Em tempos de redes sociais, encontrar originalidade e identidade é um evento raro. Vez ou outra, acontece de alguém alcançar grandes números com um conteúdo que toca pela essência e naturalidade. Com tantas pessoas criando, essas virtudes ficaram cada vez mais difíceis de serem encontradas. Quanto ao mundo artístico, então, ter o próprio rosto conhecido é um desafio e tanto. Aos 23 anos, Gabriela Araujo, mais conhecida como Gabisteca (@gabiisteca), fez da voz e do corpo um instrumento totalmente voltado para a arte.
Natural de Sorocaba, no interior de São Paulo, a jovem performer e escritora viu sua vida mudar drasticamente aos 15 anos, quando, em um movimento que descreve como um "surto" de determinação, mudou-se sozinha para a capital paulista para estudar teatro. Embora seus pais tenham tido experiências com os palcos na juventude, a arte em Gabriela manifestou-se como um caminho sem volta ainda na infância.
Hoje, ela não se define apenas por uma vertente: é atriz, toca instrumentos e também dança. “É uma mistura boa, não consigo dizer o que sou por completo. É um pouco de tudo, talvez. Mas, acredito que eu seja mais escritora do que qualquer outra coisa”, detalha. No entanto, foi o isolamento da pandemia, em 2020, que forçou uma transição fundamental em sua carreira.
Trancada dentro de casa, a internet tornou-se seu novo laboratório. "Na pandemia não estava tendo teatro, então aprendi eu mesma a performar da forma que conseguia. Comecei a escrever meus próprios textos e as coisas começaram a fluir", revela. O sucesso nas redes sociais, que Gabriela inicialmente encarava com uma certa descrença devido à subjetividade das métricas digitais, tornou-se palpável apenas quando o público passou a abordá-la nas ruas.
Foi essa pressão popular, inclusive, que a empurrou para o mercado editorial. Com três livros publicados — Ainda não sei o nome (escrito aos 18 anos), Esquisitices e o recente Cobradores de amor — ela admite que a transição para o papel foi uma forma de tornar sua obra concreta. Agora, com mais de 3 milhões de seguidores nas redes sociais, Gabriela não vê outra alternativa para si mesma senão a de continuar criando.
- Leia também: Paternidade, vídeos e cinema: Pkllipe transita entre o sonho e o sucesso
- Leia também: Gê Aniceto: do futsal à bolsa nos EUA e os vlogs de sucesso
Por trás da performance
Um celular, um texto e um sonho. Esses três elementos são os pilares centrais do sucesso de Gabisteca. A aparente espontaneidade e habilidade com as palavras fizeram dela uma jovem em ascensão na arte. Os comentários nos vídeos e as identificações com os poemas comprovam isso. Todavia, apesar da naturalidade, há sempre um estudo e técnicas por trás de cada performance.
Vinda da escola do teatro, ela encara cada poema como uma escultura. "Eu faço partitura de palavras, vejo a cadência. O trabalho é inteiramente proposital", explica. Para Gabriela, a criação não termina no texto, mas se estende para a imagem, a iluminação e a forma exata como deseja ser ouvida pelo interlocutor. É essa união que a destaca no cenário digital, criando uma conexão visceral com um público que não apenas assiste, mas sente suas interpretações.
Embora a estética das redes sociais muitas vezes priorize o imediato e o espontâneo, o processo de Gabriela é cirúrgico. Para a artista, essa preferência do público pelo "menos estético" e pelo "mais real" reflete um cansaço da sociedade com cenários elaborados e excessos de efeitos. "Estamos fazendo uma espécie de arte de fim do mundo", reflete Gabriela. "Como se tivéssemos uma saudade antecipada de um mundo que ainda não acabou. Por isso tantas pessoas se identificam".
Apesar da poesia crua, ela mistura, como em uma salada de frutas, o melhor que existe dentro de si mesma. "Eu de fato peguei a câmera e falei. Mas, antes, eu estudei. Pensei em como ia falar, o que ia escrever e como construir aquela arte específica para publicar. A performance na internet perdeu um pouco do senso artístico por estar muito alinhada apenas à estética. Agora, todo mundo performa, mas dentro da arte o funcionamento é outro."
Raízes nacionais
Em um mundo globalizado e hiperconectado, sobretudo em época de TikTok, Gabisteca nada contra a maré. Suas referências não vêm de algoritmos ou de tendências virais estrangeiras, mas do cinema e da literatura brasileira. Ela se assume como uma entusiasta da cultura nacional, citando clássicos como Eu Sei Que Vou Te Amar, de Arnaldo Jabor (protagonizado por Fernanda Torres), e Bye Bye Brasil.
A artista refuta a pressão de consumir best-sellers internacionais ou nomes óbvios da literatura estrangeira apenas por convenção. Para ela, a língua portuguesa e a identidade brasileira possuem uma poesia única que basta para sua formação."O Brasil tem uma poesia em ser brasileiro que cativa demais. Nossa cultura é muito mais nossa pelo simples fato de estarmos aqui. É onde a identificação acontece de forma 100% real", conclui.
Na pressa dos dias e da rotina, é comum que muitos conteúdos passem despercebidos no dedilhar das telas. Essa aceleração, que muitas vezes atropela a contemplação, faz com que as pessoas não percebam a poesia no cotidiano. No entanto, ela enxerga o momento atual com otimismo. Para a artista, a poesia produzida hoje não deve ser comparada à régua da literatura clássica, mas sim entendida como o "reflexo do nosso tempo".
"A gente faz a poesia do que vivemos agora. Não tem como fugir disso", acrescenta. Gabriela destaca que faz parte de um grupo de amigos artistas dedicados a estudar a relação entre a arte e a internet. Em outubro, ela se muda para a Itália, com o objetivo de se especializar ainda mais no teatro. Com muitos sonhos pela frente, Gabisteca tem conquistado um público fiel e apaixonado. Mais do que isso, tem criado uma estética única, que permanece viva entre a arte e a nostalgia.
