Música

Guerra Civil espanhola inspira ópera em cartaz no Teatro Nacional

Estreia, amanhã, na Sala Martins Pena do Teatro Nacional Claudio Santoro a ópera Por quem os sinos dobram, em montagem da International Brazilian Opera Company

A Orquestra Filarmôrnica de Brasília participa da montagem de Por quem os sinos dobram -  (crédito: Bruno Cavalcanti)
A Orquestra Filarmôrnica de Brasília participa da montagem de Por quem os sinos dobram - (crédito: Bruno Cavalcanti)

Por quem os sinos dobram, obra original do escritor americano Ernest Hemingway e, neste ano, montada em formato de ópera pela International Brazilian Opera Company (Iboc), narra três dias da vida de Robert Jordan, um professor universitário americano e integrante das Brigadas Internacionais que vai à Espanha lutar na Guerra Civil ao lado do governo democrático. 

Chegando lá, Jordan recebe a missão de dinamitar uma ponte para impedir o avanço dos fascistas, mas, durante a empreitada, também sofre ataques dos inimigos. Com ele, nesta história que mistura amor e busca pela liberdade, está um grupo de guerrilheiros formado por Pablo, Maria e Pilar. "É como se fossem 72 anos, mas são 72 horas", brinca Eliana Carneiro, diretora de palco da ópera. 

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Com música de Brian Wilbur Grundstrom e libreto do americano David M. Dorsen, desenvolvimento artístico de João MacDowell e apresentada pela International Brazilian Opera Company (Iboc) em colaboração com a Orquestra Filarmônica de Brasília (OFB), a ópera Por quem os sinos dobram estreia neste domingo e segue em cartaz até 28 de junho no Teatro Nacional Cláudio Santoro. Os ingressos custam a partir de R$20 e estão à venda no site Sympla. 

Para Eliana, uma das principais qualidades de Por quem os sinos dobram, lançada originalmente em 1940, é a universalidade da narrativa. "Todas as grandes histórias são universais. Eu adoro, por exemplo, o cinema iraniano e a gente sabe pouquíssimo sobre aquela cultura, mas tem algumas histórias que são contadas com uma simplicidade, são tão arquetípicas, tão estruturantes e essenciais que elas parecem que foram feitas ali no bairro vizinho", diz.

A guerra e a luta contra o fascismo presentes no texto, para a diretora, mostram-se tão atuais quanto foram na época. "Quando falamos de questões humanas controversas, principalmente da guerra, veja bem, nós estamos com várias guerras em curso e o fascismo tem tentáculos por meio da história gigantes", afirma. "Eu acho que é fundamental podermos ouvir, ver, sentir e se identificar com histórias que atravessam os tempos e as culturas e que nos falam de uma forma mais profunda."

Eliana é também fundadora da Cia Os Buriti, que, em 2026, completou 30 anos de atividade. "Sempre trouxe essa linguagem de muito movimento e fisicalidade nos meus trabalhos", diz. Em Por quem os sinos dobram não será diferente: quatro dançarinos são responsáveis por trazer o que, para ela, é "a alma dos personagens em movimento", enquanto sete cantores, que se revezam nos papéis, adicionam o lirismo à obra. 

Esses elementos se juntam à orquestra. "Então, são pequenas peças de um quebra-cabeça que vão se juntando, as coisas vão saindo do papel das ideias para chegar na realidade, que é oferecer ao público uma coisa que emocione, que alimente a alma, que te faça refletir sobre a sua vida, existência e relações", define Eliana. "É uma história trágica, então são exemplos para nós de coisas que podem nos alimentar, nortear e ajudar a viver a vida, que é complexa e difícil para todo mundo." 

Diferentes origens

Eliana destaca que os quatro dançarinos — e não bailarinos — de Por quem os sinos dobram, elenco formado por dois homens e duas mulheres, não tem a origem tradicional do balé: Tainá Baldez, por exemplo, é formada em artes cênicas pela Universidade de Brasília (UnB), mas veio da dança, com experiências no jazz, sapateado e dança contemporânea. Thayse Marques, hoje estudante de licenciatura em dança, passou pelo balé clássico, mas a maior parte da trajetória artística foi feita na dança contemporânea.

O maior papel da dança durante o espetáculo, dizem, é amplificar o sentimento dos personagens. "Estamos dentro do contexto de cada cena. Por exemplo, a protagonista Maria está sofrendo, nós sofremos, ampliamos esse sentimento; ele está guerreando, a gente vai para a guerra junto; estão com medo, a gente amplia esse medo", diz Tainá. "Eu brinco que nós estamos como Divertida mente, dentro dos personagens."

A dança aparece como forma de expressar o que, muitas vezes, é inexplicável. "Quando você pensa em um contexto de guerra, fica até difícil de explicar o que se sente nisso, não é? Então, acho que transmitir isso por meio do corpo é acessar muitos lugares que, às vezes, nem a gente nem entende", reflete Thayse. 

Os dançarinos, explica, também são responsáveis por auxiliar com o cenário e compor as cenas, seja com adereços cênicos ou representando o que os cantores sentem no espetáculo. "Tem uma cena que está rolando um romance, a gente cata isso no ar e traz para o corpo, como que a gente consegue estabelecer essa relação ali que está se desenrolando entre o Jordan e a Maria".

Para lidar com o roteiro de 90 páginas de Por quem os sinos dobram, as dançarinas precisaram passar pelo processo de adaptação dos figurinos, que chegam a pesar dois quilos. "Entendemos o peso do nosso corpo e como ele se altera no momento que colocamos a saia e vamos fazer um giro, já muda o centro de gravidade que temos ali, como lidar com isso", conta Thayse. "Uma hora nossas saias cumprem um papel de ataque, outra hora é poesia. Dançamos e, às vezes, é um véu de viúva sofrida. Os elementos nos ajudam a compor os personagens", diz Tainá. 

A brincadeira tem papel essencial na construção do espetáculo. "O jogo permite que a gente acesse todos esses lugares. Existe esse lugar da sedução, momentos de flerte uns com os outros em cena. Não no sentido sexual da palavra, mas de estar conectado e realmente junto no que está acontecendo", afirma Thayse. "Em uma cena de batalha, trabalhamos muito o contato improviso, que é um estilo que propõe a base e o toque", completa Tainá.

Ópera Nova

O libretista americano David M. Dorsen, hoje com 90 anos, começou a pensar na adaptação de Por quem os sinos dobram há 25 anos, mas encontrou dificuldades para adquirir os direitos autorais. Depois, em Washington, encontrou Brian Wilbur Grundstrom, o responsável pela música da ópera. 

A dupla ofereceu sugeriu que a Iboc, que busca promover o intercâmbio artístico entre artistas brasileiros e internacionais, desenvolvesse esse projeto. "Estamos trazendo eles para cá, para realizar a premiére mundial, que para ópera é uma coisa muito especial. É raro uma ópera receber", diz Athena Azevedo, diretora executiva da organização. 

Para Athena, a apresentação de Por quem os sinos dobram neste ano mostra o poder da arte de conversar com a atualidade: marcada para estrear em outro teatro de Brasília ano passado, os planos foram alterados por motivos fora do controle da equipe."É interessante o poder da arte. Quando você olha para a produção, cultura, não foi planejado que essa obra seria realizada neste momento histórico. Ela começou há 30 anos atrás, e hoje, 2026, temos guerras e este assunto de guerra civil está dentro da obra", reflete. 

Esse projeto, explica João MacDowell, diretor artístico da Iboc, faz parte do que chama de "ópera nova", com a intenção de lançar uma obra nova todos os anos. Brasiliense, passou pela época de "efervescência cultural" na capital, com o boom de bandas de rock, mas também com grande criação no teatro e, especialmente, com Claudio Santoro, que fundou a Orquestra Sinfônica de Brasília. "As pessoas me perguntaram 'como é que pode sair do rock, pop e acabar na ópera?' A MPB ainda é uma coisa que a gente entende, muita gente saiu do rock e foi para a MPB, mas ópera? E eu falava que a ópera é a forma de arte do futuro, onde a gente vai se encontrar", diz. 

*Estagiária sob a supervisão de Severino Francisco

Por quem os sinos dobram

Nos dias 20, 21, 25, 26, 27 e 28 de junho no Teatro Nacional Cláudio Santoro (Setor Cultural Norte). Ingressos: R$20 (meia), no Sympla.

 


  • Orquestra Filarmôrnica de Brasília
    Orquestra Filarmôrnica de Brasília Foto: Fernanda Coutinho
  • Eliana Carneiro faz a direção cênica do espetáculo
    Eliana Carneiro faz a direção cênica do espetáculo Foto: Thiago Sabino
  • João MacDowell é diretor da  International Brazilian Opera Company
    João MacDowell é diretor da International Brazilian Opera Company Foto: Diego Bresani
  • Athena Azevedo é diretora executiva da  International Brazilian Opera Company
    Athena Azevedo é diretora executiva da International Brazilian Opera Company Foto: Divulgação
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postado em 20/06/2026 04:47
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