personalidade

Augusto Madeira reflete sobre a forte camada paternal de seus personagens

Com mais de 200 trabalhos no currículo entre teatro e audiovisual, Augusto Madeira vive um momento de reconhecimento popular ao dar vida a homens comuns que traduzem as complexidades da família brasileira em "Três Graças" e "Beleza fatal"

Augusto Madeira é Rivaldo em "Três Graças"
     -  (crédito: Globo/Manoella Mello)
Augusto Madeira é Rivaldo em "Três Graças" - (crédito: Globo/Manoella Mello)

Durante décadas, Augusto Madeira construiu uma carreira sólida, extensa e respeitada entre o cinema, o teatro e produções independentes, acumulando personagens que marcaram gerações de realizadores. Mas foi apenas recentemente, em um intervalo raro em que streaming e televisão aberta se encontraram em sua trajetória, que o ator de 56 anos passou a viver uma espécie de consagração popular.

O fenômeno começou com o afetuoso Lino, protagonista emocional da novela Beleza fatal, sucesso da Max, e se consolidou com o porteiro Rivaldo, figura central de Três Graças, novela assinada por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva, exibida no horário nobre da TV Globo. Dois homens distintos, mas unidos por um traço comum: o cuidado e a responsabilidade de ser pai.

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Segundo o ator, a transição entre os dois trabalhos ocorreu quase como uma coincidência de calendário, mas se revelou decisiva para reposicionar sua imagem diante do grande público. "Eu sou um ator muito identificado com o cinema e até um pouco com as séries. Não sou um ator de novela", comenta.

O cenário mudou quando as duas produções estrearam praticamente no mesmo período, levando seu rosto a uma audiência ampla e constante. A experiência foi duplamente transformadora: enquanto Beleza fatal — de Raphael Montes, com direção artística de Maria de Médicis — seguiu o modelo fechado do streaming, com todos os capítulos gravados antes da estreia, Três Graças colocou Madeira diante do ritmo tradicional da novela aberta, em que a história se constrói em tempo real. "Você fica em uma torcida junto com o público. E, mesmo agora, perto do final, ainda faltam capítulos que eu não li", acrescenta.

Ator Augusto Madeira.
Ator Augusto Madeira. (foto: Globo/Manoella Mello)

Figura paterna

Se o formato mudou, o coração dramático de seus personagens manteve um elo profundo: a paternidade. Lino, em Beleza fatal, transformou-se em um fenômeno afetivo nas redes sociais, despertando uma mobilização intensa quando sua vida esteve ameaçada na trama.

"Teve uma hora que ele virou o pai do Brasil", relembra. A reação popular, segundo Madeira, o fez refletir sobre o contexto social que envolve a figura paterna no país. "Acho que o Brasil é um país com muita ausência parental. Muitos filhos são criados sem pais presentes ou com pais que não têm abertura emocional. O Lino era puro afeto, tolerância, compreensão. Talvez, por isso, tenha sido tão abraçado", argumenta o ator, que teve como par romântico Giovanna Antonelli.

Em Três Graças, o caminho de Rivaldo se revelou igualmente potente, ainda que por vias diferentes. O personagem surge inicialmente como um porteiro espirituoso, observador da rotina dos moradores e responsável por boa parte do humor cotidiano da narrativa. Aos poucos, no entanto, ganha profundidade ao enfrentar um dos desafios mais delicados da trama: o diagnóstico de autismo do filho Cristiano (Davi Luis Flores). A descoberta inaugura um processo de transformação que desloca o personagem para uma dimensão emocional mais complexa.

"É uma transformação que vem do filho para os pais. E isso tem sido muito importante para mim também, como pai, porque aprendo muito olhando para esse universo", explica Augusto, que divide a cena com Juliana Alves, intérprete da esposa, Alaíde.

A relação com temas sociais não é novidade em sua carreira, mas ganha novo peso quando inserida em uma novela de grande alcance. Madeira reconhece que o humor funciona como ferramenta de aproximação com o público.

Para ele, rir não significa ignorar a dor, mas criar espaço para atravessá-la. "A vida não é só uma coisa. A gente carrega muitas camadas. Não é porque alguém enfrenta dificuldades que não vai ter bom humor. O humor é um grande remédio para a sociedade", defende.

Essa visão dialoga diretamente com sua formação artística e com o olhar que desenvolveu ao longo dos anos observando o cotidiano brasileiro. Nascido e criado no subúrbio carioca, Madeira sempre demonstrou fascínio pelas histórias anônimas que povoam as ruas. "Eu sou apaixonado por gente. Por gente de todas as classes, cores, credos. Poder fazer personagens que representam trabalhadores, gente comum, é uma alegria enorme. É fazer com que essas pessoas se reconheçam na tela", afirma.

Rivaldo (Augusto Madeira) com Alaíde (Juliana Alves) e Cristiano (Davi Luis Flores).      Caption
Rivaldo (Augusto Madeira) com Alaíde (Juliana Alves) e Cristiano (Davi Luis Flores) (foto: Globo/ Beatriz Damy)

Longa trajetória

A autenticidade desses personagens está ligada à sua trajetória no cinema, onde acumulou uma filmografia impressionante: são mais de 150 trabalhos entre curtas e longas — uma marca que o coloca entre os atores mais produtivos de sua geração.

Ele iniciou a carreira em um período particularmente desafiador para o audiovisual brasileiro, atravessando o colapso provocado pelo fim de políticas públicas durante o governo de Fernando Collor de Mello e acompanhando, anos depois, a retomada do cinema nacional. Foi nesse cenário que aprendeu, na prática, a sobreviver artisticamente. "Cinema se aprende fazendo", resume. Nos anos mais difíceis, aceitou projetos de todos os tamanhos, muitas vezes trabalhando de forma voluntária em curtas universitários.

O esforço abriu portas e criou vínculos duradouros com realizadores que se tornariam referências do audiovisual brasileiro. Ao mesmo tempo, acumulou experiência em publicidade, participando de centenas de campanhas que ampliaram seu domínio técnico e sua familiaridade com equipes diversas.

O teatro, outra base fundamental de sua formação, também contribuiu para a versatilidade que hoje sustenta seu desempenho na televisão. Com mais de 50 peças no currículo, Madeira desenvolveu um senso rigoroso de presença física e ritmo cênico — qualidades que ele considera decisivas para enfrentar a intensidade das gravações diárias. Ele explica que, no palco, não há espaço para hesitação: o ator aprende a reagir imediatamente, a ouvir o parceiro e a sustentar a energia da cena até o último instante.

Essa soma de experiências explica a facilidade com que transitou entre dois personagens populares no mesmo período, sem que um contaminasse o outro. Embora ambos pertençam a universos sociais semelhantes, Lino e Rivaldo apresentam conflitos distintos e trajetórias próprias.

Há até curiosidades de bastidores que reforçam essa separação simbólica: Lino, carioca na ficção, foi gravado em São Paulo; Rivaldo, paulistano, teve cenas registradas no Rio de Janeiro — um jogo de deslocamentos que espelha a própria natureza itinerante da carreira do ator.

Augusto madeira é Lino, um pai de família amoroso em Beleza fatal
Augusto madeira é Lino, um pai de família amoroso em Beleza fatal (foto: Reprodução)

Popularidade

A resposta do público, especialmente nas ruas e nas redes sociais, tornou-se um termômetro poderoso dessa fase. A mobilização em torno da possível morte de Lino em Beleza fatal foi particularmente marcante.

Madeira recorda o impacto emocional ao perceber que espectadores se manifestavam com intensidade, como se estivessem defendendo um membro da própria família. "Foi muito tocante sentir esse carinho de forma tão imediata", admite.

Esse contato direto com a audiência também redefiniu sua percepção sobre popularidade. Apesar de décadas de trabalho intenso, Madeira reconhece que muitos espectadores o identificavam visualmente, mas não sabiam associar seu rosto ao nome. A sequência de trabalhos recentes ajudou a consolidar essa identidade pública. "Eu sempre fiz muita coisa, mas espalhada. Agora, parece que o público conseguiu ligar os pontos", constata.

Mesmo diante desse reconhecimento ampliado, o ator mantém uma postura inquieta em relação ao futuro. Ele afirma que, ao concluir um projeto de grande visibilidade, costuma buscar o oposto, e é uma estratégia consciente para evitar repetições.

A agenda indica novos desafios: após o fim de Três Graças, pretende mergulhar em uma série com temática coreana e iniciar a produção de novos filmes, muitos deles ao lado de diretores estreantes.

Essa disposição para o risco, aliás, é uma marca constante em sua trajetória. Madeira revela que valoriza tanto a parceria com realizadores consagrados quanto o encontro com novos talentos, acreditando que o olhar fresco de quem está começando pode renovar sua própria percepção artística. "Eu gosto de aprender com quem está chegando. É um jeito de se manter vivo criativamente", conclui ele, que, em breve, deverá ser visto novamente na sequência de Beleza fatal.

 


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postado em 12/04/2026 00:01 / atualizado em 13/04/2026 17:40
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