
A seca pode ser a estação do ano mais sofrida no Distrito Federal, mas é também a mais poética na visão de Gabriela Bilá. As cores e luzes do Planalto Central nessa época do ano inspiraram a artista a criar a exposição Brasília Cerrado, em cartaz no Brasília Shopping, uma celebração da fauna e da flora, mas também da cultura e da população que escolheu fazer da região casa e referência. "A gente chamou a exposição de uma ode à seca, que é nossa estação do ano tão particular e, muitas vezes, vista como um momento ruim de ausência, quando o nariz sangra, as árvores ficam marrons e o barro voa. Mas, além de ser indispensável para a renovação do Cerrado, tem coisas lindas e os capins adquirem aquelas cores mais douradas", explica Gabriela, que criou as obras em parceria com a arquiteta Mariana Siqueira.
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Quando se trata de vegetação, quem domina o imaginário brasileiro são as florestas tropicais e a natureza exuberante de biomas como a Amazônia e a Mata Atlântica. A savana central do país nem sempre entra nessa paisagem, embora esteja entre as mais importantes do Brasil. "A gente está fazendo uma honra à estética do Cerrado e dessa linguagem visual de um bioma ainda não muito entendido, que não participa muito do imaginário de florestas do Brasil. Mas é o bioma mais antigo do país, berço das águas e que, às vezes, é extremamente devastado pela agricultura e pela mineração. A ideia é valorizar esse bioma pela estética, que é sensorial."
Capins nativos, brincos-de-princesa, vassourinhas e capins colhidos nos arredores de Brasília durante a seca invadiram o espaço expositivo para dividir lugar com bichos que também formam uma espécie de jogo para o público embarcar na descoberta da riqueza local. "No Cerrado, as plantas morrem com dignidade, em pé, então você pode cortá-las e elas ficam lindas", repara Gabriela, que quis transferir para as instalações a beleza das plantas secas tão típicas da região.
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As instalações pendem do teto e brotam do chão, sobretudo graças à presença da enorme variedade de capins originários do cerrado. "Eles são muito característicos do solo daqui", lembra a artista. "A presença é forte no Cerrado, tem a forragem dos solos, é alimentação dos bichos, é muito marcante." Quando secam, esses capins costumam ficar rígidos e de pé, o que confere o caráter escultórico responsável por guiar as opções estéticas de Gabriela. Ela também lembra que essa planta faz parte da economia local, sobretudo na figura dos coletores de capins, atividade característica do Cerrado. "A ideia foi valorizar essa estética dos capins nativos. Se a gente consegue olhar a delicadeza, consegue ver a beleza. É a ideia de preservar o Cerrado por um viés mais sensorial", garante a artista.
A ideia para criar as instalações de Brasília Cerrado veio de uma pesquisa realizada pela artista sobre os biomas brasileiros e que já rendeu uma exposição sobre a Amazônia, apresentada no Sesi Lab em 2025. Parte da pesquisa está em identificar o que é nativo e o que não é do Cerrado. Gabriela lembra que, quando a cidade foi criada, muita vegetação acabou derrubada a, eventualmente, substituída por plantas vindas de viveiros do Rio de Janeiro e de São Paulo, nativas da Mata Atlântica. "Brasília está no meio do Cerrado, mas muitas das nossas plantas não são do Cerrado. Era feito de um jeito que se botava tudo abaixo, depois reflorestava. E o capim tem isso de ser visto como mato", conta. "Mas o Cerrado continua ali, na estação seca, no vento, na luz, na terra vermelha. E, por Brasília ter muito espaço aberto, muito céu, muito gramado, essas duas grandes estações, seca intensa e chuva intensa, são parte da cidade e são muito marcantes."
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Além das instalações, a exposição oferece oficinas e atividades que levam os visitantes por uma trilha na descoberta do bioma. Uma mesa de colorir foi pensada para as crianças, que podem usar uma coleção de giz de cera feita com pigmentos do Cerrado pela Matricaria, parceira na exposição. Uma oficina de capins com Mariana Siqueira explorou as plantas como linguagem, e um jogo de memória combina referências importantes da flora e da fauna. Para amanhã, está programada a oficina Estamparia Manual, com a artista têxtil Daisy Barros, especialista em design gráfico. Mas a grande paixão de Gabriela Bilá são mesmo os capins, que dominam boa parte de Brasília Cerrado. "É nosso elemento mais impactante, por isso resolvemos fazer essa homenagem. No Cerrado, nossa grande biomassa são os capins, há uma variedade enorme e, na exposição, colocamos pelo menos umas 15", avisa a artista.
Serviço
Brasília Cerrado
Exposição de Gabriela Bilá e Mariana Siqueira. Visitação até 16 de maio, diariamente, das 12h às 20h, no Brasília Shopping.
Oficina Estamparia Manual
Com Daisy Barros. Amanhã, às 17h, no Brasília Shopping
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