
Crítica // Caso 137 ★★★★
Antes de mais nada, com a projeção na Netflix da série Emergência radioativa, cabe a ressalva que o filme Caso 137 nada tem de vínculo com Césio 137 e o acidente (de 1987) originado em clínica de radioterapia de Goiânia. Caso 137 se vale da premissa levantada por muitos personagens que propagam "resguardar a República". E por quantas vezes essa expressão com cara de escudo, de potencial ambíguo, tentou justificar atos impensados ou violentos, a fim de se "defender um bem maior"? Conter o caos de 2018, na Paris convulsionada, pelos atos de considerável parcela da sociedade vestida com coletes amarelos, criou um beco em saída para as decisões do presidente Emmanuel Macron. Nos tempos de hoje, vale a lembrança de que todo o vandalismo (como apontado por alguns) teve por fagulha o aumento de combustível.
Depois de multipremiado por A noite do dia 12 (vencedor de seis estatuetas do César em 2023), o diretor do filme, Dominik Moll, nascido na Alemanha, voltou a ser assunto, desde a exibição de Caso 137 (que dramatiza caso real), no Festival de Cannes, no qual foi aplaudido por mais de oito minutos. Na reconstituição de cinema, pesa a perfeição da edição de imagens (de Laurent Rouan) e o som, além da direção de fotografia de Patrick Ghiringhelli, que funde as filmagens à texturas das imagens dos episódios reais.
Única vencedora de prêmios, entre oito candidaturas de Caso 137 ao importante César francês, a atriz Léa Drucker transmite a confiança e a obstinação pela verdade, comportados pela personagem Stéphanie. A protagonista é uma destacada agente da IGPN (Inspection Générale de la Police Nationale), entidade que supervisiona atitudes da polícia. Acertadamente, o filme se distancia da crise familiar com o ex-marido Jérèmy (Stanislas Merhar), para enfatizar o âmbito profissional de Stéphanie. Nas suas mãos cai o caso de Rémi (Valentin Campagne) e de Guillaume (Côme Peronnet, com ligeira mas forte participação). Nascida na mesma região de Saint-Dizier que Joëlle Girard (Sandra Colombo) a nada amistosa mãe de Guillaume, Stéphanie demonstra mais empatia por remontar o cenário que levou o jovem a ser atingido por bala de borracha de 40 mm da temida arma de defesa LBD-40 (com autorização de uso muito polêmico, durante protestos).
Uma camareira de hotel (personagem de Guslagie Malaga) promete ser decisiva na trama que dá razoável espaço para Jonathan Turnbull, na pele de Benoit, policial parceiro de Stéphanie, no dia a dia. Contando com a colaboração de Gilles Marchand (Mãos à obra) no roteiro, Moll (do investigativo Seules les bêtes) dá conta de explorar os meandros da burocracia de um sistema de justiça de um país fraturado pelo ataque terrorista em represália a publicações da satírica Charlie Hedbo e ainda, em choque, pelos eventos sangrentos associados à casa de shows Bataclan, que levaram ao "estado de emergência nacional", decretado em 2015. O filme ainda examina em larga escala a "heroica" atuação da BRI (Brigada de Pesquisa e Intervenção). De quebra, há um divertido embate caseiro entre a mãe e o pai de Stéphanie sobre virtudes e a alienação proporcionadas pelos virais vídeos de gatinhos fofos nas redes sociais.

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