
Em meio a pilhas de livros, roteiros rabiscados, uma máquina de escrever ainda em funcionamento e a memória afetiva do teatro brasileiro pulsando, Isabel Teixeira vive exatamente onde sempre quis estar: no meio da arte. Aos 52 anos, dona de uma das presenças mais magnéticas da dramaturgia nacional contemporânea, ela fala sobre novelas com o mesmo entusiasmo de uma jovem estreante — embora carregue quatro décadas de palco nas costas, uma coleção de prêmios importantes e personagens que já entraram para a memória popular do país.
No ar em Quem ama cuida, em que interpreta Pilar, sua primeira grande vilã das nove, Bel — como é chamada por colegas e amigos — ri alto ao admitir o que considera quase um vício: fazer novela. Mas ela não encara o gênero apenas como indústria ou rotina de gravação, mas como uma experiência humana contínua, um organismo vivo que ela descobriu tardiamente — e do qual não quer mais sair. "Eu gosto mesmo de fazer novela", diz, com a empolgação intacta de quem ainda se deslumbra com o próprio ofício. "Descobri isso aos 46 anos. Quero fazer muita novela, uma atrás da outra, o resto da vida", garante.
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Sem sair do ar
É curioso ouvir isso de alguém que estreou na televisão há apenas sete anos. Em um meio em que muitos artistas passam décadas tentando ocupar o horário nobre, Isabel Teixeira chegou à tevê praticamente pronta. Não como uma aposta, mas como uma atriz lapidada pelo tempo. Sua entrada quase simultânea em Desalma (no Globoplay) e Amor de mãe (às 21h, na TV Globo) revelou ao grande público uma intérprete rara: intensa sem excessos, popular sem perder sofisticação, visceral sem abandonar delicadeza.
O reconhecimento definitivo veio com Maria Bruaca, no remake de Pantanal (2022). A personagem, atravessada por dor, desejo reprimido, abandono e libertação, encontrou em Isabel uma humanidade tão brutal quanto poética. O Brasil inteiro passou a observá-la. A atriz levou praticamente todos os prêmios importantes daquela temporada. Mas o fenômeno talvez tenha sido maior do que as estatuetas: Bel transformou uma mulher traída em símbolo de emancipação emocional.
Desde então, não saiu mais do ar. Vieram Elas por elas, outro remake, agora às 18h; a original Volta por cima, às 19h; e, agora, sua volta às 21h. "Novela das seis, das sete e das nove são mundos diferentes", observa, com o conhecimento de causa de quem atuou, em sequência, nas três faixas.
Na atual empreitada, Isabel vive uma mulher movida pela ambição, pela ganância e pelo desejo de controlar a fortuna do irmão vivido por Antônio Fagundes. E veio com todo o leiaute para deixar o público irritado, propositalmente com vários tons acima. "Pilar é uma mulher fria, calculista, perversa, mas sem perder o deboche, o cinismo e o charme que dão o tom de uma verdadeira vilã de novela, dessas que o Brasil ama odiar", descreve ela, ciente de que a nova megera da faixa tem tudo para seguir a linhagem de sucesso deixada pelas antecessoras Arminda (Grazi Massafera) e Odete Roitman (Debora Bloch).
É sua terceira antagonista consecutiva — e talvez o momento em que a televisão percebe definitivamente que Isabel Teixeira pode fazer qualquer coisa. E ela mesma parece se divertir com a descoberta: "Eu já fiz tanta coisa no teatro, mas realmente a tevê ainda tem mais a explorar de mim, e eu estou aberta".
Devoção à arte
Há algo de fascinante na forma como Isabel Teixeira fala sobre dramaturgia. Não existe nem cinismo, nem superioridade intelectual diante do gênero popular. Pelo contrário: ela fala das novelas como quem fala de um ritual coletivo brasileiro, uma cerimônia afetiva que atravessa gerações. "Uma novela une o país, e é disso que a gente precisa. A novela é o principal produto cultural do Brasil. A gente se reúne para ver novela, vamos brigar por causa da novela e vamos construir um país melhor", argumenta a atriz.
Na casa das tias, em Ubatuba (SP), conta ela, todos ainda se arrumam para assistir às novelas em sequência. Comentam cada personagem, cada cena, cada absurdo e cada acerto. Falam bem, falam mal, mas falam. E, para Isabel, talvez seja exatamente aí que mora a eternidade do gênero. "Novela existe para a gente comentar. E isso nunca vai acabar", aposta, divertida, sugerindo, inclusive, aos jornalistas apaixonados pelo gênero que promovam encontros virtuais para simplesmente falar do gênero — e convidá-la.
Filha da finada atriz Alexandra Corrêa e do músico Renato Teixeira, Isabel cresceu cercada por arte, literatura e música. Nos corredores da infância, o teatro parecia menos um sonho e mais um idioma doméstico. Estreou nos palcos aos 10 anos, em Uma aventura a caminho do Guarujá, e nunca mais saiu deles.
Formada pela Escola de Arte Dramática da USP e também em letras, ela construiu uma trajetória respeitada nos palcos paulistanos muito antes de se tornar conhecida nacionalmente. Durante anos, viveu o teatro em sua forma mais artesanal: produzindo, escrevendo, dirigindo, montando projetos independentes e aprendendo a sobreviver na arte sem glamour. Talvez venha daí a ausência absoluta de vaidade em seu discurso. Isabel fala de personagens pequenos com a mesma reverência dedicada às protagonistas. "Personagem é ser humano, e todo ser humano tem valor", defende.
Essa percepção parece atravessar sua própria presença em cena. Mesmo quando aparecia em papéis secundários — como Jane, em Amor de mãe —, havia nela uma verdade difícil de ignorar: Bel é uma atriz que não ocupa espaço apenas com texto, mas com existência. E isso se consolidou à primeira vista quando reencarnou a Bruaca idealizada por Benedito Ruy Barbosa lá em 1990.
Hoje, instalada definitivamente na televisão, ela segue preservando o teatro como território vital. Recentemente excursionou com Jandira, espetáculo criado em homenagem à atriz e dramaturga Jandira Martini, morta em 2024. O projeto nasceu do encontro com Marcos Caruso, colega de cena em Elas por elas e ex-marido da saudosa artista. Outro parceiro importante é Mateus Solano, com quem produziu o monólogo O figurante após a troca cênica na mesma produção.
Enquanto grava novelas — como a atual, assinada por Walcyr Carrasco e Claudia Souto com direção artística de Amora Mautner —, escreve livros artesanalmente em sua editora independente, transforma a própria casa em ateliê criativo e ainda encontra tempo para observar o mundo com curiosidade quase infantil. Usa máquina de escrever, escuta o público nas redes sociais, lê compulsivamente, ri muito e distribui generosidade por onde circula.
Em tempos de aceleração e descartabilidade, Isabel Teixeira parece pertencer a outra lógica de existência artística, na qual experiência não endurece, mas amadurece; na qual sucesso não produz distância, mas proximidade; na qual o talento não precisa gritar para ser percebido; e estar no ar em tamanha evidência não exclui o que é quase uma marca registrada unânime sua: a humildade. "Eu estou contracenando em pé de igualdade com o (Antônio) Fagundes e o Tony (Ramos), gente. Eu só tenho que ser grata e tentar retribuir de alguma forma ao Universo pela dádiva. Isso, para mim, é ganhar na loteria!", celebra, genuinamente modesta diante da própria grandeza.
Talvez seja por isso que o Brasil tenha criado uma relação tão afetiva com ela em tão pouco tempo. Porque Isabel Teixeira não entra em cena como estrela, mas como a Bel gente, mãe do Diego e da Flora, filha do Renato, irmã do Chico e moradora de Santa Cecília, que transita pelo bairro boêmio da região central paulistana — e é justamente por isso que se torna inesquecível.

Diversão e Arte
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