Em cartaz e rodando o Brasil há sete anos, Eu de você é uma pequena-grande joia no repertório de Denise Fraga. Criada a partir de histórias que a atriz coletou enquanto criava o espetáculo, é uma colcha de retalhos de pequenas narrativas muito humanas e contadas com muito afeto. O amadurecimento da peça, que volta a Brasília amanhã e domingo, com apresentações no Teatro Paulo Gracindo do Sesc do Gama, passa também pela maneira como Denise se relaciona com o público.
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Em entrevista ao Correio, Denise conta que, uma vez, um rapaz disse a ela que não conseguia dissociar a atriz da personagem. "Ele disse que tinha visto a campanha da Vivo e falou assim: 'É engraçado porque você está ali falando com as pessoas, eu sei que você está de alguma maneira sendo atriz, ou seja, você tá representando, mas é você. Como você faz isso, Denise? Quando você é você?", conta. "O que eu sinto que aconteceu comigo, e que talvez seja o amadurecimento do Eu e de você, é a pessoalidade que dei ao trabalho, essa coisa de me misturar o tempo inteiro com o personagem."
Foi Luiz Villaça, o diretor de Eu de você, quem falava, enquanto dirigia Denise, para que ela tentasse ficar na fronteira, não fizesse o personagem, se deixasse atravessar pela experiência do outro. E funciona. A peça começa com uma introdução na qual a atriz conversa com a plateia antes de subir ao palco, o que acaba por gerar proximidade e empatia com o público. "Eu acho que o maior amadurecimento é essa disposição e a curiosidade pela história da plateia, essa relação com a plateia, fazer esse ritual de entrada em que eu converso com a plateia. Isso virou um fascínio para mim", conta. "Às vezes, eu fico com pena de ter que começar a peça, porque eu vou conversando ali com um e com o outro. E essa parte evoluiu muito para mim, porque o espetáculo é fechado." Em entrevista, Denise, fala um pouco sobre como Eu de você cresceu sem nunca deixar de lado a emoção e o contato humano.
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Serviço
Eu de você
Com Denise Fraga. Direção: Luiz Villaça. Amanhã, às 20h, e domingo, às 17h30, no Teatro Paulo Gracindo — SESC Gama (Setor Leste Industrial, Lotes 620, 640, 660 e 680, Gama). Não recomendado para menores de 12 anos
Três perguntas para: Denise Fraga
Qual o maior amadurecimento de Eu de você? Como é a peça hoje, depois de tanto sucesso e com tantas apresentações?
Eu sempre fiz as peças por muito tempo, mas o Eu de você atravessou a pandemia. A peça é muito muito relacional, eu me relaciono com aquelas pessoas, tanto que eu nunca chamei de monólogo porque, na verdade, eu nunca me senti sozinha. Tem as pessoas na plateia e as pessoas que me deram suas histórias. E eu acho que virou cada vez mais uma conversa minha com a plateia. Talvez o amadurecimento venha dessa relação com a plateia, com as pessoas: acho que virou uma conversa viva. E essa coisa de pegar as pessoas aleatórias e convidá-las, eu tenho chamado de provocações afetivas. Nesse movimento de desumanização, em que estamos todos vulneráveis, principalmente depois do digital nas nossas vidas, eu fico pensando como é que a gente pode voltar um pouco. Nadar contra essa corrente.
Qual o maior desafio do espetáculo hoje?
Estar presente. Eu tenho que estar muito presente. Como ele é um loop de corpo e voz, corpo e voz o tempo inteiro, não dá nem tempo de eu não pensar naquilo. E eu acho que a peça tem um desafio corporal para mim. Estou com 61 anos, vou fazer 62, tenho que me manter treinada a peça me treina. Sempre penso: tenho que cumprir o que inventei. A cilada que eu me pus.
E por que a peça emociona tanto o público?
Eu falo essa peça parece uma música do Roberto Carlos que não tem quem não cante um verso. As pessoas se identificam muito. A gente fez a peça no final de 2018. Começamos a colher as histórias quando o Bolsonaro tinha acabado de ser eleito. Havia uma melancolia naquelas cartas que me foram enviadas. E um dos maiores prazeres que eu tenho é ver uma pessoa ali que, com todo o meu preconceito, acho que é de esquerda pelo seu figurino e outra que eu acho que é de direita pelo seu figurino, lado a lado na plateia, as duas pessoas chorando da mesma coisa, ou rindo da mesma coisa, porque há um lugar comum, humano, que é esse lugar, esse núcleo macio que ainda pode ser tocado, que você se comove.
