
Em Coração acelerado, novela das 19h da TV Globo, Irene começou como cozinheira e governanta da casa da vilã Zilá (Leandra Leal) e foi ganhando camadas — até protagonizar um dos romances mais delicados e elogiados da trama: o amor contido, silencioso e maduro com Walmir, vivido por Antônio Calloni. A personagem, entretanto, tem uma função maior: apresentar ao Brasil a potência da atriz goiana Fernanda Pimenta.
A receptividade do público tem sido imediata. Nas redes sociais, espectadores destacam a sensibilidade da atriz e a verdade que ela imprime à personagem. Para a atriz, o sucesso do casal está justamente nessa humanidade escancarada: "Permite que os espectadores se conectem emocionalmente, reconhecendo a beleza nas nuances e na complexidade do amor."
"O romance entre Irene e Walmir ressoa com o público por sua autenticidade e profundidade", conta Fernanda. "São pessoas frágeis e colocadas de lado pela comunidade, privados de serem bem-sucedidos. O relacionamento maduro, repleto de silêncios e afetos contidos, representa uma forma de amor muitas vezes negligenciada na mídia: o amor entre imperfeitos."
Mas Fernanda Pimenta não é uma estreante. Há mais de duas décadas, ela constrói uma carreira sólida fora do eixo Rio–São Paulo, tendo Goiás como território criativo e político. Sua base é o teatro — e, de forma especial, a palhaçaria.
"O teatro é a base de toda a minha atuação. Foi nele que experimentei, reconheci e desenvolvi minhas habilidades físico-corpórea-intelectual-afetivo-poéticas", afirma. "A palhaçaria me ensina a brincar de ser outra, que eu não preciso me levar tão a sério, que eu posso errar. Ela me indica o quão errante eu sou — e, por isso, fico livre pra brincar."
Essa liberdade, segundo ela, atravessa até personagens não cômicos. Em Irene, a influência aparece nos trejeitos, nos silêncios que viram afeto e na forma como o corpo ocupa a cozinha, a sala, o amor. "A palhaçaria me ajuda a me aceitar como sou e a dar humanidade a minhas personagens", explica.
Goiás como centro
Um dos aspectos mais potentes da trajetória de Fernanda é a decisão de manter Goiás como base, mesmo diante da visibilidade nacional que uma novela das 19h proporciona. "Manter Goiás como território criativo significa valorizar minhas raízes e contribuir para a produção artística local", explica. "Costumo trabalhar com projetos autorais que me permitem criar, circular e realizar temporadas. Os próprios editais nos permitem levar a arte criada em Goiás para outras cidades brasileiras e até internacionais."
Ela vai além: "Hoje, considero Goiânia um grande centro, uma cidade com arte e cultura pulsantes, que nada perde, em termos de qualidade de produção, para outros capitais brasileiras". Para a atriz, é possível ter uma carreira nacional sem se mudar definitivamente para o Sul ou Sudeste, usando "a interação e o escambo cultural para se conectar com o mundo".
A cena teatral goiana, segundo ela, ofereceu algo que os grandes centros muitas vezes dificultam: liberdade. "Devido ao número excessivo de artistas e políticas públicas que não conseguem contemplar todos proporcionalmente, Goiás me dá espaço de experimentação. Consigo levar espetáculos e oficinas a lugares que o próprio Estado não consegue alcançar", destaca.
Fernanda carrega com orgulho seus traços regionais para cada personagem. Em Irene, a goianidade aparece no sotaque, no jeito de cozinhar e na sensibilidade. "Para criar personagens, recorro aos aprendizados que forem necessários. Com Irene, pude abusar de meus trejeitos regionais, sempre buscando autenticidade e uma sensibilidade que reflete suas experiências e a cultura local", argumenta.
Quando perguntada o que levaria de Irene para a vida real, a atriz responde com bom humor: "Sua mão boa para cozinhar comidas difíceis, como galinhada, pamonha, feijão tropeiro e empadão goiano". E o que deixaria com a personagem? "As humilhações que por muito tempo ela teve de suportar sendo empregada de Zilá. Classe trabalhadora passa por maus bocados", frisa.
Elogios, exposição e planos
A visibilidade de uma novela das 19h na Globo é, nas palavras da própria Fernanda, “um salto na carreira”. Ela lida com isso com gratidão e foco: “Os elogios são uma validação do trabalho árduo, mas procuro me manter centrada, lembrando que a essência da minha arte está em contar histórias que tocam as pessoas”.
Ela já pensa no pós-novela. Em julho, fará duas apresentações teatrais no Rio. E os planos incluem cinema. “Gostaria de explorar mais minha atuação no cinema, num longa com roteiro necessário, inteligente e popular”, adianta. Mas sem abandonar a palhaçagem e o teatro: “Amo circular com meus espetáculos e busco voos internacionais com meus dois solos. Confesso que gostei de praticar essa linguagem nova da novela — está sendo divertido e me faz crescer como artista e pensadora da arte”.
Aos jovens atores e atrizes que sonham com visibilidade e trabalho na tevê, Fernanda deixa um recado direto: “Busquem o conhecimento e as experiências práticas. Estudem e vivenciem muitas técnicas. Aprendam a brincar e a criar. Abram suas raízes, sem abandonar a universalidade de sermos humanos. Vão até outros lugares, conheçam outras culturas. Façam muitos cursos. Invistam no desenvolvimento artístico. Não dependam de ofertas alheias — façam sua arte. Busquem seu jeito, sua autonomia”.

Diversão e Arte
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