Artes cênicas

Encontro de teatro lambe-lambe leva 15 espetáculos ao Teatro Nacional

Encontro no Foyer da Sala Martins Pena reúne artistas de teatro lambe-lambe com minipeças delicadas e encantadas 

A delicadeza e o tempo são as duas características mais preciosas do teatro lambe-lambe. Por isso, o público que decidir conferir o IV Encontro de Teatro Lambe-Lambe, em cartaz no  Foyer da Sala Martins Pena no Teatro Nacional Claudio Santoro, deve ser avisado de que há todo um clima especial em torno dessa arte cênica. A quarta edição do evento reúne 15 espetáculos vindos de Norte a Sul do Brasil, mas também da Itália, do Chile e da Argentina.

Leia também: Recife como protagonista: as referências culturais em O Agente Secreto

Idealizado pelo grupo As Caixeiras Cia. de Bonecas, o encontro tomou corpo nos últimos anos e acompanha o crescimento do número de artistas dedicados a esse gênero de teatro, cujas peças têm entre três e cinco minutos e são concebidas para serem assistidas por uma ou, no máximo, duas pessoas de cada vez. "O teatro lambe-lambe ainda é muito filhote e o festival é a forma que a gente encontra de juntar muitas pessoas e público para o reconhecimento dessa arte, uma arte muito brasileira e pouco conhecida ainda como tendo sido criada no Brasil", explica Amara Hurtado, uma das criadoras do encontro e membro do grupo As Caixeiras. 

Feito dentro de uma caixa de câmera fotográfica antiga e assistido através de um buraquinho, o teatro lambe-lambe nasceu do encontro das professoras baianas Ismine Lima e Denise dos Santos. Em 1989, elas tiveram a ideia de usar essa caixa fotográfica como palco e espaço cênico para encenar uma história profundamente intimista: um parto. O objetivo era puramente pedagógico e a intenção era ensinar às crianças que  os bebês não chegavam graças a uma cegonha. A ideia cresceu e ganhou outros espetáculos, a ponto de tornar-se uma linguagem brasileira. "O tempo máximo do espetáculo era de três minutos, tempo de fixação da imagem na fotografia", explica Amara. As professoras faziam o papel de animadoras, como se fossem o fotógrafo. "E a pessoa fotografada é o espectador. Tem  a ideia da intimidade, da aproximação com espectador, de revelar um segredo. Esses são os elementos que compõem o teatro lambe-lambe."

Leia também: Painéis Poéticos retornam à fachada da Biblioteca Demonstrativa de Brasília

Para o encontro, a própria Denise traz um espetáculo em homenagem à amiga Ismina. A Menina com a cadeira na cabeça e a menina com a caixa de charutos conta, em três minutos, a história das duas amigas. A primeira vendia os charutos feitos pela mãe no bairro Liberdade, em Salvador (BA). A segunda carregava a cadeira na cabeça para poder assistir às aulas sentada: na escola, o móvel era escasso e não estava disponível para todos os alunos. "Eu quis fazer uma homenagem à Ismina, revivendo nossa memória e atravessando o tempo", conta Denise. "O lambe-lambe hoje é do mundo. Ele traduz uma necessidade de se jogar no mundo, uma arte acessível para todos. É a possibilidade de fazer arte de forma econômica, sustentável e poética. É como um caracol que carrega sua casa nas costas, com todas as possibilidades de defesa."

Membro da catarinense Essaé Companhia, sediada em Joinville (SC), Cássio Correia encara o teatro lambe-lambe como uma arte inovadora diante de toda a tecnologia desenvolvida nas últimas décadas para as artes cênicas. "O formato, por ser diferente, individual, acaba sendo inovador num tempo de tantas tecnologias que a gente tem hoje. A forma tão artesanal que o teatro lambe-lambe pode proporcionar é singular, para isso a gente não vai conseguir substituição", garante. "A grande magia é a generosidade da entrega, tanto do artista quanto do espectador: é um único espectador por sessão, é muito confidente o que se expõe no espetáculo durante dois, três minutos. E é generoso de ambas as partes." Para o encontro no Teatro Nacional, ele traz Asas?, espetáculo baseado no microconto  O homem que perdeu as asas, de Borges de Garuva. A peça questiona as noções de liberdade e o espaço do trabalho na vida cotidiana da população. "Vem de encontro à questão da padronização humana: até que ponto somos influenciados pela rotina diária que a sociedade nos impõem de maneira geral", avisa o ator e diretor. 

Leia também: Antonio Poteiro: exposição de obras do goiano chega a Brasília

Érica Rodrigues nasceu em Brasília, mas passou mais de uma década estudando fora e vivendo como nômade, com um circo desmontável que carregava dentro do carro em viagens por todo o Brasil. Até uma de suas grandes amigas, a venezuelana Julieta Hernández, também artista nômade e de rua, ser assassinada no Amazonas enquanto cruzava o Brasil de bicicleta, no início de 2024. "Eu travei enquanto artista de rua, entrei num processo de retração, fiquei com medo. Mas a arte de rua está no meu sangue, então pensei: preciso criar um espetáculo em que vá pra rua, mas esteja protegida", conta Érica. 

Com uma boneca que reproduz sua própria palhaça, a Dolores Paes, presente de Julieta, bonequeira especializada em miniaturas, Érica criou Casa de encantaria. A história é uma homenagem à amiga assassinada no Norte:  um boizinho vaga pelo sertão e se depara com muito lixo, come algo tóxico, engasga e morre, mas sua alma é resgatada por uma palhaça encantada, que cuida do animal e o leva para outro reino. "Gosto de ver o teatro lambe-lambe como uma poesia visual. Ele gera reflexão, principalmente nas crianças. Por meio do imagético, sensível e sonoro, consigo gerar essa reflexão de como o lixo impacta a vida dos animais. É um espaço mágico, onde tudo acontece", conta a artista, que tem apresentado Casa de encantaria nas ruas e em pequenos festivais.

O universo popular no qual Érica foi buscar o boi também é fonte de inspiração para Éder de Paiva, da Companhia Jatobá. Para o encontro no Teatro Nacional, ele traz um minicirco com direito a quatro números encenados por trapezista, acrobatas, mágico e domador. "Eu me inspirei, para esse espetáculo, em brinquedos populares e consegui criar esse pequeno número", conta o artista.

Teatro de bonecos em pequeno formato não é exclusividade do Brasil, muito menos dos séculos 20 ou 21. Amara Hurtado lembra que o diferencial inventado por Denise e Ismina foi fazer tudo isso dentro de uma caixa de fotografia lambe-lambe, conectado com a ideia de um registro rápido e que pode ser visto por uma ou duas pessoas de cada vez. "Na Europa, na Índia, e até no Japão tem teatro de pequenos formatos dentro de pequenas estruturas, mas dentro dessa proposta de chamar teatro lambe-lambe, com referência aos fotógrafos, fazer um espetáculo cênico em miniatura, isso não tinha antes, com toda essa concepção,  todas essas camadas que elas foram colocando como princípios e fundamentos não existiam", explica a artista, que tem como uma das bandeiras do encontro divulgar a história dessa dramaturgia. "E nunca podemos perder de vista que é um teatro, precisa ter luz, ator, intérprete dando vida ao objeto, cenário, espaço cênico. Tudo isso compõe o teatro lambe-lambe. Não é qualquer coisa que acontece dentro de uma caixa."

Serviço

IV Encontro de Teatro Lambe-Lambe

Neste domingo (22/3), das 16h às 21h (sessões contínuas), no Teatro Nacional Claudio Santoro - Foyer da Sala Martins Pena (Eixo Monumental, próximo à Rodoviária). Entrada gratuita, sujeita à lotação do espaço. Classificação indicativa livre

 

Mais Lidas

Zoe Leon - Casa de encantaria, de Erica Rodrigues
Divulgação - Asas?, da Essaé, reflete sobre trabalho e liberdade
Florensia - Denise de Santos traz A menina com a cadeira na cabeça e a menina
Rubens Tamashiro - A Menina com a cadeira na cabeça e a Menina com a caixa de charutos
Florensia - Quinina, das Caixeiras
Florensia - Quinina, de As Caixeiras, é peça de memoria