Há um fio que conecta um rei cruel da Bíblia, um sobrevivente da tragédia da Boate Kiss, um piloto de Fórmula 1 e um personagem lúdico que mistura Jack Sparrow com João Grilo. Esse fio se chama Nicolas Vargas, que, aos 33 anos, vive um dos momentos mais profícuos de sua carreira, circulando entre streaming, tevê aberta, cinema e teatro com uma versatilidade que poucos conseguem equilibrar.
O ator gaúcho de Porto Alegre vive um dos momentos mais profícuos de sua carreira. No streaming como Chico Serra na série Senna (Netflix), como Aleksei em Desalma (Globoplay) e Fernando em Todo dia a mesma noite (Netflix), o ator grava como o protagonista em A ira do herdeiro, nova superprodução da Record TV que marca sua primeira grande aparição na televisão aberta nessa dimensão.
Nicolas interpreta Manassés, que herda o trono após a morte de Ezequias e se transforma em um déspota. "É um anti-herói, ou um vilão em uma jornada de redenção, uma figura trágica", adianta ele, sobre o personagem na série que marca um reencontro com o diretor Carlos Manga Jr., com quem já havia trabalhado em Desalma.
Para Nicolas, o convite soa como um sonho realizado. "Sou obcecado pelo gênero épico. Abordar um épico bíblico quase como Shakespeare, com uma preparação que lembra o teatro — os ensaios, o elenco unido — é algo que me realiza profundamente", celebra, acrescentando que a série tem elementos que lembram o universo literário de Duna.
Embora A ira do herdeiro trate de temas bíblicos, Nicolas faz questão de ampliar a leitura. "A história não é apenas sobre fé. É uma tragédia grega, com grandes desdobramentos, sobre mundos pessoais", argumenta. Ele se define como um "estudioso com conexão com o divino" e celebra o acolhimento da emissora: "Não há exigências fora do profissional. Há liberdade criativa".
Entrega emocional
Para viver o rei bíblico, Nicolas treina equitação e boxe. Mas talvez nenhum papel tenha exigido tanto de sua entrega emocional quanto Fernando, em Todo dia a mesma noite, da Netflix, série inspirada na tragédia da Boate Kiss, onde dezenas de pessoas morreram em um incêndio em janeiro de 2013. Sendo gaúcho e com familiares em Santa Maria, Nicolas carregou um peso extra. "Foi uma experiência surreal, um senso de responsabilidade muito grande", relembra.
"Li o roteiro no avião e estudar a fundo o que realmente aconteceu mexeu comigo. O roteiro nasce do livro sem nomes, mesclando elementos de vítima e sobrevivente. Foi uma honra poder contar essa história com generosidade e acolhimento", completa, reforçando que o retorno do público e das famílias foi o que deu sentido ao trabalho. "Honrou as pessoas que passaram por aquilo", resume Nicolas.
Já viver Chico Serra, piloto real e amigo de Ayrton Senna, trouxe outra camada de responsabilidade. "Uma pessoa que existe, que tem uma história — e é preciso representá-la", resume Nicolas. O mergulho no automobilismo dos anos 1980 exigiu pesquisa e sensibilidade para retratar um ídolo que ainda pulsa forte na memória afetiva dos brasileiros.
Foi em Desalma, porém, que Nicolas encontrou um espaço de transformação interna. No papel de Aleksei, inserido em um universo de realismo fantástico e suspense, o ator diz ter curado traumas pessoais. "As dores que eu tinha em relação aos meus pais, uma constelação familiar muito parecida. A extensão humana nos faz entender melhor a nós mesmos." Assumidamente nerd desde criança — fã de Senhor dos Anéis e Game of Thrones —, ele enxerga no gênero fantástico um espelho do drama humano. "É tudo sobre o humano. A gente se vê ali", defende.
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Fora do eixo
Natural de Porto Alegre e formado pela Casa de Teatro da cidade, Nicolas fez questão de construir uma carreira sólida no Sul antes de qualquer tentativa de migrar para o Rio ou São Paulo. "Existe uma potência fora do eixo. Regionalizar o Brasil é muito positivo. Cada estado tem energias distintas, e isso se reflete na arte", argumenta ele. "É possível sobreviver da arte sem a ansiedade de vir para o eixo antes", afirma. "Eu sempre tive muito receio dessa pressa."
Ele credita parte de sua formação a cineastas gaúchos como Diego Müller e Pablo Müller, com quem realizou os curtas Correnteza e Está tudo bem — este último vencedor do prêmio de melhor ator em festivais no Brasil, Argentina e Nova York. O longa Infinimundo, também fruto dessa parceria, levou o prêmio de melhor filme pelo júri popular em Gramado — no qual encarnou a tal mistura entre Piratas do caribe e O auto da compadecida citada lá no início. Outro nome gaúcho com quem Nicolas trabalhou foi Jorge Furtado, em Vai dar nada — "O sonho de todo ator brasileiro", assinala.
Para Nicolas, o teatro nunca foi um trampolim para o audiovisual, mas sim o chão onde tudo começa e termina. "É de onde eu vim, é onde eu vou para abaixar a cabeça e entregar as armas." A longa parceria com o mestre Zé Adão Barbosa, em espetáculos como O apanhador e Amor de 4, segue sendo sua bússola. Recentemente em cartaz em Sonhei com você, ele descreve o teatro como um lugar de euforia e desafio.
"Amo audiovisual, mas é tudo igual para mim. O teatro dá uma euforia, é intenso, gostoso de se fazer. É onde vou para recarregar", avalia ele, que cita nomes importantes da sua trajetória, como Carlota Albuquerque, Larissa Sanguine, Marcio Reolon, Filipe Matzembacher, Catharina Conte, Nora Goulart e Ana Luiza Azevedo.
Com personagens que vão do lúdico ao déspota, do traumatizado ao solar, Nicolas Vargas parece movido por uma força que ele mesmo não tenta nomear — apenas sente. "Sou canceriano", ri. Herdou do tio e padrinho Fábio a paixão pelo cinema, e da professora Inês Pinheiro, com quem começou aos 11 anos, a centelha do teatro.
Seu presente é múltiplo: na televisão, no streaming, nos festivais, no palco. O futuro, uma incógnita fértil. Mas seu norte, esse não muda. "Teatro é a base. É onde entrego as armas", conclui.
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