personalidade

Para Bruno Garcia, a crueza de "Os outros" é algo que "assusta e excita"

Entre o êxtase do risco e o peso das camadas humanas, Bruno Garcia mergulha no vilão que revela feridas do Brasil, na terceira temporada de "Os outros". Ator pernambucano também pode ser visto como um homem urbano tóxico em "Juntas & separadas"

Bruno Garcia, ator -  (crédito: Alex Grand)
Bruno Garcia, ator - (crédito: Alex Grand)

Alguns personagens parecem feitos para testar os limites de um ator, não apenas pela intensidade dramática, mas pelo território simbólico que ocupam. Em sua nova empreitada na série Os outros, Bruno Garcia encontrou um desses papéis raros: Manoel, figura marcada pela brutalidade e por uma fragilidade quase invisível, que sintetiza conflitos sociais, ambientais e morais do país contemporâneo.

Antes mesmo de integrar o elenco, ele era espectador atento da série criada por Lucas Paraizo e dirigida por Luisa Lima. Quando o convite veio, trouxe consigo um presente — e um desafio. "O Manoel foi um presentão, porque ele é muito diferente de mim, cheio de nuances que eu ainda não tinha acessado dessa maneira", diz, com a serenidade de quem sabe reconhecer quando um personagem exige tempo, escuta e entrega.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Segundo o ator, diretor e roteirista, esse processo começou muito antes da primeira cena. Passou pela construção física, pelo figurino e, sobretudo, pela materialidade dos espaços. Sem um cenário fixo que mostrasse a casa do personagem, o pernambucano de 55 anos decidiu transformar o ambiente de trabalho em extensão íntima de sua vida. Propôs que o escritório dentro do bar ganhasse sinais domésticos — banheiro, pia, armário com roupas — como se Manoel vivesse permanentemente entre as próprias engrenagens de poder que o sustentam. "Uma pessoa não é só o que ela é, mas o que veste, o que usa, o lugar onde vive", resume, como quem define um método sem jamais chamá-lo assim.

A terceira temporada da série aclamada do Globoplay desloca a tensão das áreas urbanas para o campo, território onde o personagem ganha novas camadas. Manoel surge como símbolo de um paradoxo brasileiro: alguém que nasce cercado pela natureza e, ainda assim, torna-se agente de sua destruição. O ator conta que pesquisas com especialistas ambientais ajudaram a dimensionar o problema. "Às vezes, a falta de informação faz com que pessoas que poderiam ser a primeira linha de defesa do meio ambiente sejam as primeiras a atacá-lo", lamenta.

Bruno Garcia vive Manoel, um homem rudimentar em Os outros
Bruno Garcia vive o vilão Manoel, um homem rude em Os outros (foto: Manoela Mello)

Homens contraditórios

Em cena, essa contradição ganha corpo em um homem que age com naturalidade brutal, não por perversidade caricata, mas por ignorância estruturada. O reencontro com Lucas Paraizo e Luisa Lima foi decisivo para aprofundar essa complexidade. Os três já haviam trabalhado juntos na série Sob pressão — em cinco temporadas, uma delas em plena pandemia —, em que Garcia interpretou o médico Décio, personagem lembrado por um dos momentos mais emblemáticos da televisão recente: um beijo homoafetivo exibido no mesmo dia em que o Supremo Tribunal Federal formou maioria para enquadrar a homofobia como crime. Para o ator, não foi apenas coincidência, mas uma espécie de sincronia simbólica entre arte e realidade. "O Décio foi um personagem emblemático na discussão sobre homoafetividade. Foi um beijo realista entre dois homens e uma coincidência fantástica", celebra.

Bruno fala dos parceiros com admiração que soa quase fraterna. Chama Paraizo de "craque" e define o trabalho da diretora como uma busca incansável por revelar o inesperado nos personagens. "Quando criamos dramaturgia, estamos criando mundos, e a Luisa é uma exímia criadora de mundos junto com o Lucas", afirma, com a convicção de quem passou décadas aprendendo a habitar esses universos ficcionais.

Talvez seja essa busca pelo inesperado que explique o impacto visceral da série junto ao público. Garcia descreve a experiência de assistir às primeiras temporadas como um mergulho emocional intenso — daqueles que obrigam o espectador a interromper o episódio para respirar. "Acredito que esse impacto vem justamente da identificação. Quando você se identifica nesse grau de agudeza, você se assusta", reflete, comparando a sensação ao frio na barriga de uma montanha-russa: o cérebro reage ao perigo simulado com medo real, ainda que a razão saiba tratar-se de ficção. "Esse susto é excitante", comenta, rindo, como quem reconhece o poder catártico da dramaturgia.

Também no Globoplay, Bruno Garcia compõe o elenco da série Juntas & Separadas, que, apesar de ter uma temática mais leve — o universo feminino após os 40 anos —, traz personagens como Caio, um retrato do homem machista urbano: bom pai, péssimo marido. "O Caio é aquele homem hetero, tóxico, que não se conforma com a separação, que acha que pode controlar o destino da mulher, que oprime no sentido do patriarcado, mesmo estando na camada do passivo-agressivo, é daí que nasce a violência", contou, à época do lançamento da produção. "A minha identificação com ele é zero. Eu tive uma formação oposta, sou completamente da causa, sou feminista — se é possível dizer isso", acrescentou. 

Bruno Garcia vive Caio, um cara real e contraditório em Juntas &Separadas
Bruno Garcia vive Caio, um cara real e contraditório em Juntas &Separadas (foto: Rachel Tanugi)

Entusiasmo

Em cena em Os outros, um dos grandes parceiros dessa nova fase é Lázaro Ramos, com quem já havia trabalhado em outros momentos da carreira, como na série cômica Sexo frágil?. Retomar essa parceria em um registro dramático trouxe, segundo ele, um prazer especial. O ambiente de trabalho se tornou leve, quase lúdico — ainda que as histórias fossem densas. "Interpretar já é um ato contundente, porque você se expõe com seu corpo, sua alma, suas emoções. É suficientemente dolorido para que a gente não busque prazer nele", defende ele, que tem no currículo trabalhos como os filmes "para rir" O Auto da CompadecidaLisbela e o prisioneiroSaneamento básico, o filme e na franquia de comédia De pernas pro ar. Além disso, atuou em novelas como Felicidade, Coração de estudantePé na jaca e Sangue bom — além de participar da Dança dos famosos, em 2023.

Essa leveza fora das câmeras contrasta com a gravidade dos temas que atravessam sua visão sobre o audiovisual brasileiro. Para Garcia, o país vive um momento paradoxal: nunca foi tão reconhecido internacionalmente e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão vulnerável estruturalmente. Ele cita o impacto recente de produções nacionais no exterior e o prestígio conquistado por nomes como Wagner Moura e Fernanda Torres, lembrando que obras como O agente secreto e Ainda estou aqui, indicadas ao Oscar, ajudaram a recolocar o cinema brasileiro no radar global.

Mas o entusiasmo vem acompanhado de alerta. Para o ator, o país ainda precisa consolidar sua cadeia produtiva e proteger sua autonomia criativa diante das grandes plataformas internacionais. O risco, segundo ele, é a padronização estética — histórias moldadas por fórmulas comerciais que sufocam a ousadia narrativa. "Dramaturgia é arte. É um lugar para a sociedade conversar consigo mesma", argumenta.

Não por acaso, o futuro que ele projeta passa tanto pela atuação quanto pela direção. Entre projetos ainda mantidos em sigilo, um ganha destaque especial: um monólogo autoral que finalmente sairá do papel, acompanhado de uma experiência que ele prefere chamar de "conversa espetáculo". Nela, pretende compartilhar sua trajetória de mais de quatro décadas — desde a infância nos palcos até as descobertas acumuladas pela observação dos mestres que encontrou pelo caminho.

Sem formação acadêmica formal, o sagitariano construiu sua própria cartografia de aprendizado. Aprendeu olhando, escutando, errando e recomeçando — como se cada personagem fosse um laboratório vivo. É essa experiência que agora deseja dividir com jovens artistas, não como método fechado, mas como trilha aberta.

  • Bruno Garcia, ator
    Bruno Garcia, ator Alex Grand
  • Bruno Garcia, ator
    Bruno Garcia, ator Alex Grand
  • Bruno Garcia, ator
    Bruno Garcia, ator Alex Grand

 


  • Google Discover Icon
postado em 26/04/2026 08:00
x