Entrevista

Psicanalista lança livro de crônicas sobre mal-estar contemporâneo

‘Freud explica: eu só conto’, do escritor Marcus Vinicius Leite, aborda temáticas como solidão, ansiedade e frustrações afetivas de maneira bem-humorada

Marcus Vinicius Leite lançou livro em que aborda temas da psicanálise com ironia e sarcasmo -  (crédito: Divulgação)
Marcus Vinicius Leite lançou livro em que aborda temas da psicanálise com ironia e sarcasmo - (crédito: Divulgação)

O escritor e psicanalista Marcus Vinicius Leite não promete resolver nenhuma questão psíquica com a literatura. Mas, ao narrar o mal-estar contemporâneo a partir das próprias experiências, ele diz oferecer “companhia ao leitor num território estranho entre o riso e o desconforto”. As 116 crônicas do livro Freud explica: eu só conto atravessam temas como solidão, ansiedade, frustrações afetivas, medo do envelhecimento e esgotamento das relações. 

O livro nasceu de inquietações, conversas de bar, nunca de consultório. As digitais do psicanalista aparecem durante todo o percurso. “O leitor começa achando que está observando o autor, e em algum momento se percebe com aquele desconforto específico. Tenho os mesmos problemas de comportamento humano”, comenta Marcus Vinicius.

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Marcus Vinicius Leite é jornalista, escritor, psicanalista e produtor cultural. Nascido em Uruguaiana, Rio Grande do Sul, e morador de Brasília desde 1997, o autor publica literatura desde 2006. Em entrevista ao Correio, ele detalhou o novo livro.

 

Quando surgiu o desejo de transformar matérias psicanalíticas em crônicas? 

Não foi bem um desejo. Foi uma irritação. Eu olhava para o que circulava sobre psicanálise nas redes, aquelas frases soltas, aqueles fragmentos de Freud servidos como biscoito de fortuna e pensava: “Isso não é psicanálise, isso é psicanálise domada”. Comecei a publicar em plataformas de crônicas e as pessoas se assemelhavam ao texto. É assim com quase tudo que vale a pena escrever, não nasce do entusiasmo, nasce do incômodo.

Por que a crônica foi a maneira escolhida para tratar dessas questões?

É, para mim, o único gênero que aceita a vida sem pedir que ela se comporte. O ensaio quer rigor. O conto quer estrutura. A crônica aceita a interrupção, o desvio, o pensamento que não chegou até o fim. E a psicanálise também funciona assim. Ela não resolve, ela revela. Os dois têm em comum essa desconfiança saudável das conclusões redondas.

Do que trata esse material?

As crônicas falam de solidão, ansiedade, frustrações afetivas, medo do envelhecimento, relações esgotadas, sensação de inadequação e desse cansaço contemporâneo que muita gente tenta esconder atrás de produtividade, frases motivacionais e stories felizes. Só que tudo isso atravessado por ironia. Até porque a tragédia humana costuma ficar ainda mais reveladora quando a gente consegue rir dela por alguns segundos. 

Você é o centro das atenções? Quem mais aparece?
Acredito que sou mais o narrador do desastre do que exatamente o protagonista. Um psicanalista que escreve e finge que não está se analisando no processo é, tecnicamente, um caso clínico. Mas o livro é povoado por figuras que qualquer leitor reconhece imediatamente. O sujeito que finge maturidade no LinkedIn e desaba no travesseiro, a pessoa que transforma terapia em signo de status, os especialistas em felicidade instantânea que, na minha experiência, são frequentemente a mesma pessoa em fases diferentes da semana.

O humor parece ser a tônica do livro. Há espaço para dor e sofrimento nos textos?

Totalmente. O humor, no livro, nunca aparece como fuga da dor, mas sim, como modo de sobrevivência. O livro parte muito dessa ideia de que rir é, às vezes, o último recurso elegante antes do colapso. E a psicanálise, que não é conhecida exatamente pelo bom humor, sabe disso melhor do que qualquer outro campo. Foi Freud quem escreveu sobre os chistes e sua relação com o inconsciente. O riso, para ele, não era leveza. Era revelação.

Qual é a razão de ser desse livro?

A obra não tenta oferecer cura, lição de moral ou fórmula de felicidade. Ele prefere fazer companhia ao leitor nesse território estranho entre o riso e o desconforto: aquele momento em que a pessoa ri e logo depois percebe que talvez estivesse rindo da própria vida. Esse momento, para mim, vale mais do que qualquer catarse programada. É quando o texto para de ser texto e começa a ser experiência. E experiência, como qualquer psicanalista diria, é o único lugar onde alguma coisa de fato muda.

Serviço:

Freud explica: eu só conto (Editoras Fiapo e Letras E Versos, R$ 60). Pedidos em: curtaspensatas@gmail.com

*Estagiário sob supervisão de Nahima Maciel

 

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JP
postado em 12/05/2026 17:26 / atualizado em 12/05/2026 18:07
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