Obituário

Autor da lenda da 'perna cabeluda', Raimundo Carrero morre aos 78 anos

No movimento armorial, Carrero seguia a ideia fundadora de Suassuna, que pregava a necessidade de se fazer uma arte erudita nordestina com raízes na cultura popular.

Autor de mais de 20 livros e nome emblemático da literatura pernambucana, o escritor Raimundo Carrero morreu na madrugada de ontem, aos 78 anos, em consequência de um câncer descoberto recentemente. Integrante do movimento armorial criado por Ariano Suassuna, Carrero também foi o criador da lenda urbana da perna cabeluda, citada em alguns momentos do filme O agente secreto

A história virou folclore em Recife durante a ditadura, quando jornalistas eram obrigados pela censura a suprimir certas matérias e substituí-las por histórias aleatórias. Carrero inventou a lenda da perna cabeluda, que também funcionava como uma metáfora da repressão militar. Jornalista e crítico literário do Diário de Pernambuco, o escritor foi também editor chefe do jornal, no qual trabalhou por mais de 25 anos. No movimento armorial, Carrero seguia a ideia fundadora de Suassuna, que pregava a necessidade de se fazer uma arte erudita nordestina com raízes na cultura popular. 

Em 2000, o escritor, nascido em Salgueiro (PE) em dezembro de 1947, ganhou o Prêmio Jabuti pelo livro As sombrias ruínas da alma, um romance epistolar cujo narrador anônimo conta histórias de vidas abatidas pela crueldade da desigualdade social. O livro de ficção mais recente do autor, Estão matando os meninos, publicado em 2020, retoma a temática do romance premiado: em 14 contos com narrativas interligadas, ele investiga a trajetória de crianças mortas em consequência da injustiça social. 

Entre 2009 e 2010, o pernambucano ganhou ainda o Prêmio Machado de Assis de Melhor Romance e o Prêmio São Paulo de Literatura de Melhor Livro do Ano por Minha alma é irmã de Deus. Em 2015, Carrero venceria o Troféu APCA de Melhor Romancista do ano, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte.

Fazem parte também da obra do escritor dois livros de ensaios: Os segredos da ficção (2005) e A preparação do escritor (2009). São publicações na quais Carrero reflete sobre o próprio ofício e a arte de escrever, cujas técnicas ele procurava ensinar em uma oficina de criação literária que ministrava desde a década de 1990.

Raimundo Carrero também foi presidente da  Fundação de Patrimônio Artístico e Histórico de Pernambuco (Fundarpe) e integrava a Academia Pernambucana de Letras (APL/PE) desde 2005. Em nota de pesar, a APL lembrou que o escritor morreu no dia em que "seu  mestre e amigo" Ariano Suassuna completaria 99 anos. "Natural de Salgueiro (PE), Raimundo Carrero foi um dos mais importantes escritores pernambucanos de sua geração", diz a nota.

 


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