 

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