
Não foi a primeira vez que Larissa Mauro entrou em água gelada para viver uma situação limite. Mas, desta vez, a imersão foi também dramática. A atriz brasiliense de 18 anos de carreira acaba de estrear na teledramaturgia com uma participação especial na novela Quem ama cuida — no papel de uma mãe resgatada de uma enchente por Carlos, vivido por Jesuíta Barbosa, que morre como herói e deixa viúva a protagonista da trama, Adriana (Letícia Colin). A cena, de alto impacto emocional, exigiu mais do que técnica: pediu escuta, verdade e entrega.
"Quando li minhas cenas pela primeira vez, eu senti que seria uma grande responsabilidade fazer essa personagem que, apesar de ser uma participação, tem importância dramatúrgica", conta Larissa, que, para construir a fragilidade extrema e a sobrevivência simultâneas, assistiu a reportagens sobre enchentes recentes no Brasil e vídeos de vítimas.
Um depoimento, em especial, a marcou: o da dona Edna, a senhora que ficou agarrada a um poste por mais de três horas na enchente de Minas Gerais. "Eu fui me alimentando dessa realidade, me abrindo pra tentar me aproximar da dimensão da dor dessas pessoas, dessas famílias. Acabei descobrindo que, para além da dor e da impotência de perder tudo, existe um sentimento de gratidão pela vida", relata.
A complexidade desses sentimentos — dor, gratidão, culpa do sobrevivente e força para recomeçar — foi o que ela buscou levar para a personagem Alzira. "Foi uma honra poder representar tantas famílias brasileiras que, apesar da tragédia, têm força e fé para renascer em vida", celebra, grata.
Ao final da entrevista, Larissa se dirigiu à personagem que interpretou e a todas as pessoas reais que sobrevivem a tragédias vendo heróis anônimos caírem. "Eu não sinto que exista culpa. Em uma tragédia dessa magnitude, infelizmente pessoas não sobrevivem. Não existem culpados em um acidente que acabou sendo fatal. É horrível, é triste, é desolador. Mas também existe um legado de solidariedade e altruísmo nessa morte, e é com isso que eu escolho ficar", garante
Para ela, Alzira também é heroína. "A força dela inspira milhares de mães solo no Brasil. Ela merece reconstruir a vida com muita fé. Quer coisa mais valiosa para uma mãe reencontrar as filhas bem e com vida depois de uma experiência de quase morte? Apesar da tragédia, continuamos vivas e temos a possibilidade de renascer em vida", defende.
Uma artista pesquisadora
Formada em teatro pela Universidade de Brasília (UnB), Larissa possui mestrado em atuação pela East15 Acting School, em Londres, e integrou o Conservatório Teatral GITIS — The Russian University of Theatre and Arts, em Moscou. Longe de acumular títulos por vaidade, ela se define como "uma artista pesquisadora". "Gosto de estar em constante crescimento, me colocando sempre como aprendiz diante da vida. Estudar em Londres e em Moscou certamente elevou o meu nível de aprofundamento nas artes dramáticas", destaca.
Foi em Londres que ela entendeu Shakespeare pela primeira vez. Em Moscou, encontrou a técnica de Michael Chekhov, que a desafia e instiga até hoje. Mas, na hora de gravar para a televisão, o segredo é outro: esvaziar a bagagem. "O público não quer ver a técnica, o público quer ver um ser humano de verdade lutando por aquilo que ele deseja. A Alzira é essa mãe popular, brasileira, porque é o meu corpo, a minha voz, a minha imagem que estão ali. O que torna a cena realista e emocionante é justamente a busca pela verdade", defende.
Outras frentes e identidade negra
Além de atuar, Larissa tem se destacado como preparadora de elenco — incluindo atores mirins em projetos como Chico Bento e Goiabeira Maraviósa e Carolina Maria de Jesus. Ela e sua sócia, a também atriz e preparadora Fernanda Rocha, estão lançando o método "Meu pequeno ator", voltado à atuação audiovisual para pais e filhos. "Estar perto das crianças me alimenta muito artisticamente. As crianças possuem as principais características que os atores necessitam: espontaneidade, criatividade, capacidade de imaginação, autenticidade e sensibilidade", frisa.
Em 2020, em meio ao isolamento da covid-19, Larissa decidiu fazer algo ousado: dirigir, roteirizar e atuar em Vírus, uma autoficção sobre seu processo de se reconhecer como mulher negra. A obra rendeu menção honrosa no Festival de Brasília e rodou festivais internacionais. "Ter a coragem de expor coisas tão íntimas certamente me fortaleceu enquanto artista e me ajudou também a entender quem sou eu diante do mercado audiovisual, o que a minha imagem transmite e quais mensagens eu quero passar."
Mais recentemente, Larissa integrou o elenco da série Emergência radioativa (Netflix, 2026), de Fernando Coimbra, no papel da enfermeira Nádia. A série ficou no top 1 internacional da plataforma por duas semanas. E ela considera o longa A natureza das coisas invisíveis, de Rafaela Camelo (Netflix, 2025), um marco em sua trajetória. O filme já passou por mais de 30 festivais nacionais e internacionais, acumulou mais de 20 prêmios — incluindo melhor filme brasileiro na Mostra de SP e o prêmio APCA de melhor roteiro original.
De Brasília para São Paulo
Em 2026, a Andaime Cia de Teatro, co-fundada por Larissa ainda na UnB em 2007, completa 19 anos. A companhia é conhecida pela pesquisa em espacialidade e proximidade com o público, com incursões em "assaltos culturais" — ocupações de espaços não convencionais como cartórios, bares e ruas. "A proximidade com o público nos coloca em um estado de improviso que é muito desafiador e nos faz crescer muito como intérpretes", resume a artista, nascida e formada em Brasília, que se mudou para São Paulo em busca de oportunidades que a capital federal já não lhe oferecia na mesma escala.
"Eu amo Brasília, mas chegou um momento em que a cidade não me oferecia mais oportunidades de continuar crescendo na minha profissão. São Paulo é uma cidade de grandes oportunidades e o maior epicentro da indústria audiovisual", conclui Larissa.
Aos jovens artistas brasilienses, ela deixa um conselho direto: "Busquem se agrupar, se juntar com pessoas que pensam parecido. Aprendam sobre produção, sobre elaboração de projeto. Continuem estudando. A arte é um caminho sem volta". E também um lembrete realista: "Sempre que eu termino um trabalho, estou desempregada. Minha logística financeira tem que acompanhar esses períodos de entressafra".
Em gesto que resume sua própria trajetória, Larissa acrescenta: "Minha mãe costuma me dizer que meu padrinho é Deus. E ela tem razão".
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