
Aos 27 anos, Ronald Sotto assume o primeiro protagonista de novela em A nobreza do amor, folhetim das 18h da TV Globo, vivendo Tonho, um trabalhador rural simples, honesto e profundamente sensível que se vê atravessado por um romance improvável com a princesa Alika, personagem de Duda Santos. E, talvez, não exista definição melhor para o momento do ator do que a imagem que ele próprio construiu ao falar do personagem: "A crueza do trabalho rural com a poesia do amor".
Na entrevista, Ronald fala pausadamente, escolhendo as palavras como quem ainda preserva algo do menino do teatro. Existe uma serenidade curiosa no modo como trata o tamanho da responsabilidade que acaba de receber. "É um misto de frio na barriga com gratidão imensa. Receber um protagonista, ainda mais no horário das seis, que tem uma tradição tão linda de contar histórias cativantes, é uma responsabilidade gigante. O Tonho só existe porque tem uma equipe inteira jogando junto comigo", reconhece o filho ilustre de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
A frase revela muito sobre a trajetória de Ronald. Desde que estreou na televisão em Malhação: toda forma de amar, em 2019, construiu um percurso menos pautado pela pressa e mais pelo acúmulo de experiências. Passou pelo streaming, alternou gêneros, atravessou o suspense, o drama juvenil, a ação urbana. Fez o inquieto Carlinhos Maestro, um jogador de futebol em ascensão em Os donos do jogo, na Netflix; mergulhou em cenas físicas em Veronika, série do Globoplay que ainda não foi ao ar; e, agora, troca o asfalto pela terra batida do interior potiguar fictício de A nobreza do amor.
"Isto é o que me faz amar essa profissão: sair do asfalto, da urgência urbana e da adrenalina de personagens como o Maestro e pisar na terra. Desacelerar o tempo interno para entrar no universo do Tonho foi um exercício de desconstrução. O corpo muda, a fala muda, o olhar", argumenta o capricorniano de 27 anos.
Sobre a passagem pelo streaming, Ronald reforça que o formato traz uma dinâmica muito interessante, em termos de tempo de dedicação a cada cena e profundidade de arco em poucos episódios. "Me deu muita precisão técnica e me ensinou a desapegar do volume de cenas para focar na intensidade de cada detalhe", defende ele, que ganhou visibilidade como o descolado Bernardo na série Tudo igual... SQN, primeira produção original da Disney no Brasil, além de viver um dos protagonistas da série Últimas férias, da Star , onde viveu Bruno, e atuar no longa Um ano inesquecível — Primavera, da Amazon Prime.
Escuta e improviso
"Viver um personagem que transborda honestidade e amor genuíno é um presente para qualquer ator", celebra o ator, que, para viver Tonho, encarou uma preparação física e vocal intensa. Trabalhou prosódia, desacelerou os gestos, buscou outro ritmo interno — menos urbano, mais orgânico, quase moldado pelo tempo da natureza. O resultado aparece também fora da cena: Ronald parece mais contido, menos ansioso, como se o personagem tivesse contaminado discretamente sua própria maneira de existir. "Corpo e voz andam juntos. Para o Tonho, precisei encontrar um peso diferente no corpo, mas sem perder a leveza dele", explica.
Essa construção passa diretamente pela formação artística do ex-modelo no Teatro Tablado, escola que ele costuma mencionar não apenas como espaço técnico, mas afetivo. "O que eu mais trago do Tablado é a capacidade de escuta e o jogo de improviso. A presença absoluta e a possibilidade de reagir de verdade ao que o outro te dá em cena", afirma. Sobre a diferença entre os palcos e as câmeras, ele acrescenta: "A rotina da televisão é industrial, o ritmo é implacável, mas a catarse ainda acontece, ela só muda de lugar. No teatro, você sente o retorno imediato do público no aplauso".
Talvez seja justamente essa escuta que explique a química imediata com Duda Santos. Nos bastidores, a parceria entre os dois virou um dos comentários recorrentes da produção. Ronald evita romantizar o processo, mas admite que existe uma confiança rara entre eles. "A gente se propôs a ouvir um ao outro desde as primeiras leituras. Existe uma confiança mútua no profissional um do outro ali. E o texto é maravilhoso, mas a gente acaba trazendo texturas e olhares que não estavam no papel", relata.
Na prática, isso significa cenas menos rígidas, abertas a pequenas respirações, olhares e texturas que escapam do texto original. Elementos invisíveis que, muitas vezes, sustentam os grandes casais da teledramaturgia.
E há algo de clássico nesse romance entre Tonho e Alika. Não apenas pela estrutura do amor impossível entre classes e universos distintos, mas pela forma como Ronald parece interessado em recuperar uma certa ideia de herói sensível, um homem cuja força não nasce da brutalidade, mas da integridade emocional.
"Não quero ser rotulado"
Em um audiovisual cada vez mais acelerado, a presença de Ronald chama atenção justamente pela delicadeza. Ele sabe disso. Quando questionado sobre o momento em que percebeu que queria seguir definitivamente na profissão, não menciona estreia, fama ou reconhecimento. Fala sobre exaustão e sobre permanecer apaixonado mesmo nos dias difíceis. "Quando você percebe que ama o processo mais do que qualquer dificuldade da rotina, entende que escolheu o caminho certo", conclui.
A frase poderia soar ensaiada em outro ator. Nele, soa verdadeira. Talvez porque Ronald Sotto ainda carregue algo raro para um protagonista em ascensão: a impressão de que continua em construção. Como se estivesse menos preocupado em ocupar um lugar definitivo na televisão e mais interessado em experimentar caminhos diferentes sem perder a própria identidade artística.
O jovem ator busca a versatilidade. "O que me move é o desafio de não me repetir. Ter tido a oportunidade de passar pelo suspense, pelo drama jovem, pela ação e agora pelo romance de época me dá a sensação de estar construindo uma carreira diversa. Não quero ser rotulado, mas que as pessoas olhem para a tela e vejam o Tonho, o Carlinhos ou qualquer outro, e esqueçam o Ronald por alguns instantes", finaliza.

Diversão e Arte
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