É um caso de tripla paixão o espetáculo Amar e mudar as coisas - Belchior 80, uma homenagem que também serve de palco para uma leitura feminina e cheia de nuances da obra do garoto latino-americano. Em cartaz de hoje até domingo na Caixa Cultural, o espetáculo leva ao palco um repertório de 16 canções reunidas em 1h20 de um show idealizado por Taciana Barros e executado por ela mesma, ao lado de Marisa Orth, Karina Buhr e uma banda sustentada por Zéli Silva (baixo acústico) e Estevan Sinkovitz (violão).
Tudo começou em 2017. Antônio Carlos Belchior morreu em abril daquele ano, o mesmo em que o jornalista Jotabê Medeiros lançou a biografia Belchior — Apenas um rapaz latino-americano. "Para o lançamento do livro, o pessoal da editora (Todavia) me convidou para fazer alguma coisa para celebrar. E pensei: se for para fazer Belchior, tem que ser uma coisa grande. Sou muito fã, cresci ouvindo e ele tem um repertório absurdo, muito profundo, que conta a história do país. Então, pensei: vamos fazer um show", conta Taciana Barros, diretora e idealizadora do espetáculo.
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A primeira versão do show reunia a própria Taciana, Buhr e Ana Cañas. Foi com esta última que Marisa Orth assistiu ao espetáculo pela primeira vez. "Tudo começou porque, graças a Deus, sou amiga da Taciana", brinca Marisa. "Ela estava organizando esse show, mas já estava com elenco completo. Eu ficava com o olho comprido, querendo fazer também. E aí acabou rolando para o meu lado. Deu uns três anos e me chamaram. E eu fui, porque sou louca pelo Belchior desde o início." Marisa Orth pode até ser mais conhecida como atriz — foram muitas novelas e a inesquecível Magda Antibes de Sai de baixo —, mas a vida atrás de um microfone foi tão intensa quanto aquela desempenhada atrás das câmeras. "Trabalho com isso desde 1986, meu primeiro sucesso foi com a banda Luni, na peça Fica comigo esta noite, e primeira vez que estive na Globo foi com Luni abertura de Que rei sou eu? Depois, veio a Vexame, sim, uma banda. É bom que a pessoa já entra avisada. A música sempre me acompanhou, sempre esteve comigo. Sou atriz, mas canto desde sempre", conta.
No teatro musical, Marisa fez Sunset Boulevard e A família Addams. No palco, integrou as bandas Luni, nos anos 1980, e Vexame, que durou até 2007 e com a qual faz um revival desde maio no Blue Note de São Paulo. Belchior é um nome presente desde sempre na carreira de Marisa, que já havia cantado Paralelas com a Vexame e com o próprio compositor, durante uma participação no programa Altas horas, da Rede Globo. "Eu ouvia Belchior no rádio quando ele estava aparecendo. Comprei o primeiro disco, era um ídolo, ele, Fagner, Alceu Valença, Simone", conta.
No espetáculo, Marisa ficou com o repertório cantado por Ana Cañas. Entram nessa lista Como nossos pais, Velha roupa colorida, Na hora do almoço e Coração selvagem. "Essa eu pedi", avisa. Alucinação e Apenas um rapaz latino-americano, as três cantam juntas. A interpretação de Elis Regina para Como nossos pais é icônica e uma referência, mas Marisa preferiu trabalhar os vocais da canção ouvindo o próprio Belchior. "Fui buscando a interpretação dele, que era um excelente cantor e eu queria entender quem era ele. Mas eu também meio que imito Elis", admite.
Buhr conta que topou imediatamente quando recebeu o convite de Taciana. "Mesmo na época sendo um desafio total para mim cantar músicas que não eram minhas, ficar nesse lugar de cantora. Gosto muito das músicas e letras de Belchior, mas nunca pensaria em cantar. O convite de Taciana abriu várias janelas sobre interpretação e outras maneiras de estar num palco cantando", conta a cantora que, em entrevista, revelou ter tido pouco contato com a música de Belchior ao longo da vida. "Belchior não fez muito parte das músicas que eu ouvia. Ele estava ali por perto, mas o mergulho mesmo dei a partir da feitura desse show. Gosto muito da maneira dele compor, de fazer tudo o que ele quer falar caber ali naquelas melodias, naquelas divisões estranhas."
Amar e Mudar as Coisas - Belchior 80
Com Marisa Orth, Buhr e Taciana Barros. Hoje, às 20h, e quinta e sexta, às 19h e às 21h. Sábado, às 17h e às 20h, e domingo, às 18h. Temporada até domingo, na CAIXA Cultural (SBS Q. 4 Lotes ¾). Ingressos: R$ 30 e R$ 15, na Bilheteria Cultural
Três perguntas//Karina Buhr
Qual foi o maior desafio na produção desse show?
Cantar músicas que não são minhas, porque eu sempre fiquei num lugar de não me ver como cantora, mas como compositora e intérprete das minhas músicas e, aí isso mudou, aos poucos, a partir desse show.
O que há de especial na sua parte do repertório e como foi o trabalho com vocal e com os arranjos?
Entre as que canto estão Fotografia 3x4 e A palo seco. Gosto muito delas, são músicas como texto de teatro. Os arranjos foram criados por Taciana Barros e são bem simples, exaltando a poesia de Belchior. Não temos bateria, temos umas poucas percussões e quem guia é a poesia mesmo e a força das melodias no violão, guitarra e contrabaixo acústico.
Que raízes em comum têm você e Belchior?
Não vejo raízes em comum entre Belchior e eu. Gosto das palavras, de fazer elas caberem, e ele também, e isso é uma liga.
