
Em uma televisão historicamente construída sobre mocinhas, heroínas românticas e protagonistas idealizadas, Agatha Moreira encontrou seu espaço justamente na contramão. Aos 34 anos, a atriz, que está no ar em Quem ama cuida, vive um momento raro na carreira: é lembrada, sobretudo, pelas personagens que desafiam expectativas. "Gosto quando a personagem não cabe em uma definição simples", defende a intérprete da designer de joias Ingrid Brandão.
Pela quinta vez, Agatha trabalha com Walcyr Carrasco, um autor que conhece profundamente suas potencialidades dramáticas. A relação profissional vem sendo construída desde Verdades secretas, obra que mudou definitivamente os rumos de sua trajetória, em 2015. "Quando você trabalha várias vezes com a mesma pessoa, cria uma linguagem em comum", argumenta a atriz, que viveu a mesma personagem em 2021, e também a Graça, em Terra e paixão, em 2023.
Após viver a vilã Josiane, de A dona do pedaço, em 2019 (mais uma parceria de sucesso com Carrasco) e uma das protagonistas de Mania de você (2024), ela atualmente vive uma personagem secundária. Em um mercado frequentemente obcecado por hierarquias de elenco, Agatha demonstra enxergar a carreira por outra perspectiva: nunca tomou suas decisões baseada no tamanho da personagem dentro da história. "Todas são grandiosas! E o que me interessa é o que ela tem para contar", argumenta a capricorniana, que estreou na televisão como a Ju, de Malhação, em 2012, e não parou mais.
Entrevista | Agatha Moreira
Você está no ar em Quem ama cuida, às 21h, na sua quinta parceria com o Walcyr Carrasco. O que muda na sua preparação quando você já conhece o processo criativo do autor, e ele já conhece a sua forma de atuar?
Existe uma confiança muito grande. Quando você trabalha várias vezes com a mesma pessoa, cria uma linguagem em comum. Eu conheço o universo do Walcyr, sei o quanto ele gosta de personagens complexos, cheios de contradições, e acho que ele também já conhece minhas ferramentas como atriz. Mas isso não significa conforto. Pelo contrário. Cada personagem traz desafios novos. O que muda é que existe uma segurança maior para se arriscar, porque a relação já foi construída ao longo dos anos.
Antes disso você foi protagonista de Mania de você. Como foi sair de um papel central para entrar num folhetim das 21h com uma personagem que não segue a fórmula da mocinha tradicional?
Eu nunca tomei minhas decisões baseada no tamanho da personagem dentro da história. Todas são grandiosas! E o que me interessa é o que ela tem para contar. É muito comum que uma personagem fora do núcleo central consiga provocar discussões muito interessantes. A Ingrid me chamou atenção justamente porque foge de lugares previsíveis. Ela tem qualidades, defeitos, conflitos — e isso é muito rico para quem interpreta.
A sequência de personagens que fogem do padrão de mocinha virou quase uma assinatura sua. Isso foi uma escolha consciente ou o mercado foi te jogando para esse lugar?
Acho que foi um encontro das duas coisas. Sempre me senti atraída por personagens que desafiam expectativas. Gosto quando a personagem não cabe em uma definição simples. Ao mesmo tempo, os autores e diretores passaram a me enxergar nesse lugar também. E fico feliz, porque são personagens que me permitem explorar muitas nuances e sair do óbvio.
Em Verdades secretas e A dona do pedaço você viveu vilãs que marcaram o público. O que te atrai em construir personagens com camadas mais sombrias e ambíguas?
Ninguém é uma coisa só. As pessoas são contraditórias. Quando uma personagem tem luz e sombra, ela fica mais próxima da vida real. Eu gosto de entender o que existe por trás das atitudes dela, mesmo quando são atitudes difíceis de defender. Acho que esse exercício de buscar humanidade é uma das partes mais interessantes da profissão.
Muita gente te vê como um dos grandes nomes da nova geração. Como você lida com essa expectativa sem deixar de arriscar em papéis que podem dividir opinião?
Recebo esse reconhecimento com muito carinho, mas tento não pensar nisso quando escolho um trabalho. Se você começa a tomar decisões baseado apenas na expectativa dos outros, acaba se limitando. Eu gosto de personagens que me tiram da zona de conforto. Nem sempre eles vão agradar todo mundo, e está tudo bem. A arte também existe para provocar diferentes reações.
Relembrando Verdades secretas: a série te colocou em uma zona de desconforto tanto dramatúrgico quanto de público. O que esse trabalho mudou na sua relação com a profissão?
Mudou muita coisa. Foi um trabalho que me fez perceber que eu era capaz de ir mais longe do que imaginava como atriz. Também me ensinou que crescer profissionalmente passa por enfrentar desconfortos. Muitas vezes são justamente os trabalhos que mais desafiam a gente que acabam transformando nossa trajetória. Acho que foi uma ruptura importante para o público na imagem mais jovial, uma vez que eu vinha de personagens com outras temáticas.
Em A dona do pedaço, a sua vilã tinha humor, veneno e carisma. Como você encontra o tom para não cair na caricatura e manter a vilã humana?
Tentando não julgá-la. Eu nunca interpreto uma personagem pensando que ela é a vilã da história. Tento entender quais são as razões dela. Quando você encontra as motivações e as fragilidades daquela pessoa, ela se torna mais possível e crível. E é isso que impede que vire uma caricatura.
De protagonista em Mania de você para um papel mais periférico. Como você decide o que quer explorar no próximo personagem para não se repetir?
Eu procuro justamente aquilo que ainda não explorei. Às vezes, é uma característica emocional; às vezes, um contexto social; às vezes, é a forma como aquela personagem se relaciona com o mundo. O mais importante é sentir que existe alguma descoberta possível ali. Quando isso acontece, o "tamanho do papel" deixa de ser o fator principal, afinal, para mim, não tem personagem pequeno.
O Walcyr já disse em entrevistas que escreve pensando em atores específicos. Como é receber um personagem dele sabendo que ele te conhece como atriz há anos?
É uma honra enorme. Saber que um autor desse tamanho pensa em você durante o processo de criação é muito especial. Ao mesmo tempo, gera uma responsabilidade boa. Dá vontade de corresponder à confiança que ele deposita no seu trabalho e entregar o melhor resultado possível.
Você começou cedo na tevê. Olhando para trás, qual momento da carreira você sente que foi o ponto de virada para ser vista de forma diferente pelo público e pela direção?
Acho que Verdades secretas foi um divisor de águas. Foi o trabalho que ampliou muito a forma como as pessoas me enxergavam e também abriu novas possibilidades dentro da profissão. Mas gosto de pensar que cada personagem foi construindo um pedaço desse caminho. Nenhuma virada acontece sozinha.
Hoje a atriz também é marca. Como você escolhe os projetos e as parcerias comerciais para que façam sentido com a imagem que você constrói na ficção?
Eu procuro coerência. É importante que exista identificação real com aquilo que estou comunicando. As pessoas percebem quando existe verdade e quando não existe. Então tento escolher projetos que conversem com meus valores e com a forma como eu enxergo minha carreira.
Personagens que fogem do padrão costumam gerar mais debate nas redes. Como você lida com a reação imediata do público quando o personagem faz algo polêmico?
Cada vez mais venho conseguindo separar melhor a personagem de mim. No começo da carreira isso era menos natural. Acho muito interessante acompanhar as discussões que surgem. Faz parte da experiência da novela. Mas tento não deixar que a reação imediata interfira no meu processo de construção.
Qual tipo de papel você ainda morre de vontade de fazer e nunca teve oportunidade?
Tenho muita vontade de fazer mais personagens inspiradas em figuras reais, como a Domitila, em Novo Mundo (2017). Acho fascinante mergulhar na trajetória de alguém que existiu, entender seus gestos, sua história, suas contradições. Também gosto muito de projetos de época. São universos que exigem uma preparação diferente e oferecem possibilidades muito ricas para o ator.
Você e Rodrigo Simas (com quem está junto desde 2018) formam um casal que também funciona comercialmente, os dois no ar em horários diferentes. Como é equilibrar a vida pessoal com a exposição de estarem sempre em novela ao mesmo tempo?
Acho que o segredo é lembrar que a nossa relação acontece longe das câmeras. O trabalho é uma parte importante das nossas vidas, mas não é tudo. Existe muito carinho do público pela nossa história, e isso é bonito. Mas a gente preserva bastante o que é nosso. Essa separação ajuda a manter o equilíbrio.

Diversão e Arte
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