Fincar os pés na própria engrenagem criativa não é fácil. Isso, sobretudo, porque boa parte das vezes, no caminho da arte, muitos demoram a entender seu papel no mundo. Aos 26 anos, Valentina Bulc (@valentinabulc) sempre teve certeza, mas há pouco tempo, mesmo, resolveu ter coragem. Natural de Brasília, mas criada em solo carioca, ela começou na atuação cedo, uma década atrás. Mas, para além das telinhas, foi na comunicação e no podcast Obra aberta que ela encontrou a paz necessária para continuar inventando.
Lançado de forma independente no final do ano passado, o programa focado em psicologia, filosofia e comportamento humano caiu no radar do Spotify, rendendo à criadora o título de Radar Creator e episódios que já alcançaram a marca de meio milhão de plays. Filha de atriz e enteada do diretor Sacha Celeste, Valentina cresceu cercada pela sétima arte. Embora a timidez na infância a fizesse questionar se aquele era o seu lugar, uma aula de teatro na adolescência mudou seu destino.
Logo aos 16, estreou na televisão em Malhação. Da estreia meteórica aos papéis subsequentes em produções da TV Globo e da Record — como O outro lado do paraíso, Jesus, Salve-se quem puder e a série Reis — a jovem construiu uma carreira sólida, mas que ganhou novos contornos quando ela decidiu cursar a faculdade de cinema. "Fazer universidade me mudou enquanto atriz. É uma arte coletiva, então eu queria entender o papel de cada um", explica Valentina.
"O ator é o artista que está na cara. Você vê uma série, uma novela, você pensa nos atores de primeira. E isso pode, às vezes, fazer a gente se achar muito mais importantes do que, de fato, somos. Então, entrar no curso foi essencial para entender como eu sou só uma peça nessa engrenagem. Isso tira um peso, tira uma certa cobrança e torna o trabalho muito mais gostoso”, completa a artista.
Se tivesse que escolher uma única linguagem para o resto da vida, a resposta da artista é categórica: o cinema. "Esse universo me pega muito. Existe essa coisa toda: o cinema é a arte do editor e o teatro é a arte do ator. Mas tem algo sobre eternizar ali". Mesmo assim, Valentina é enfática ao dizer o quanto o ramo da atuação não é fácil, e que viveu altos e baixos, especialmente na época da pandemia.
"Foi muito duro. Fazia teste, mas é uma profissão muito difícil. Fui obrigada, nesse período, a rever muitas coisas, me questionar de muita coisa. Então acho que isso me trouxe uma maturidade, uma certeza de que é isso que quero mesmo. Tentei não aguentar mais, mas eu continuei aguentando. É a profissão que mais me completa”, destaca.
Fazer sentido antes de fazer sucesso
Dessa necessidade de canalizar a veia artística e a paixão pelos estudos — Valentina chegou a cursar pós-graduação em psicanálise — nasceu o Obra aberta. Produzido de forma solitária por ela, o podcast se tornou um espaço de vulnerabilidade e conexão profunda com o público, longe das amarras da perfeição estética das redes sociais. E nesse relicário de repouso e paz que a atriz encontra espaço para partilhar com os milhares de seguidores um pouco do que arde no próprio peito
"Eu não vou esperar estar perfeito para lançar. Eu não vou esperar me sentir segura, porque eu nunca vou sentir", lembra Valentina sobre os bastidores do lançamento. Ela revela que, diante da forte competição no mercado de podcasts, precisou ressignificar o conceito de êxito. "Decidi que o sucesso seria tocar pessoas. Porque acredito que é aí que a arte e o podcast se conectam. Um dos vários motivos do porquê que sou atriz é para eu poder servir de meio. Para que eu seja o palco onde as pessoas possam projetar a vulnerabilidade, a dor, o orgulho delas”, ressalta.
O rigor com o conteúdo é uma marca registrada de seu processo criativo, que envolve desde anotações no querido diário, até leituras minuciosas em livros dos mais diferentes gêneros, além de checagem de fontes e teorias filosóficas. "Levo muito a sério o que falo. Nunca trago informações que não chequei se estão certas. Dá trabalho, mas dá muita satisfação. Devolveu-me esse lugar de estudar".
Assim, a passos nem tão curtos assim, Valentina enche os olhos de lágrimas ao recordar o quanto, em vários dias, queria porque queria arranjar um jeito de expressar o que sentia. E agora, não somente pode fazer isso, como também passa o tempo lendo o que tantos outros falam sobre as palavras que ela joga ao mundo. "Se o sucesso vier, ótimo. Mas se não vier, ele não vai me deixar sem chão, ele não vai me desestruturar. Porque o sucesso passa a ser outra coisa. É sobre tocar pessoas".
