
O ator e diretor Roberto Cordovani retorna a São Paulo com Olhares de perfil (O mito Greta Garbo). A peça, criada por Cordovani e Alejandra Guibert, estreou em março de 1987 e já percorreu 300 cidades em nove países da Europa. No Brasil, o espetáculo foi encenado pela primeira vez no Auditório Augusta e encerrou temporada no Teatro Municipal de São Paulo em 1989, seguindo turnê por diversas capitais brasileiras.
A montagem aborda a história de um ator que interpreta Greta Garbo em uma casa noturna e passa a ser investigado por um fotógrafo que suspeita de ele ser a própria atriz, desaparecida desde 1939. A nova temporada acontece de 9 de maio a 21 de junho, sempre aos sábados (21h) e domingos (19h30), no Teatro Paiol Cultural, na Vila Buarque (SP).
Desde sua estreia no fim dos anos 1980, Olhares de perfil rendeu a Cordovani prêmios internacionais ao longo de quase quatro décadas. O artista recebeu troféus de melhor ator em Londres (Reino Unido), Madri e Santiago de Compostela (Espanha), além da premiação de melhor espetáculo no Festival Internacional de Edimburgo, na Escócia, disputada por outras 950 companhias. Mesmo assim, Roberto afirma sentir a mesma emoção sempre que entra em cena.
“Para mim, é a mesma expectativa, o mesmo frio na barriga, mesmo sendo um espetáculo que já apresentei quase 1.700 vezes durante esses 39 anos. Claro, parando muitos anos, voltando, remontando, mas ao todo foram quase 1.700 ou 1.715 apresentações por nove países, 300 cidades, ou um pouco mais de cidades europeias, além de percorrermos todo o Brasil nos anos 90, quando então eu estava chegando de retorno da Europa”, conta.
Androginia
Outro ponto importante do espetáculo, segundo Cordovani, é o caráter político de Greta. “O que eu guardo dela é a sua masculinidade. É paradoxal, mas ao interpretar Greta Garbo aprendi que ser masculino também pode ser feminino, porque na delicadeza ou na fragilidade, às vezes, está a força. Ela, para mim, é um exemplo de masculinidade no corpo de um ser andrógino. ‘Olhares de Perfil’ é um espetáculo que fala sobre androgenia”, afirma.
A ideia de criar o espetáculo surgiu da dificuldade na produção de outra peça, a adaptação de Memórias de Adriano, da escritora francesa Marguerite Yourcenar. Com problemas nos direitos autorais da obra, Roberto passou a se debruçar sobre a temática dos mitos. Foi a partir de uma ida a uma livraria na Galícia, Espanha, que tudo tomou forma. “Falei para a atendente que indicasse livros sobre mitos, sobre a desmontagem do mito, como ele pode muitas vezes se desmistificar, e percorri autores como Roland Barthes e Michel Foucault. Estava a ponto de comprar alguns livros quando uma funcionária, ao colocar livros na prateleira, deixou cair três. Gentilmente, fui devolvê-los. Um deles se chamava O mito, de um autor chamado Robert Payne, e tinha na capa Greta Garbo. Ali, parece que houve um déjà vu: eu já sabia que naquele momento iria ser Greta”, conta o ator.
Ao tratar de mitos, Cordovani relaciona esse conceito à “problemática das imagens nas relações” e ao quanto a imagem fica “nebulosa” em decorrência da realidade. “Essa questão é muito o que acontece hoje nas redes sociais. A maioria mente, a maioria usa filtro, a maioria vende uma felicidade que não existe, vende soluções práticas que depois, na prática, não são nada disso. ‘Olhares de Perfil’ veio com esse intuito de falarmos sobre relacionamento, já que eu não pude falar sobre o relacionamento do imperador Adriano com o escravo Antínoo em Memórias de Adriano”, completa.
Relações frágeis
Sobre a mensagem que a peça quer transmitir, o artista diz que Olhares de perfil é, talvez, sobre desacreditar das intenções da maioria das pessoas. “Há muito oportunismo, muita fantasia, muita projeção daquilo que nós gostaríamos que o outro fosse, e o outro, às vezes sem saber, nunca vai corresponder à nossa expectativa. Acho que a peça fala exatamente do que vivemos hoje on-line: mundos paralelos, o que é real e o que não é, o que é fake e o que é verdade. Falamos de relações frágeis, relações quebradas desde o início, pessoas solitárias, pessoas que não querem conviver com a realidade, que creem que o glamour muitas vezes é a estrutura de muita coisa quando, muito pelo contrário, é um caos”, explica.
O ator ressalta que, além do sucesso no exterior, o grande trunfo foi a visibilidade que Olhares de perfil deu à cultura brasileira na Europa. “A Garbo foi um divisor de águas. Foi um chamamento para a questão do teatro comportamentalista na Europa, porque eles tinham uma ideia do Brasil, no fim dos anos 80 e meados de 90, muito diferente da que têm hoje, mesmo porque com toda essa questão da internet tudo ficou muito mais explícito. Hoje as pessoas sabem o que acontece no Brasil. Naquela época, falava-se de futebol, música e carnaval, mas não tanto de teatro comportamentalista. Isso para mim é importante ressaltar, porque mais do que o prêmio, é a celebração da língua brasileira, da língua portuguesa do Brasil. Esse é o grande trunfo”, finaliza.

Diversão e Arte
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