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'Apenas coisas boas': Lucas Drummond vislumbra horizonte diverso para carreira

Protagonista do longa "Apenas coisas boas", o ator e criador Lucas Drummond defende narrativas que abordam com verdade o universo LGBTQIAPN+ e expõe o desejo de ser chamado para fazer novelas: "Estou pronto para enfrentar esse desafio".

A estreia de Apenas coisas boas nos cinemas, na última quinta-feira (25/6), marca um momento simbólico na trajetória de Lucas Drummond. Aos 34 anos, o ator, roteirista e produtor carioca assume pela primeira vez o protagonismo de um longa-metragem e vê concretizar uma construção profissional que começou há quase uma década, quando decidiu investir de forma consistente na carreira audiovisual.

Dirigido por Daniel Nolasco, o filme acompanha Antônio, um homem solitário que vive em uma propriedade rural no interior de Goiás, em 1984. Sua rotina silenciosa é transformada quando acolhe Marcelo (Liev Carlos), um motociclista ferido que surge inesperadamente em sua vida. O encontro desperta sentimentos, desejos e reflexões que conduzem o personagem a um processo de autodescoberta.

Em passagem rápida por Brasília, Lucas fotografou em monumentos da cidade e conversou com o Correio. Para ele, o lançamento representa muito mais do que a chegada de um novo trabalho ao circuito comercial. É a consolidação de uma caminhada iniciada em produções como O paciente (2018), de Sérgio Rezende, e construída com dedicação ao cinema independente brasileiro. 

"O primeiro protagonista em um longa-metragem é sempre um momento decisivo. Tenho desbravado o mercado audiovisual em busca de me consolidar nesse lugar, e esse filme representa uma conquista muito importante", afirma ele, que também pode ser visto em Seguindo todos os protocolos, de Fábio Leal, trabalho pelo qual foi indicado ao Sesc Melhores Filmes na categoria Melhor Ator. 

Embora o longa chegue agora ao público, a produção foi filmada há cerca de dois anos e percorreu uma trajetória bem-sucedida por festivais nacionais e internacionais. Seu trabalho no filme lhe rendeu o Prêmio de Melhor Atuação no Digo 2026 — Festival Internacional de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero de Goiás, Melhor Ator no festival cearense For Rainbow e no canadense Reel Out Kingston, além de uma indicação ao Iris Prize, uma das mais importantes premiações internacionais dedicadas ao cinema LGBTQIAPN+. Ele também foi convidado, este ano, para integrar o Júri da Mostra de Curtas do Frameline — Festival de cinema LGBT de São Francisco, um dos mais antigos do mundo. 

João P. Teles - Lucas Drummond, ator

Naturalidade ante o tabu

Um dos aspectos que mais chamam atenção no filme são as cenas de nudez e sexo, frequentemente associadas às narrativas queer no cinema. Lucas, porém, trata o assunto com naturalidade. "As cenas de nudez e sexo nunca foram um problema para mim. Eu as encaro como parte da narrativa quando são necessárias para contar uma história e, em Apenas coisas boas, elas funcionam como uma libertação para um personagem que sempre viveu para dentro de si mesmo", reflete. "Existe um tabu muito grande em torno dessas questões, mas, para mim, elas são naturais e orgânicas. Meu desafio maior foi lidar com os animais durante as filmagens", revela, entre risos. 

A parceria com Daniel Nolasco está longe de terminar. Os dois voltam a trabalhar juntos em Pequenas tragédias, projeto que mistura linguagem documental e ficcional para abordar episódios de homofobia no interior de Goiás, vividos pelo próprio cineasta. No filme, Lucas interpreta um homem vivendo com HIV que busca se enquadrar em padrões físicos para escapar de estereótipos sociais.

Além das câmeras, o ator construiu uma carreira paralela como criador de oportunidades. Formado em teatro no Tablado e em interpretação no Stella Adler Studio of Acting, em Nova York, ele escreveu, produziu e estrelou curtas como Depois daquela festa — sobre um pai que se assume gay para o filho, que circulou por 62 festivais em 26 países — e Todos os prêmios que eu nunca te dei — ambos dirigidos por Caio Scot. No ano passado, ele também produziu e estrelou Nesta data querida, curta musical escrito por Vitor Rocha, dirigido por André Leão e disponível na Globoplay. 

Nos palcos, também acumula funções de ator e produtor em montagens como Órfãos — dirigido por Fernando Philbert, trabalho pelo qual foi indicado ao Prêmio APTR de Melhor Ator — e O formigueiro, escrito e dirigido por Thiago Marinho, um dos sucessos recentes da cena teatral carioca. Em cartaz desde outubro de 2025, o espetáculo chamou a atenção pela repercussão junto ao público e à crítica e recebeu quatro indicações a prêmios, entre eles, o APTR de Melhor Produção em Teatro.

Essa multiplicidade de funções nasceu de uma escolha consciente. "Entendi muito cedo que, criando minhas próprias oportunidades, eu não preciso depender apenas de convites. Produzir é uma forma de conduzir a própria carreira na direção desejada", defende o ator. 

João P. Teles - Lucas Drummond, ator e produtor

"Nunca estive no armário"

Apesar do reconhecimento crescente no cinema e no teatro, Lucas não esconde um objetivo que ainda deseja alcançar. "Quero fazer novela. Quero viver essa experiência. Estou pronto para enfrentar esse desafio", afirma ele, que, no audiovisual, também atuou em séries como Todxs nós e Máscaras de oxigênio (não) cairão automaticamente, na HBO Max.

A declaração surge em um momento em que o ator acredita ter reunido repertório suficiente para transitar entre diferentes formatos e públicos. Para ele, o protagonismo conquistado em Apenas coisas boas pode abrir novas portas e ajudar a romper rótulos ainda presentes no mercado audiovisual. 

"A sexualidade pode acabar sendo um obstáculo em alguns momentos porque eu nunca estive no armário. Mas acredito que esse protagonismo no cinema ajuda a mostrar que sou um ator versátil, capaz de encarar diferentes desafios dramatúrgicos", avalia o virginiano.

A relação de Lucas com a representatividade LGBTQIAPN+ também tem raízes profundas. Durante a graduação em jornalismo, ele dedicou seu trabalho de conclusão de curso ao impacto do personagem Félix, vivido por Mateus Solano na novela Amor à vida (TV Globo, 2013), na teledramaturgia brasileira e na luta por visibilidade da comunidade. Hoje, ele vê sua própria trajetória dialogando com essa história de transformação. "Cresci com poucas referências LGBT na televisão e no cinema. Poder contribuir para que novas gerações tenham mais personagens e mais narrativas é algo que considero fundamental", pondera.

Para Lucas, interpretar personagens queer nunca foi sobre reduzir identidades a clichês. Em Todxs nós, ajudou a introduzir o debate sobre não binariedade para o grande público — inclusive para sua própria mãe. Já em Máscaras de oxigênio, mergulhou na história real de comissários que arriscaram vidas para salvar outras durante a epidemia de aids. "São projetos diferentes, mas todos mostram que somos mais do que nossa sexualidade. Somos humanos, com contradições e histórias universais", conclui.

Enquanto aguarda a recepção do público para Apenas coisas boas, que teve ótima aceitação pelos espectadores na pré-estreia em Brasília, Lucas trabalha nos próximos passos. Entre os projetos estão a captação de recursos para levar O formigueiro a outras cidades, o retorno de Órfãos aos palcos, a codireção do curta Pacman — sua estreia atrás das câmeras ao lado de André Leal — e a finalização do roteiro de seu primeiro longa autoral. "Vem muita coisa boa por aí", adianta.

 

Costa Blanca Films -
Divulgação -
PH_Costa_Blanca -

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