
O impacto provocado pela pandemia de covid conduziu Dado Villa-Lobos, na verdade, a um porto seguro. Naquele período, o guitarrista da Legião Urbana encontrou amparo na família, em meio ao colapso social. Ternura e caos habitam o que você quiser (sim, em minúsculas), disco lançado na última semana, como resultado desse processo. "Foi um renascimento", descreve o músico.
No quarto álbum solo, o pós-punk deu lugar a um rock sereno, e o jovem de 19 anos, que esteve no epicentro da transformação musical dos anos 1980, agora é avô. As ambições ao lançar um disco são outras. Acabaram-se os tempos de arenas lotadas. O que se mantém, segundo Dado, é a euforia do estúdio, lugar da criação coletiva, por excelência.
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Da Legião, reaparecem aprendizados de como nascem as canções. "Renato era um cara hiper generoso no sentido de que todo mundo tinha que estar junto na hora de compor. Mantenho isso com a banda que me acompanha até hoje", afirma Dado, que, ao Correio, comenta aspectos do novo álbum, da cena musical, do contexto social brasileiro e da relação com Brasília.
Entrevista// Dado Villa-Lobos
Se fizermos o recorte dos seus últimos três discos (O passo do colapso, Exit e o que você quiser) parece que há uma transição para um refúgio.
Isso vem em função do momento em que esse disco foi feito. A gente teve um confinamento em 2020, 2021 também. Eu fiquei no Rio de Janeiro; depois, quando liberou, fui para Lisboa, onde tenho família, e lá fiquei preso por 10 meses, sem avião para voltar. É engraçado que você encontra a palavra exílio no novo disco algumas vezes e que, na verdade, o exílio pode ser um abrigo também, um reencontro com família, que foi interessante.
Alguns familiares, inclusive, têm participações determinantes no disco.
A Fernanda, minha parceira há 40 anos, que é quem comanda, bota as coisas no trilho, virou e falou assim: "Cara, esse seu disco está muito muito denso e muito soturno. Vamos fazer umas músicas mais para cima". E tem a Aurora, minha primeira neta, que é uma artista já incontestável. Ela fez uma música, eu fui lá harmonizei e gravei, sobre o Instituto Vida Livre, que é um instituto aqui do lado do estúdio, em que eles recebem animais silvestres machucados. E, aí, é isso, esse encontro com a família, com bebês, meus netos, deu esse frescor novo, um renascimento na minha vida.
Como define esse trabalho?
É uma crônica desses dias conturbados que a gente passou. Desde o começo do lance, você tem a convivência com a loucura que foi o governo daquele cara falando aquelas coisas todo dia na televisão, as pessoas anticiência e tal. Acho que está um pouquinho disso tudo ali, um pouquinho também de como a gente passa por isso, sendo resiliente, estudando, lendo.
A faixa de abertura, Endurance (resistência, em inglês), vai nessa direção. Depois vem uma série de canções serenas.
O disco estava um tanto quanto sombrio, denso demais. E aí depois foram vindo canções mais solares. Então tem essa dualidade de uma densidade, de uma leveza. E que ficou interessante essa coisa de ter um lado A e um lado B. Meio diverso nesse sentido. Mas foi esse o processo de imersão.
Qual foi o tempo de trabalho no estúdio?
Em um mês, a gente finalizou tudo. Porque é o seguinte. Às vezes, é complicado você largar a sua demo tão querida para virar uma coisa mais profissional, digamos assim. Depois dessas demos mais formatadas, eu cheguei a um momento em que eu não tinha mais para onde ir. Gravei as vozes, aí depois o Estevão mixou. Hoje, eu acho que não tem mais aquela correria. Vamos lançar quando tiver que lançar, no momento adequado.
E o que o espaço do estúdio representa?
O estúdio para mim é tudo. É onde as coisas acontecem, onde a criação acontece, onde você tem os instrumentos, as ideias fluindo num fluxo natural. Fui criado assim. Com a Legião Urbana, quando a gente começou a fazer música, primeiro vinham os temas e só depois as letras, que o Renato colocava em cima. Mas a gente lidava primeiro com uma estrutura musical que tinha um lado de emoção X ou Y. Então, essas sensações vão ditando o caminho da construção do álbum.
Seus anseios criativos sempre foram atendidos na Legião?
O que acontecia na Legião é que o Renato era um cara hipergeneroso, no sentido de que éramos uma banda e que aquilo era um coletivo e todo mundo vai ter que estar junto na hora de fazer uma música. Então, isso foi essencial para essa banda, eu acho, ter chegado aonde chegou. Era sempre uma uma troca que vinha e que acabava finalmente numa canção. Foi um grande aprendizado, de fato, de um modus operandi de como a música surge. E eu mantenho isso até hoje.
Você é da linhagem de guitarristas que assumiram vocais. O que isso exigiu de você?
Anos de terapia (risos). Hoje em dia é isso, cara. Sobe ali e vai entreter as pessoas, cantar e não tem jeito. Como o Renato fez, não é? Ele tocava baixo e teclado e acabou ficando sozinho cantando. Essa transição é interessante. Você descobrir a sua identidade enquanto intérprete. Isso foi vindo aos poucos. O John Lennon odiava a voz dele. Você acaba se acostumando e percebendo até onde pode ir, como tem que fazer. Às vezes, me dá vontade realmente de não querer tocar e só cantar, mas não tem como. Eu sou guitarrista.
Como você enxerga Brasília hoje, a partir de um olhar externo?
Cheguei a primeira vez em Brasília em 1971, a cidade tinha 11 anos. E, depois, eu saio em 1974 e volto em 1979. Ali você estava, cara, nesse lugar onde eu tive esses encontros mágicos com essas bandas. Aborto Elétrico, Blitz, tal, os caras fazendo rock punk, pós-punk. Quando a gente viu, a galera botou Brasília no mapa cultural. Minha relação com Brasília é justamente essa. Onde eu cresci, onde tudo aconteceu para mim. Então, as pessoas me perguntam: "De onde você vem?". Eu nasci em Bruxelas, moro no Rio há 40 anos, mas sempre falo: "Eu vim de Brasília". Eu continuo achando que Brasília tem um lado mágico.
Você é de uma juventude que lutou pelas Diretas Já. Não acha que a alienação cresceu?
A gente viveu justamente essa transição da ditadura para a que seria uma redemocratização. Eu acho que fomos alienados e abduzidos por algoritmos, os quais você alimenta. A realidade foi parar em outro plano. Eu não sei. Não sei qual é. Outro dia numa manifestação de direita lá em São Paulo estava tocando Blow in the Wind, sabe? Do Bob Dylan. E, aí, tocou Que país é esse também. Uma música de 1978. Pelo amor de Deus! Como é que esses sinais trocaram assim tão rápido? Não sei. Essa apropriação é uma loucura.
Qual é o propósito de colocar um disco no mundo hoje?
Acho que mudou a forma de lançar. Esse ano, eu pensei… Tem uma banda que eu gosto muito, uma banda francesa, também com formação clássica, chamada Feu! Chatterton. Eles lançaram o disco novo num sistema de countdown, então você dá a primeira música e depois um mês você dá a outra, para você chamar a atenção. E foi o que eu fiz. É preciso perceber que o mundo está no digital.
Até onde pretende levar esse novo disco?
O negócio de fazer rock para ficar enchendo arena, rock arena, isso aí não dá mais, não existe, eu acho. A ideia de excursionar em teatros seria ótima, as possibilidades de poder se apresentar em lugares menores, de 500 lugares, sei lá. No que for. Passar por São Paulo, Rio, Minas, chegar em Brasília. Fabuloso.

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