
Ainda não se falava em soft power quando o escritor André Malraux, então ministro dos Assuntos Culturais da França, desembarcou em Brasília, em 1959. Mas era precisamente a estratégia do autor de A condição humana: por meio de uma aproximação cultural, estabelecer laços políticos duradouros com o Brasil. Foi nessa ocasião que colou em Brasília a definição de "capital da esperança". Malraux era conhecido pelos discursos dramáticos e líricos, pontuados por uma repetição proposital e propenso à construção de imagens grandiosas. Foi assim que Brasília entrou para a história das relações diplomáticas entre França e Brasil e é sobre isso que o escritor Jean-Claude Perrier vai falar em conferência marcada para esta quarta-feira (3/6), às 10h, no Auditório Roberto Salmeron, na Faculdade de Tecnologia da Universidade de Brasília (UnB). A palestra faz parte da série de homenagens que marcam os 50 anos da morte de Malraux.
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Autor de André Malraux e a rainha de Sabá, Perrier é jornalista especialista em Índia e Oriente, além de escrever livros sobre aspectos desconhecidos de grandes personalidades da literatura francesa. Em Brasília, cidade que não conhece, ele quer falar especialmente sobre o papel de embaixador que Malraux desempenhou junto ao general Charles de Gaulle, que governou a França de 1958 a 1969. "Malraux foi uma espécie de embaixador plenipotenciário e enviado extraordinário", avisa Perrier. "De maneira muito habilidosa, De Gaulle percebeu que, utilizando a fama internacional e mundial de Malraux, poderia fazer avançar uma série de relações diplomáticas e questões políticas. E isso se mistura bastante, porque as intervenções de Malraux eram, ao mesmo tempo, culturais, mas também geopolíticas."
Malraux veio ao Brasil no contexto de uma viagem pela América Latina de diplomacia pública. "Ele vinha explicar aos países latino-americanos a estratégia do general De Gaulle em relação à Guerra da Argélia e ao afastamento da França do colonialismo, processo que estava em andamento em 1959", conta Perrier. A guerra de libertação da Argélia, então colônia da França, começou em 1954 e deixou mais de 275 mil mortos, sendo que a maioria era de combatentes e civis argelinos. A paz seria assinada em 1962, após negociações turbulentas ameaçadas por atentados sangrentos e muitas denúncias de tortura dos dois lados.
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Portanto, quando Malraux desembarcou no Brasil, a guerra ainda estava em curso no norte da África e uma das missões do escritor era investir numa diplomacia com viés cultural para estabelecer relações diplomáticas frutíferas em meio a um momento de crise para a França. Como estratégia, Malraux carregava na manga uma abordagem cultural que, mais tarde, ficou conhecida nas relações internacionais como soft power. "Eu explicarei como, para Malraux, esse engajamento político fazia sentido, embora tenha sido muito mal compreendido na França. Como o engajamento ao lado do general De Gaulle era uma continuação lógica dos diversos compromissos políticos que ele assumiu desde os anos 1920. Ele participou de várias lutas anticolonialistas, antifascistas, da guerra, da Resistência e etc", explica Perrier, que conversou com o Correio sobre a famosa visita de Malraux ao Brasil.
Entrevista//Jean-Claude Perrier
É correto dizer que Malraux inventou o soft power?
De certa forma, sim. Um não teria existido sem o outro. Para ele, apoiar De Gaulle era uma continuidade, uma passagem à ação, uma forma de reconstruir uma França profundamente abalada pela guerra. E, por outro lado, De Gaulle, fascinado por Malraux, fascinado pela literatura, era um homem extremamente inteligente e habilidoso. Rapidamente compreendeu como poderia utilizar — no sentido mais nobre possível — Malraux, sua inteligência, sua fulguração, seu lado profético e sua aura internacional a serviço da política francesa e da França.
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E qual o impacto da vinda de Malraux ao Brasil?
Em 1959, Malraux vem ao Brasil como enviado especial do general De Gaulle. Ou seja, além de seu papel de ministro da Cultura, ele vem fazer uma intervenção geopolítica, digamos, de diplomacia cultural. A inauguração de Brasília foi o detonador, o gatilho — não ouso dizer “pretexto”, porque pareceria algo secundário, e evidentemente isso fascinava Malraux. Ele era apaixonado por arquitetura, pelo que estava sendo construído, por uma espécie de nova arte. Isso se integrava à sua reflexão. Mas sua missão em si não era cultural: era diplomática. Ele vinha explicar aos brasileiros, argentinos, uruguaios, acredito, a política de De Gaulle em relação à Argélia e a posição da França diante de seus últimos bastiões coloniais. É nesse contexto que tudo isso se encaixa.
Malraux disse que Brasília era a “capital da esperança”. O senhor acha que ainda é possível pensar a cidade dessa forma hoje?
Ainda não conheço Brasília, mas é preciso se recolocar no contexto dos anos 1950. Era o nascimento dos países que se chamavam então “não alinhados”, como a Índia, da qual Malraux era muito próximo. Acho que vir ao Brasil e saudar a construção de uma nova capital era de fato uma mensagem de esperança. E o discurso dele — muito belo e importante, do qual falaremos um pouco na conferência — termina justamente com essa ideia da “capital da esperança”. Além disso, a ideia de construir interessava muito a ele. E também havia o aspecto artístico e arquitetônico, que o fascinava. Como discípulo de Le Corbusier, isso o interessava enormemente. Ele esteve em Chandigarh. Tudo isso era coerente. Era um dos raros escritores que tinham uma visão global do mundo.
As ideias de Malraux envelheceram bem? Como olhar para o pensamento dele hoje?
Depende do campo. No plano geopolítico, ele era um homem de seu tempo. Mas existe nele um lado profético. Quando, nos anos 1950, ele diz que a Índia será a grande potência do século 21, estamos vendo isso acontecer hoje. Quanto aos escritos sobre arte, ele foi o primeiro, nos anos 1940 e 1950, a afirmar que a imagem teria um papel fundamental e que a arte do mundo inteiro — de todas as civilizações e épocas — deveria ser difundida entre os jovens e nas escolas através de meios de reprodução. Era uma maneira profética de imaginar aquilo que chamou de “museu imaginário”, de democratizar a arte. Hoje, Malraux ficaria encantado em ver pessoas visitando museus do mundo inteiro por meio de tablets. As Casas da Cultura também eram algo extraordinário: colocar à disposição do povo, das províncias, dos bairros populares, o teatro, as exposições, a cultura. Era uma visão muito profética. Então, não acho de forma alguma que as ideias de Malraux tenham envelhecido. Quando deixou o cargo de ministro da Cultura, seus sucessores retomaram muitas das bases que ele construiu.
O que mais o fascina no pensamento de Malraux?
O que me fascina nele é, antes de tudo, um destino. O que esse homem realizou em 75 anos de vida é impressionante. O que me fascina é sua coragem. Ele sempre esteve onde precisava estar, no momento certo, com uma consciência e uma retidão excepcionais. Nunca hesitou diante das escolhas que se apresentaram. Ele representa o absoluto do escritor engajado. Um escritor anti-egoísta, que não permanecia em sua torre de marfim e acreditava que o intelectual tinha uma responsabilidade em relação ao mundo — inclusive com a ilusão, às vezes, de que o intelectual pode mudar o mundo, influenciar o destino do mundo através da política.
O senhor ainda identifica figuras como ele hoje? Ou ele pertence realmente a uma época específica?
Infelizmente, não. Mas a época mudou, tudo se diluiu. Ainda existem intelectuais que desempenham um papel importante nas reflexões políticas e até aconselham o poder. Mas Malraux fazia parte também de uma geração. A literatura francesa viveu um momento excepcional no século 20. Há o antes e o depois da guerra. Mesmo que ainda tenhamos grandes escritores, não existe mais o mesmo brilho que havia na época em que Malraux atuava. Hoje não temos figuras como Malraux, Albert Camus, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, André Gide. Mas o mundo mudou. A influência dos intelectuais se transformou e a literatura também se mundializou. Naquela época, o Ocidente dominava. Basta olhar os prêmios Nobel: eram majoritariamente escritores ocidentais. Hoje, felizmente, o mundo inteiro recebe Nobel. Tudo se globalizou, emergiu, se ampliou — e isso é muito positivo.

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