
A trajetória de Rosanna Viegas é indissociável da paixão visceral pelo ofício da atuação. Mestra e bacharel em artes cênicas pela Universidade de Brasília (UnB), a atriz brasiliense está de volta às novelas em Quem ama cuida, em que interpreta uma presidiária disposta a desestabilizar a protagonista vivida por Leticia Colin.
Para dar vida à nova personagem, Rosanna mergulhou em uma profunda pesquisa documental e ficcional. "Fiquei caçando reportagens e especiais de presidiárias em um canal no YouTube, podcasts criminais, buscando me familiarizar com a precariedade do cotidiano delas, suas histórias", revela. A série espanhola Vis a Vis também serviu como referência para compreender a constante tensão do convívio carcerário.
A atriz carrega na bagagem prêmios importantes, a co-criação do icônico espetáculo Adubo ou A sutil arte de escoar pelo ralo e uma assinatura marcante no cinema do Distrito Federal. Rosanna aponta a necessidade de calibrar a energia ao transitar entre os veículos. Enquanto a presença teatral exige que o ator se "dilate e se derrame", a televisão pede uma energia condensada. É aí que a sólida base acadêmica na UnB se manifesta como um alicerce prático. "A formação me traz estofo, repertório e a maleabilidade do que chamamos de ser 'atleta afetivo'. Dá a facilidade de acessar e ter consciência das camadas internas mais profundas da personagem", relata.
Falar da identidade artística de Rosanna é falar de Hugo Rodas, diretor e mestre que revolucionou o teatro brasiliense. Da convivência com ele, a atriz herdou a inquietude e o compromisso inegociável com a arte. "Hugo me ensinou a sempre buscar fazer o meu melhor, a não me acomodar. Era muito exigente", argumenta. "Os companheiros de trabalho viravam sua família. Isso para ele era viver. É divino e diabólico ao mesmo tempo".
Necessidade vital
Essa necessidade vital de produzir é o que move Rosanna, embora ela reconheça os perigos de se viver da arte no Brasil. "Pareço com ele no sentido de que preciso estar trabalhando para me sentir viva. Mas isso também é perigoso porque somos um pouco 'Dom Quixotes' em um país que não valoriza os artistas", compara. A atriz expõe com honestidade a frustração financeira e a falta de garantias trabalhistas que assombram a categoria: "Colocar acima de tudo um trabalho que não tem férias, feriado, 13º, plano de saúde, aposentadoria... nenhuma garantia de estar trabalhando no próximo mês é apavorante".
Se a escassez de recursos é um obstáculo, no Distrito Federal ela se transforma em combustível para a ousadia estética. Veterana de longas candangos como Cru, A concepção, A repartição do tempo e O último Cine Drive-in, Rosanna enxerga um amadurecimento constante na produção local.
Para ela, a principal diferença em relação ao eixo Rio-São Paulo é puramente orçamentária, o que acaba forçando as equipes a serem mais criativas. "Eu gosto quando somos mais ousados e disruptivos. E essa cidade tem atores maravilhosos! As distribuidoras precisam acreditar mais em nós", defende.
O mercado local segue aquecido e gerando empregos por meio de políticas públicas de fomento. Recentemente, a atriz finalizou quatro longas-metragens ainda inéditos: A menor distância entre os dois pontos, Santa dica, Esquema 155 e, no último mês, Cerrado seco.
Coroação e combustível
Essa força criativa foi coroada recentemente com a premiação do curta-metragem Osmo no Festival Internacional de Curtas de Brasília, onde a produção levou a menção concedida pelo Correio Braziliense. Baseado em um conto polêmico de Hilda Hilst, o filme é defendido com unhas e dentes pela atriz. "É um filme que causa uma certa estranheza e é bonito também, o que dá autoria cinematográfica. É ousado, primoroso na arte, no cuidado com a fotografia", destaca. Para ela, o prêmio funciona como um combustível essencial: "Ajuda na carreira dos filmes, da equipe e cava melhores condições para os próximos".
Além de atuar, Rosanna também escreve. Pós-graduada em roteiro, ela utiliza esse conhecimento técnico para enriquecer seu trabalho interpretativo e dialogar de igual para igual com as direções. "Foi fundamental para entender a estrutura, quando acontecem as viradas da história, os plots, os objetivos de cada cena. Ter essa clareza me torna uma atriz mais consciente e colaborativa." Essa veia autoral vem desde os tempos de Adubo — espetáculo de dramaturgia coletiva que contou com textos de sua autoria — e se mantém viva hoje nas peças de seu grupo, a Agrupação Teatral Amacaca (ATA).
Mesmo com passagens por grandes sucessos da Rede Globo como as novelas Ti Ti Ti e Sangue bom, e a densa série Supermax, o retorno ao formato diário em Quem ama cuida trouxe aquele frio na barriga característico de quem respeita a profissão. "É uma engrenagem primorosa, difícil de fazer, adrenalizante. Confesso que fiquei bem ansiosa porque sabia que existe uma sagacidade, um ritmo diferente de quem está fazendo muita novela", pondera. O sentimento, porém, é de profunda gratidão. "Eu estava com muita saudade da televisão. Adoro o desafio", conclui.
"É preciso coragem"

Diversão e Arte
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