
Riviera Maya (México) — Premiado pela montagem de O agente secreto, o editor Eduardo Serrano subiu ao palco dos prêmios Platino defendendo a honra, ao lado do parceiro Matheus Farias, de encorpar uma arte um "pouco existencial" e invisível no cinema. "Acho que a nossa característica como latino-americanos é também propor perspectivas diferentes de mundo. O agente secreto tocou o mundo sobre nossas experiências controversas dentro das políticas que tivemos nos últimos nos últimos anos e em décadas passadas. Acho que é esse o papel que o filme desempenha no mundo, e espero que sensibilize muitos corações. Viva o cinema, viva o Brasil, e viva o Recife também!", salientou.
"A gente não estaria aqui, não fosse a nossa parceria com Emilie Lesclaux (produtora do longa indicado a quatro prêmios Oscar) e Kleber Mendonça Filho (diretor) em mais um filme brasileiro e latino-americano", pontuou o músico Thomaz Alves Souza, vencedor, ao lado do irmão Mateus Alves. "Queríamos agradecer aos músicos que gravaram a trilha, muitos músicos, alguns da Venezuela, de Portugal, Espanha e também de Europa como uma equipe toda", salientou Mateus, ao que Thomaz Alves completou: "Queria também dedicar esse prêmio a painho e mainha e à cidade de Recife, que fica em Pernambuco, no Brasil. Gracias".
Na entrega dos prêmios, com 21 nomes destacados entre séries e filmes de mais de 20 países, não faltaram registros políticos. Ainda sem o resultado final, em que competem diretores como Kleber Mendonça Filho e atores do peso de Wagner Moura e o argentino Guillermo Francella, em cerimônia marcada para o sábado (9/5), muita atenção foi dada para a série O eternauta, sucesso da Netflix. "Somos todos irmãos, e vivemos em sociedade, por isso agradeço a toda a equipe técnica pela premiação", pontuou o uruguaio Cesar Trancoso, vencedor de melhor ator coadjuvante.
Andrea Pietro, premiada atriz coadjuvante pela mesma série, complementou, algo otimista: "Temos hoje um mundo com tão pouca empatia, mas ainda existe muita gente boa e conectada, não podemos esquecer", disse, ao vencer, pela série de ficção científica, o primeiro prêmio, em 37 anos de carreira.
Para além da série que trata de uma invasão alienígena que mobiliza a resistência, outro filme bastante reconhecido, Belén, uma história de injustiça, embalou discursos incisivos, como o de atriz coadjuvante, vencido por Camila Pláate, que interpreta uma personagem saída da vida real, e que sofreu traumas de ser acusada de um aborto espontâneo, por uma perigosa junta policial com objetivos escusos.
"Agradeço a Soledad Deza, advogada do caso real. A vida se faz com luta, coragem e amor. Traidores nunca triunfarão, e diante do aniversário da primeira-dama (e filantropa) Eva Duarte de Perón, queria lembrar de uma frase que disse: 'Com as cinzas dos traidores construiremos a pátria dos mais humildes'. Palestina, livre; por um mundo com paz e amor", conclamou.
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Outra profissional premiada, pela maquiagem e pelo penteado de caracterizações, na série Menem (em torno do ex-presidente arrgentino), Dolores Giménez, destacou o difícil momento coletivo vivido pela Argentina, que tem "desvalorizando a força do audiovisual como constituinte de um país". Também com apelo emocional, o melhor ator coadjuvante (pelo filme espanhol Surda, próximo de estrear no Brasil), Álvaro Cervantes dedicou o prêmio para uma tia, que vive no México, e que sempre o ensinou sobre carinho e vida, tornada uma pessoa especial, pelas dicas sobre o amor à cultura de outros países.
Álvaro, que interpreta um marido e pai muito presente no filme de proposta inclusiva, aproveitou o momento para a reivindicação "por um cinema com legendas e acessibilidade destinadas a todos".
Com outra vitória de O agente secreto (na categoria direção de arte para Thales Junqueira), a festa de premiação trouxe reconhecimento ainda para a capacidade de repassar valores por meio da expressão cinematográfica, num novo prêmio atribuído para o argentino Belén.
No recebimento da distinção estiveram as produtoras Leticia Cristi e Dolores Fonzi (diretora e atriz do longa), novamente, com discursos fortes. "O filme é baseado em uma história real, que mais tarde foi adaptada para o livro por Ana Correa (Somos Belén). A própria história tem dois lados, por assim dizer. Começa repleta de preconceito, com falta de empatia, demonstrando e destacando claramente a falta de direitos das mulheres, especialmente das mulheres pobres. A história, em prol de Belén e de seu destino, toma um rumo que me permite compreender os valores que, em última análise, são reconhecidos e recompensados com esta distinção, valores que se relacionam com o que foi dito neste palco: a luta coletiva, a importância de compreender o outro, de enxergá-lo, de agir de acordo, de tomar medidas, que é, grosso modo, o que Soledad Deza e todo o movimento feminista fizeram", pontuou Leticia.
Exibido em mais de 500 sessões, apoiadas em instâncias educativas: escolas de ensino médio, universidades, organizações e centros comunitários, o longa segue impactando. Onde quer que vamos, as pessoas nos pedem o filme. Temos apoiado amplamente o projeto, participado de palestras e apresentações. "Acreditamos, firmemente, que o cinema importa, e importa muito. Ele evoca memórias, conscientiza, constrói pontes e tem o poder de entreter e emocionar — neste caso, também nos proporcionou tudo o que este filme legou. Portanto, viva a educação pública e as universidades públicas! E muito obrigado por este maravilhoso prêmio que nos representa", ressaltou Dolores Fonzi.
*O repórter viajou a convite da organização dos prêmios Platino Xcaret
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