CRÔNICA DA CIDADE

O que Rita Lee me ensinou sobre as coisas da vida

Além da certeza da morte, a outra única certeza universal é de que todos temos mães, por mais órfãos que nos tornemos em algum momento de nossas existências

Rita Lee -  (crédito:  Biônica Filmes/Divulgacao)
Rita Lee - (crédito: Biônica Filmes/Divulgacao)

Dizem que a maternidade é algo único. E é mesmo. Gestar, no ventre ou fora dele, nos transforma. Tudo faz parte de um processo, às vezes mais acelerado, outras demorado demais. Mas sempre transformador. E não se trata de uma mudança trivial. Descobrimos uma personalidade nova, um sentimento diferente, de amor totalmente metamorfoseado.

Ao longo da vida, performamos diversos papéis. Afinal, dificilmente seremos no trabalho iguais à nossa vida íntima ou em outros espaços que frequentamos. Somos filhos, companheiros, amigos, chefes, empregados, visitantes, consumidores, artistas profissionais ou amadores, leitores, devotos.

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A maternidade tem o poder de unir todos esses retratos de nós mesmos sob um só denominador. Além da certeza da morte, a outra única certeza universal é de que todos temos mães, por mais órfãos que nos tornemos em algum momento de nossas existências.

Talvez emane daí a energia contagiante de ser mãe. Não romantizo essa tarefa e tenho orgulho e tranquilidade de poder compartilhar o cuidado de minhas filhas com a minha rede de apoio. Da escola à avó, do pai aos amigos. Porque também é preciso deixar espaço para um 'ser eu' diverso.

Evidente que, muitas vezes, me apego mais a esta nobre função do que às outras e acabo deixando muita coisa igualmente importante de lado. Nesses momentos, o que tento fazer é pausar e tentar olhar em perspectiva minhas ações, como se virasse algo divino, maior do que eu — talvez a própria consciência de mim mesma —, e flutuasse sobre o mundo, ocupando um tempo/espaço ainda não descoberto pela física moderna.

Nesses momentos, reconheço que estou deixando de lado algumas questões essenciais, como o autocuidado ou mesmo uma ligação para pedir notícias de um familiar querido. Coloco tudo naquela lista mental. Estabelecer prioridades é essencial para que elas sejam, de fato, o mais importante do seu dia.

O problema é que, ao nos tornarmos mães, viramos também o ser mais humano que pode existir: a essência da palavra humanidade. Com isso, talvez nos tornemos mais propensos a falhar também.

Em um 8 de maio, véspera do Dia das Mães, eu perdi a minha. Anos depois, na mesma data, foi-se uma das artistas que tive como referência, mas que só pude compreender com mais profundidade há poucos anos. Rita Lee deixou uma obra que me ensinou muito, mas que essencialmente me ajuda a perdoar os erros da mãe que eu sou e da que eu tive e, assim, ser livre para amar sem culpa. A arte inspira e também salva.

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postado em 12/05/2026 18:58 / atualizado em 12/05/2026 19:15
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